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Pensar
de forma mais rigorosa é condição necessária
para quem deseja ser mais feliz.
1. Pensamos por meio de palavras
e frases. Em nosso processo de reflexão elas
desempenham um papel semelhante ao dos números na
matemática. Qualquer erro no uso das
palavras determina um engano que, na seqüência dos
pensamentos, tenderá a se amplificar e nos
conduzirá a conclusões cada vez mais equivocadas.
Não se trata de insistir para que sejamos mais
atentos ao significado das palavras que utilizamos
apenas por purismo ou por um anseio perfeccionista.
Trata-se de não utilizarmos mal nossa mente, já
que ela funciona a partir das palavras, frases e
suas conclusões que delas extraímos. Qualquer erro
poderá ter conseqüências desastrosas para nosso
futuro. O mais grave é que teremos cada
vez mais dificuldade para detectar onde ele está,
já que ele costuma se perder na cadeia das nossas
reflexões.
2.
A forma mais comum de engano no nosso
sistema de pensamento deriva de usarmos uma mesma
palavra com mais de um sentido. No caso
em questão, a palavra é AMOR. Na
linguagem coloquial, amor é usado como sinônimo de
solidariedade, como amor por tudo e por todos
aqueles que estão sobre a Terra. “Eu te amo” é uma
expressão usada por um sedutor que conheceu sua
"vítima" há poucos minutos e deseja levá-la para a
cama. Pessoas alegres e pouco criteriosas se dizem
encantadas e amam com facilidade cada nova pessoa
que conhecem. Uma pessoa egoísta empenhada em se
mostrar feliz consigo mesma não titubeia em
afirmar: “eu me amo”. Estamos diante de diferentes
usos da mesma palavra: uso equivocado, vazio,
idealizado ou maroto. Usamos a palavra
amor como o coringa em certos jogos: ela serve
para todos os momentos e para todas as situações.
3.
Amor é palavra usada e abusada. É dita por quem
tem alguma idéia acerca do seu significado e
também por aqueles que a repetem apenas por
imitação. Usa-se mais a palavra amor do que
vive-se o sentimento. E quantas são as
pessoas que se sentem felizes no amor?
Pouquíssimas. E quem é capaz de definir o que seja
o amor? Quase ninguém. E como podemos pretender
nos dar bem nesse campo se não sabemos nem mesmo
como conceituar o sentimento? Peço
licença para propor uma definição de amor. Sugiro
que acompanhem com atenção a seqüência do
pensamento para que possamos iniciar a desenrolar
esse intrincado novelo de lã. A questão é
fundamental, pois envolve emoções que nos são
fundamentais e em torno das quais temos sofrido
muito. Envolve também um exercício de reflexão,
uma introdução à arte de pensar com rigor e
precisão, condição importantíssima a ser
respeitada quando pretendemos nos aprofundar em
qualquer setor da nossa subjetividade -- ao menos
por aqueles que pretendam desenvolver uma vida
íntima rica, gratificante e criativa.
4.
Defino o amor como o sentimento que
vivenciamos em relação àquela pessoa cuja presença
nos provoca a agradável sensação de aconchego.
O aconchego é fundamental para nós, já que, desde
o nascimento, nos sentimos desamparados,
ameaçados, inseguros e incompletos. Nosso primeiro
objeto do amor é nossa mãe. O objeto do amor vai
se modificando ao longo da vida, mas em cada fase
corresponde a um objeto definido. Assim, o
amor é um fenômeno interpessoal, já que amamos
alguém cuja presença nos aconchega. De acordo com
essa definição, não pode existir amor por si
mesmo, posto que não me sinto completo e
aconchegado quando estou sozinho. Se me
sentisse assim pleno em mim mesmo, o mais provável
é que não existiria o amor por outra pessoa, uma
vez que o convívio íntimo implica em concessões e
dificuldades que só são enfrentadas em decorrência
dos benefícios que experimentamos a partir dessa
intimidade.
5.
Não tenho a menor dúvida de que sexo e
amor correspondem a impulsos completamente
diferentes, apesar de que sempre foram
tratados com parte de um mesmo instinto,
especialmente por parte da psicologia
psicanalítica tão influente no século XX. Temos
que ter a coragem de discordar até mesmo dos
grandes mestres. Não podemos continuar a repetir
suas falas como papagaios. Temos que poder pensar
por conta própria. Do meu ponto de vista o
sexo corresponde a um fenômeno instintivo que se
caracteriza pela sensação de excitação que
experimentamos ao tocarmos nossas zonas erógenas.
