Vida solitária

São freqüentes os pacientes que me procuram no consultório por quererem entender por que sentem um grande vazio, solidão profunda, mesmo tendo um(a) companheiro(a) ou estando rodeados de amigos, parentes, etc. Sentem-se deslocados, como não fazendo parte ou não se sentindo pertencentes a nenhum lugar, mesmo no seio de sua própria família (muitos me dizem que se sentem um estranho no ninho, não se identificando com nenhum membro de sua família em gostos, valores, formas de pensar, etc.). Há ainda aqueles que buscam preencher esse vazio interior, essa solidão, com drogas, bebidas, sexo, ao consumir compulsivamente, ou ao se ocupar em excesso no trabalho (workaholics).

Mas em todos os casos, essa fuga ilusória não resolve sua solidão, pois o vazio interior e a insatisfação continuam presentes. No aspecto afetivo, temos a solidão a dois, onde o casal experimenta um tédio, um vazio interior interminável. Estão juntos apenas fisicamente, pois não há carinho, amizade e cumplicidade. Daí ambos vivenciarem a dolorosa sensação de solidão por sofrerem também do medo da intimidade.

Entendo intimidade como a liberdade de ser o que se é, sem máscaras, disfarces, sem manipulação por meio de jogos de poder, de dominação. Em outras palavras, intimidade é a expressão livre e prazenteira do que penso e sinto, sem reservas ou medo de ser julgado ou criticado, porque existe confiança. Embora a experiência da intimidade seja a forma mais rica de relacionamento num casal, é, por outro lado, a mais temida por muitos, pois não sabem como ser íntimos, cúmplices nesta jornada terrena.

Não se permitem serem verdadeiros, amorosos; neste aspecto, há casais que conversam somente assuntos triviais do cotidiano, mas não conseguem ser íntimos, expressar sentimentos de calor, ternura ou mesmo discutir seus conflitos, anseios e diferenças. Vivem, portanto, na superficialidade, conversando só o essencial. Não percebem, mas vivem num verdadeiro torpor mental e emocional por estarem anestesiados emocionalmente.

Pode ocorrer também que o corpo e a alma estejam dissociados e fragmentados. Ou seja, seus corpos agem de uma forma, enquanto suas palavras dizem o contrário. Proferem, por exemplo, palavras cheias de raiva com um sorriso nos lábios. Resultado: vida íntima medíocre, limitada, sem paixão nem compaixão e profunda solidão. Qual o aprendizado do casal? Resgatar a capacidade de amar, ser funcional do ponto de vista amoroso, exercitando a ternura, dulcificando mais o coração.

Caso Clínico: SOLIDÃO
Homem de 42 anos, casado, um filho.

Veio ao meu consultório um homem de 42 anos, com a seguinte queixa: solidão. Assim ele me relatou na entrevista de avaliação: Dr. Osvaldo, me sinto só, um vazio, uma angústia, uma saudade, não tenho idéia do motivo. Sou casado, tenho um filho, minha vida financeira é estável, minha esposa também trabalha, temos uma vida muito boa. Fico até com remorso por me sentir assim. Minha esposa me perguntou por que não sou feliz com ela. Eu lhe respondi que não sou feliz com nada, que o problema está em mim.

Na primeira sessão, após o relaxamento progressivo, o paciente me relatou: Vejo uma casa, é uma casa de época… Parece uma fazenda. É uma casa branca, toda cercada por uma varanda grande. Vejo um homem sentado em uma cadeira de balanço, ele tem por volta de 45 anos –mas aparenta ser mais velho– usa barba e bigode, está com uma roupa branca, fuma um cigarro, tem um rosto sofrido. Parece um coronel desses de plantação de café do período colonial.

Entre nessa casa – peço ao paciente. Vejo uma família que se aproxima da casa, um homem, uma mulher e uma menina. O homem parece pedir emprego para o coronel e a mulher e a menina ficam afastadas. (pausa). Acho que esse coronel sou eu nessa vida passada. Eu olho para a menina e me encanto com ela; ela tem por volta de 15 anos. Sou casado, minha esposa está muito doente pela perda do nosso filho. Eu acabo dando emprego a esse homem na plantação; a mulher e a menina ficam trabalhando dentro de minha casa. Fico impressionado com a beleza daquela menina; ela também me olha diferente, só que sou casado e ela é apenas uma menina.

