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A Mulher está
mesmo sempre receptiva para o Sexo?
Flávio Gikovate
Tenho um pouco de medo das comparações que
costumamos fazer entre o que observamos em outros
animais e em nós. As semelhanças existem, é claro.
Acho, porém, que devemos dar maior ênfase às
diferenças, pois são elas que definem cada
espécie. Assim, costuma-se dizer que as mulheres,
diferentemente de outras fêmeas, vivem num cio
permanente. Vamos refletir um pouco sobre esta
questão palpitante.
As fêmeas dos mamíferos superiores entram no cio
quando estão ovulando, ou seja, quando estão
disponíveis para a fecundação. O subproduto de
hormônios femininos faz surgir odores especiais na
urina delas; estes são captados pelos machos
daquela espécie. Ao detectarem o cheiro peculiar
ficam excitados e partem em disparada na direção
daquela fêmea que o está exalando. Disputam com
outros machos a primazia da cópula que, ao
ocorrer, dá início ao processo que interrompe o
ciclo reprodutor da fêmea. Assim, percebemos que
as fêmeas das outras espécies estão disponíveis e
atraem os machos apenas durante o período de
fertilidade, ou seja, durante o cio.
Nas comparações que fazemos ao estudarmos o tema
em nossa espécie, fica claro que as mulheres
atraem os homens durante todo o ciclo menstrual,
inclusive durante a menstruação. Se analisarmos o
caso do ponto de vista do desejo que elas
despertam nos homens, podemos pensar que vivem um
cio constante, visto que as outras fêmeas só
atraem os machos durante esse período específico.
Este seria um modo muito incompleto de analisar a
questão, além de me parecer um tanto curioso
tentarmos pensar sobre o que acontece com uma
mulher apenas por aquilo que ela desperta nos
homens. Dizer que a mulher vive no cio me parece
uma visão masculina e, até certo ponto, machista.
Temos que nos ater ao outro lado da questão, que é
o que acontece com a mulher. O fato de o desejo
sexual, na nossa espécie, ser intermediado
basicamente pela visão faz com que a mulher
apareça como interessante sexualmente aos olhos
dos homens o tempo todo. Isto não quer dizer que
ela se sinta disponível para a intimidade sexual
durante todos os dias do mês. E mais: mesmo se
puder ter relações a qualquer tempo, não quer
dizer que não existam dias do ciclo nos quais se
sinta mais excitada. Não é mesmo impossível que
estes dias de maior disponibilidade coincidam com
aqueles da ovulação. Uma coisa é a mulher
despertar o desejo do homem o tempo todo e outra
coisa é ela estar o tempo todo com a mesma
disposição para o sexo.
Insisto em que isto não nos permite nenhuma
conclusão a respeito do que as mulheres sentem a
respeito do assunto. Como a norma tradicional e
nossa cultura sempre foi a de que cabe aos homens
a iniciativa sexual, sendo que até há pouco tempo
não era dado à mulher o direito de recusa, é claro
que nunca se questionou com seriedade o que, de
fato, acontece com ela.
Não é impossível que muitas mulheres tenham
vivenciado sentimentos de incompetência sexual por
não estarem sempre com um desejo equivalente ao
que despertavam em seus companheiros. É claro que
muitos homens se sentiram rejeitados
injustificadamente porque não encontraram mulheres
disponíveis para eles – para o sexo e não para
eles – exatamente naqueles dias em que elas tanto
os provocavam e excitavam por sua aparência
sensual, com maior facilidade porque a dependência
prática que se estabelece é muito menor. Inteiros
que se aproximam e se amam não se sentem donos do
outro pelo simples fato de os amarem. Não existem
os direitos de mandar e desmandar no outro apenas
porque há o elo amoroso. Inteiros que se sentem
insatisfeitos podem ir embora. Esta é a novidade
maior, pois não há mais lugar para abusos e
dominações.
Assim, sem que tenhamos percebido, a capacidade de
conceder que caracteriza as pessoas generosas tem
diminuído em virtude de elas poderem ficar melhor
consigo mesmas. Passam a pretender parceiros mais
delicados, mais preocupados com o direito delas,
menos egoístas. Assim, egoísmo e generosidade
estão saindo de moda. Sim, porque se o generoso
quer que se preste atenção nele e nos seus desejos
de ser generoso está se encaminhando na direção do
senso de justiça. Com isto não haverá mais lugar
para o egoísmo que só existe porque há
generosidade. O que tem acontecido? Inteiros se
aproximam, se “curtem”, estabelecem elos onde há
preocupação permanente em agradar o outro, ao
mesmo tempo em que não abrem mão de seus direitos
individuais. A palavra-chave desta nova e mais
sofisticada forma de amar é a mesma que sempre e
existiu nas amizades: respeito.
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