Essa é sua manifestação primeira e que se dá pelo
fim do primeiro ano de vida. É evidente que o
processo se sofistica principalmente a partir da
puberdade, quando surgem as diferenças físicas
entre os sexos e onde entra em cena a excitação
que deriva dos estímulos visuais e também aqueles
que derivam de fantasias que nossa mente é capaz
de construir. De todo o modo, as diferenças entre
amor e sexo são gritantes: amor é a
sensação de prazer que deriva do fim da dor
relacionada com o desamparo; sexo é um prazer
positivo, já que independe da existência prévia de
uma dor ou desconforto. O amor é interpessoal, uma
vez que o aconchego depende da presença de uma
outra pessoa; o sexo é pessoal, posto que a
estimulação das zonas erógenas pode ser feita pela
própria pessoa. O amor é sentido por um objeto
definido, ao passo que a excitação sexual
independe de objeto definido e pode ser despertada
por múltiplas pessoas em um tempo muito curto.
Amor e sexo são impulsos completamente diferentes,
que podem ser vivenciados separadamente. É claro
também que combinam muito bem e nada é mais
agradável do que trocar carícias eróticas com
aquela pessoa que também nos provoca a sensação de
aconchego!
6.
A partir dessas definições precisas -- e que podem
não ser as melhores, substituíveis a qualquer
momento por outras igualmente rigorosas -- fica
claro como é difícil sustentar como interessantes
as expressões “amor próprio”, “amor ao próximo” e
principalmente “fazer amor”. Fica difícil também
entender como é que se perpetuou o uso de
“auto-estima”, já que, de alguma forma significa o
mesmo que amor por si mesmo. Vamos tentar desfazer
essa confusão passo por passo. Fazer amor
é expressão usada como sinônimo de trocas
eróticas, o que não tem nada a ver com o fenômeno
amoroso. Acredito que a expressão foi
cunhada com o intuito de “purificar” os “pecados”
do sexo, uma vez que a palavra “amor” daria
dignidade e beleza ao que era visto como sujo e
indigno. Amor é um sentimento e não se “faz” um
sentimento. É comum que as trocas eróticas se dêem
entre aqueles que se amam. Porém, não sei se a
prática sexual não é mais comum entre os que não
se amam -- e que muitas vezes nem mesmo se
conhecem. Transar é expressão bastante
mais adequada para descrever as trocas eróticas
que envolvem um relacionamento sexual.
7.
Amor ao próximo
pressupõe um sentimento difuso de amor por todas
as pessoas, o que não está de acordo com a idéia
de que o sentimento só se manifesta em relação a
quem nos provoca aconchego. Pode existir
uma certa sensação de aconchego quando nos
sentimos integrados em um grupo maior, como por
exemplo quando nos sentimos parte de um povo, de
uma pátria. Penso que a melhor palavra para
definir esse outro tipo de aconchego derivado de
nos sentirmos integrados em um todo maior é
solidariedade. Solidariedade é um
sentimento humano sofisticado, através do qual nos
integramos em uma dada comunidade. Nos sentimos
parte dela, co-responsáveis por seu destino e
dispostos mesmo a morrer em sua defesa. Nossa
identidade se afrouxa, de modo que nos tornamos
antes uma ínfima parte daquele todo e depois nós
mesmos. Nosso destino se identifica com o destino
daquele grupo. O sentimento pode nos fazer
integrado a toda a humanidade, o nos permite
entender as palavras do poeta quando ele fala
“desses pobres de nós seres humanos”.
8.
Outras vezes usamos, inadequadamente, a expressão
amor ao próximo para descrever situações nas quais
não estamos integrados mas estamos preocupados com
as pessoas que nos cercam. Compaixão
descreve um sentimento derivado de nos sentirmos
sofridos em virtude de nos identificarmos com o
sofrimento daqueles que estão à nossa volta.
Determina um desejo de ajudar aqueles que estão
necessitados. É um sentimento vivido por alguém
que se encontra em uma boa condição mas que se
incomoda com o fato dela não ser compartilhada por
outros membros do grupo. Na solidariedade,
somos parte do grupo e nos sentimos integrados
nele. Na compaixão, estamos fora do grupo e
sofremos com as dores dele. Em nenhum dos
casos cabe a expressão “amor ao próximo”, quase
sempre usada quando nos preocupamos com o destino
daqueles que nos cercam e principalmente quando
nos preocupamos em ajudar os que estão próximos.
Daí outra confusão, através da qual se costuma
dizer que “amar é dar”. Amar é amar e dar é dar!
Trata-se de dois verbos com significado
completamente diferente.
9.
Amor próprio e auto-estima
derivam da idéia de que existiria um efetivo amor
por si mesmo, o que contraria frontalmente a
definição de amor que venho defendendo há 25 anos.