Avance nessa cena e veja o que acontece – peço ao paciente. Minha esposa faleceu e, por incrível que pareça, não fiquei triste, pois eu queria aquela moça. O nome dela é Júlia. Sinto uma sensação de liberdade, pois só assim eu poderia me casar com aquela menina, com a Júlia. Queria ser feliz, poder ter filhos, viver… Foi o aconteceu… Vejo-me casando com a Júlia, eu estava apaixonado, fazia tudo pra ela.

Avance novamente nessa cena – peço ao paciente. Agora, eu a vejo grávida… ela está linda, tem uma barriga linda; a criança nasce, é um menino, se chama Davi. Foi o primeiro dos sete filhos que tivemos: 5 meninos e 2 meninas. (pausa). Sinto agora uma dor muito forte no meu corpo, estou doente e os 15 anos que vivi com a Júlia estavam pra acabar porque estou para morrer. Vejo a Júlia do lado de meu leito o tempo todo; vejo o sofrimento em seus olhos pedindo para que eu fique; sinto também que ela não quer que eu sofra. Ela ficou do meu lado até o final e dissemos um para o outro que iríamos nos reencontrar. (pausa). Dr. Osvaldo sinto que a Júlia não é a minha esposa atual; sei que não é ela. (pausa). Sinto aqui no consultório um ser espiritual… Ele quer falar comigo.

Veja o que ele quer falar – peço ao paciente. É uma revelação, ele diz: ‘Sua vida dentro em breve irá mudar; o tempo de sua esposa e o seu já se cumpriram, a natureza irá se encarregar e cada um irá seguir um caminho, não haverá sofrimento, pois sua esposa também sente que está no fim, e ela também irá encontrar o seu verdadeiro companheiro. Sua Júlia está resolvendo suas pendências e, muito em breve, vocês irão se encontrar; tenha calma e paciência. Só houve a autorização dessa revelação pela sua maturidade e merecimento, pois poucos têm essa oportunidade. Fique em paz e seja feliz’! Ele está indo embora, nem disse o nome dele. Dr. Osvaldo, estou tão feliz, a Júlia irá voltar pra mim, meu Deus, que maravilhoso! Sinto o meu coração saltitante, alegre, por mim e também pela minha esposa atual, pois sei que ela sofre também e eu quero que ela seja feliz, que encontre alguém que a ame de verdade.

Este paciente esteve em meu consultório em Junho de 2010, e me mandou um e-mail em Janeiro deste ano, dizendo: Dr. Osvaldo, é com muita alegria e gratidão aos seres espirituais que me ajudam que venho dividir com o senhor e sua equipe: minha amada (Júlia) chegou. Quatro meses após a minha ida ao seu consultório, em outubro de 2010, minha esposa pediu a separação dizendo que não agüentava mais ver a minha tristeza, e eu aceitei. Viajei a trabalho e na volta encontrei uma nova funcionária na empresa onde trabalho; quando a vi não tive dúvida que era ela, a Júlia. Fiquei maravilhado com ela, estamos namorando, é uma sensação que eu não consigo descrever; só sei que eu a amo. Agradeço em minhas orações aquele ser que veio me dar a boa nova, acredito que seja meu mentor espiritual. Fico imensamente grato. Muito obrigado ao senhor, Dr. Osvaldo, e à sua equipe!

Osvaldo Shimoda é colaborador do Site, terapeuta, criador da Terapia Regressiva Evolutiva (TRE), a Terapia do Mentor Espiritual – Abordagem psicológica e espiritual breve. Ministra palestras e cursos de formação de terapeutas nessa abordagem. Ele atende em seu consultório em São Paulo. Fone: (11) 5078-9051
Email: osvaldo.shimoda@uol.com.br





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