O
Câncer está entre as quatro primeiras causas de
mortes no Brasil e infelizmente, ainda é uma
doença cercada por muito preconceito e
desinformação por parte da população em geral.
Além disso, os médicos às vezes atrasam o
diagnóstico e muitas vezes atrasam até o
tratamento, por achar que o problema não tem
solução.
Estimativas feitas pelo Instituto Nacional do
Câncer (Inca) para 2002 mostram que neste ano
deverão ser diagnosticados mais de 337 mil novos
casos, e a previsão é de que cerca de 112 mil
pessoas deverão morrer vitimadas por tumores. De
acordo com o Inca, os tipos mais comuns e que mais
matam no Brasil são os cânceres de mama, próstata,
pele, pulmão, útero e estômago.
Segundo especialistas envolvidos com o problema, o
medo do diagnóstico da doença afasta as pessoas
dos consultórios, fazendo com que as chances do
paciente se beneficiar, com as novas formas de
tratamento, (os avanços conquistados na área
impressionam) sejam nulas. Portanto, o diagnóstico
precoce contribui em grande parte para o sucesso
do tratamento.
O
medo do diagnóstico entre os brasileiros é tão
grande, que dados comparando o Brasil com os
Estados Unidos mostram que nos EUA, onde a taxa de
diagnóstico precoce é alta, a relação entre o
número de novos casos da doença para o número de
mortes é 22%, enquanto que no Brasil este índice
sobe para 40%.
A
nossa intenção é mostrar através deste artigo que
o câncer pode ser prevenido e tratado. É mostrar a
todas as pessoas que por mais assustadora que seja
a doença, ela tem cura. Deve-se procurar mudar a
mentalidade da população e, de muitos
profissionais em relação à doença, de forma a
trazermos mais pacientes aos consultórios para que
realizem exames de detecção precoce e assim, terem
chances de fazer uso dos melhores tratamentos
disponíveis.
Fatores que podem contribuir para o surgimento da
doença
De
acordo com os maiores especialistas da área, os
principais fatores que podem contribuir para o
surgimento do câncer, além do fator genético
(forte histórico familiar), são: maus hábitos
alimentares, fumo, estresse e a obesidade.
Dieta
Muitos componentes da dieta alimentar tem sido
relacionados com o processo de desenvolvimento do
câncer, principalmente o de mama, cólon (intestino
grosso), reto, próstata, esôfago e estômago. Os
estudos mostram que 1/3 de todos os tipos de
cânceres estão relacionados às dietas inadequadas.
Uma
alimentação pobre em fibras, com altos teores de
gorduras e altos níveis calóricos (hambúrguer,
batata frita, bacon, frituras em geral, etc) está
relacionada a um maior risco para o
desenvolvimento de câncer de cólon, reto e mama,
enquanto que cânceres como o de esôfago e estômago
estão relacionados mais com o consumo de alimentos
defumados, assados na brasa e aqueles preservados
em sal.
Churrasco provoca câncer
De
acordo com muitos especialistas, só o cigarro pode
ser mais perigoso do que as picanhas, lombos e
lingüiças assados na brasa ou defumados. Além do
excesso de gordura, que dificulta a digestão,
forçando o fígado e o estômago a produzir ácido em
excesso, levando a uma corrosão das paredes do
intestino, podendo provocar mutações cancerígenas,
os famosos churrascos e alimentos defumados podem
levar para dentro do nosso corpo uma substância
chamada amina heterocíclica.
Essa
substância é criada pelo calor da grelha, formando
aquele pretinho crocante dos churrascos. As aminas
heterocíclicas entram no interior das células,
onde se ligam ao DNA e provocam mutações
cancerígenas. O mesmo vale para os alimentos
defumados impregnados pelo alcatrão (o mesmo do
cigarro) proveniente da fumaça.