Acontece que existe alguma coisa que sentimos em
relação a nós mesmos. Só que não se trata de um
ingrediente amoroso e sim sexual. Não
existe amor por si mesmo mas existe um importante
elemento auto-erótico. Existe um tipo de excitação
sexual que deriva de nos sentirmos importantes,
valorizados, olhados com admiração. Corresponde ao
que chamo de vaidade. Vaidade é conceito
mais útil do que narcisismo, já que esse último
implica na continuidade da confusão entre sexo e
amor. Narcisismo não seria amor por si mesmo mas
sim erotismo focado em si mesmo; para esse fim, a
palavra vaidade presta melhores serviços. Por
força da interferência da razão, a vaidade também
está a serviço da preservação da nossa
integridade. Ela nos protege contra ofensas sutis
à nossa pessoa, aquelas que ferem nossa vaidade.
Ela nos protege porque, quando ofendidos ,
sentimos o oposto da sensação positiva da vaidade,
que é a humilhação. Humilhação é a
dolorosa sensação que vivenciamos quando somos
depreciados, olhados com desprezo ou desdém.
Dizemos que temos amor próprio quando nos
insurgimos contra situações de humilhação.
O termo ideal para substituir amor próprio talvez
seja orgulho - ou seria honra? Nos sentimos
ofendidos e gravemente feridos quando somos
tratados de modo desconsiderado, o que nos provoca
a sensação de humilhação, o que ofende nosso
orgulho. O fenômeno não é amoroso e a
ofensa nos incomoda mesmo quando vem de alguém que
mal conhecemos. É claro que nos magoa mais quando
somos agredidos por aqueles que nos são caros -- e
mais ainda pelo amado.
10.
Auto-estima, apesar de estima significar afeição,
diz respeito ao juízo que fazemos de nós mesmos.
Nossa auto-estima é boa quando somos e agimos de
uma forma que nós próprios aprovamos; a
auto-estima é baixa quando nós mesmos não estamos
concordando com nossos procedimentos. É
claro que a opinião dos outros pode interferir em
nossa auto-estima. Porém, um elogio ou qualquer
ação externa que nos enalteça não nos provocará
nenhum efeito se não estivermos satisfeitos com
nossas posturas. É fato também que uma crítica
vinda de fora, dirigida a quem já está tendo um
juízo negativo de si mesmo, será muito mais
facilmente absorvida. Não consigo pensar
numa boa expressão que substitua “auto-estima” com
vantagem. Reafirmo, porém, que não se trata de
gostar de si mesmo e que uma boa auto-estima
depende de estarmos vivendo de acordo com nossas
próprias convicções.
11.
O que pensar quando se ouve uma multidão de
indivíduos repetir, sem qualquer esforço
reflexivo, que “para ser capaz de amar uma pessoa
tem que, antes, amar a si mesma”? A frase lembra
aquela que se lê na Bíblia, que pede que amemos o
próximo como a nós mesmos. Não sou um bom
entendedor do texto bíblico mas creio que o termo
amor foi usado num sentido muito mais amplo do que
descrevi nesse texto. Penso que o texto
bíblico pede às pessoas que tratem seus
semelhantes com a consideração, respeito e zelo
que esperam ser tratados. A reflexão é antes de
tudo moral, na qual uma pessoa não deveria se
atribuir mais direitos do que aqueles atribuídos
às outras. Não creio que esteja se
referindo ao relacionamento íntimo entre duas
pessoas. Por outro lado, se refletirmos sob a
ótica da psicanálise, o narcisista -- aquele que,
segundo essa teoria, ama a si mesmo -- não é capaz
de amar outras pessoas. O amor se concentra em si
mesmo por medo de se deslocar em direção ao outro.
Medo sim, pois sabemos que o amor envolve risco de
sofrimento derivado de uma eventual perda; sabemos
que o narcisista é criatura imatura e que, por
tolerar mal dores e frustrações, não se arrisca.
Assim, não tendo capacidade para amar, apenas
espera receber amor dos outros, além de amar a si
mesmo. Essa também não é minha convicção,
já que pessoas assim imaturas e medrosas não têm
boa auto-estima. Fingem estar bem consigo mesmas
mas é só aparência. No fundo, sabem que são um
blefe e porisso mesmo se tornam invejosas daqueles
que são mais corajosos. Assim, não creio que se
amem, de modo que, mesmo se respeitarmos as teses
psicanalíticas, não deveriam ser chamadas de
narcisistas. Se existisse amor por si
mesmo, como já escrevi, provavelmente não
existiria o amor como o vivenciamos. Quem é
corajoso, ousa amar e tenta aliviar o desamparo
através do aconchego que a presença do outro
determina. Quem tiver boa auto-estima -- e
isso é muito diferente de amar a si mesmo -- será,
isso sim, capaz de escolher melhor o parceiro, uma
vez que se considerará com direito a uma companhia
à altura do julgamento que faz de si mesmo. |