O
excesso de sal também é nocivo. Alimentos salgados
demais ou preservados em sal (carne de sol,
charque e peixes salgados) estão relacionados
principalmente ao desenvolvimento de câncer de
estômago. Sozinho o sal não é tão prejudicial, mas
misturado a uma substância chamada nitrosamina
(produzida pela fermentação das carnes ao sol), se
transforma numa toxina cancerígena.
Certos aditivos químicos utilizados na indústria
durante o processo de fabricação dos alimentos
podem também trazer vários riscos para nossa
saúde. É o caso dos nitritos e nitratos. Usados
para conservar alguns tipos de alimentos como
picles, salsichas e alguns tipos de enlatados,
podem transformar-se em nitrosaminas, substâncias
com potente ação carcinogênica, responsáveis por
altos índices de câncer de estômago.
Embora as quantidades de aditivos sejam
regulamentadas e muito pequenas, todo cuidado é
pouco, pois existem casos onde nem todos estão de
acordo quanto à inocuidade desses aditivos. Além
disso, o controle da quantidade desses aditivos é
difícil, bem como a avaliação da susceptibilidade
de cada consumidor aos mesmos, principalmente no
que diz respeito aos danos a longo prazo.
Portanto, a minha dica é que da próxima vez que
for ao supermercado, repare nos ingredientes do
rótulo. Prefira o mais natural, até porque no
tempo das nossas avós elas não usavam aditivos em
suas cozinhas.
Outro ponto importante a ser destacado dentro do
fator dieta diz respeito ao uso de hormônios que
muitas vezes são utilizados para engordar animais
artificialmente. O uso desses hormônios em
frangos, por exemplo, pode ser um fator importante
no desenvolvimento do câncer de mama.
Atenção especial também deve ser dada aos grãos e
cereais (principalmente o amendoim). Se
armazenados em locais inadequados e úmidos, esses
alimentos podem ser contaminados pelo fungo
aspergillus flavus, que produz a aflotoxina, uma
substância cancerígena. Essa toxina está
relacionada ao desenvolvimento de câncer de
fígado.
Fumo e estresse
De
acordo com o Instituto Nacional do Câncer, o
Brasil tem cerca de 30,6 milhões de fumantes.
Desse total, 2,4 milhões são adolescentes entre 15
e 19 anos. Segundo os especialistas, o cigarro é
hoje responsável por cerca de 90% dos casos de
câncer de pulmão, sendo que em 2000 provocou a
morte de 14,5 mil pessoas em todo Brasil.
Já o
estresse, mal que vem crescendo assustadoramente
devido ao ritmo de vida cada vez mais complicado
das pessoas, pode contribuir para o surgimento da
doença na medida em que baixa a imunidade do
organismo. Portanto, um passo importante para as
pessoas que querem se proteger contra o câncer é
eliminar o fumo e levar uma vida equilibrada, sem
correrias e mau humor.
Obesidade
A
obesidade é um problema que está relacionado com
um aumento do risco para o desenvolvimento de
câncer de útero, vesícula biliar, mama e cólon. De
acordo com dados do American Institute for Cancer
Research, a estreita relação entre obesidade e
câncer reside no fato de que com a obesidade os
níveis do hormônio estrogênio aumentam, aumentando
os riscos de câncer principalmente em mulheres
depois da menopausa. A hiperinsulinemia e fatores
de crescimento (IGFs) também são relacionados, mas
o importante é saber que a obesidade promove meio
favorável para o desenvolvimento de tumores, já
que as células, incluindo as cancerígenas, crescem
mais facilmente quando a quantidade de calorias no
organismo é abundante.
Diagnóstico e tratamento da doença
Os
especialistas já conseguiram detectar mais de cem
tipos de câncer, sendo que cada um apresenta
características diferentes. Os tratamentos
disponíveis atualmente são muito eficazes, mas
depende ainda em muito do diagnóstico precoce.
Para isto, fique atento às precauções que devemos
tomar para que possamos estar sempre em dia com
nossa saúde:
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Cuidados específicos para os principais tipos
de câncer
· para evitar câncer de colo de útero = as
mulheres com mais de 20 anos devem fazer exame
anual de papanicolau
· para evitar câncer de mama = as mulheres
devem fazer auto exame, exame clínico anual e
mamografia quando requisitado
· para evitar câncer de próstata = os homens
com mais de 40 anos devem fazer toque retal e
exame de sangue PSA anual
· para evitar câncer de pele = evitar o sol
entre 10 e 15 horas. Se houver tendência, ir
ao dermatologista para examinar anualmente as
pintas existentes
· para evitar câncer de pulmão = eliminar o
fumo e consultar periodicamente o médico se
houver histórico familiar |
O
tratamento dos pacientes com câncer deve ser feito
por uma equipe multidisciplinar que envolva
médicos, nutricionistas e psicólogos. Além disso,
o sucesso do tratamento depende de técnicas
cirúrgicas adequadas, remédios seguros e com menos
efeitos colaterais.
Na
área de quimioterapia, uma série de novas drogas
estão sendo usadas; algumas são apresentadas em
cápsulas, o que possibilita tratar-se em casa. Em
muitas delas os efeitos colaterais como náuseas,
perda de apetite ou vômitos desaparecem.
Segundo ainda os especialistas, os prognósticos
para os pacientes melhorou muito na última década.
Muitos progressos foram obtidos devido ao
diagnóstico mais preciso e a melhora no tratamento
quimioterápico.
Outro ponto importante para aquelas pessoas em
tratamento, é manter o organismo bem alimentado.
Não há dúvidas que uma boa alimentação e a
manutenção do peso ideal faz com que o corpo ganhe
forças para lutar contra a doença e faz com que o
tratamento seja mais eficiente. Uma dieta saudável
a base de frutas, verduras/legumes, grãos de
cereais e leguminosas (principalmente os
integrais), leite e derivados com pouca gordura e
carnes, de preferência peixe e frango sem pele é
indicada para todos. Também, o uso de alimentos
que tem sido investigados como importantes na
prevenção e controle do câncer como a soja,
tomate, crucíferas (repolho, brócolis, repolho),
alho, cebola e as frutas cítricas, devem ser
diariamente consumidos.
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Oito dicas importantes
para se proteger do câncer
1. Faça uma alimentação saudável
2. Pare de fumar
3. Mantenha seu peso ideal; faça exercícios
4. Evite bebidas alcóolicas em excesso
5. Faça regularmente um auto exame da boca e
da pele
6. Mulheres: auto exame das mamas todo mês,
exames clínicos e papanicolau anual
7. Homens: a partir dos 40 anos exame de toque
retal e PSA anual
8. Homens e mulheres com mais de 50 anos:
exame anual de sangue oculto nas fezes |
Fico
muito preocupada quando observo que no Brasil, o
perfil de consumo de alimentos que contém fatores
de proteção contra o câncer está abaixo do
recomendado. O consumo de alimentos gordurosos e
processados é muito alto em relação aqueles
considerados importantes na prevenção. Alimentos
que incluem a maioria dos fatores de risco aqui
citados como hamburguer, cachorro quente, batata
frita, entre outros, são os preferidos entre os
jovens não só das classes mais abastadas, mas
também nas menos favorecidas.
É
preciso mudar essa mentalidade. E isso deve vir
antes de tudo da família e da escola que orientam
as crianças desde cedo na formação de seus hábitos
alimentares. Quando conseguirmos fazer com que
nossas crianças adquiram melhores hábitos
alimentares e não se deixem iludir pelo vício do
cigarro, não tenho dúvidas que o futuro do nosso
país será um batalhão de pessoas saudáveis, livres
do câncer e outras doenças que nos aterrorizam
neste final de século.
Profª. Titular de Nutrição da ESALQ/USP/Campus
Piracicaba. Autora dos livros: "Previna Doenças.
Faça do Alimento o seu Medicamento" e "Pharmácia
de Alimentos. Recomendações para Prevenir e
Controlar Doenças", editora Madras.