Inveja só existe quando há comparação
Inveja: tristeza
pelo bem alheio ou alegria pelo mal do
outro?
Muito citados na Bíblia, os sete pecados
capitais já foram utilizados como tema
das mais diversas formas de expressão.
Livros, filmes, entre outros já
divulgaram estas faltas, que segundo a
história, foram organizados durante a
Idade Média pela igreja católica. Um
filme que abordou o tema, apesar de
policial, é Seven - Os Sete Crimes
Capitais - com Morgan Freeman & Brad
Pitt, onde um assassino está matando
seguindo os sete pecados capitais: gula,
cobiça, luxúria, avareza, preguiça, ira
e inveja. Para investigar o caso, são
chamados um detetive próximo da
aposentadoria e um policial novato, de
comportamento explosivo. Apesar da
violência que acompanha todo o filme,
ele enfoca o tema.
Alvo de muitas interpretações, ainda
hoje estes sete pecados servem de
referência e base para quem busca
trilhar o caminho do autoconhecimento e
a lista mais atualizada foi elaborada
por São Tomás de Aquino. Para
enfrentarmos cada um deles é preciso
conhecê-los e assim transformá-los.
Perceber as faltas que cometemos é o
caminho mais indicado para que elas não
nos dominem, pois apesar de muitos
ignorarem ou considerarem como pequenas
faltas, às vezes podem se tornar as
causas de grandes danos. Quem se
acostuma a cometer faltas leves, sem
delas nada aprender, e nada faz para se
livrar delas, pode cometer faltas
graves. Com o intuito de proporcionar
uma reflexão, estarei abordando a partir
desse artigo cada um dos sete pecados
capitais.
Inveja, sua origem está no mecanismo
da comparação. É um sentimento que
mistura raiva e tristeza
A inveja é uma das emoções mais
primitivas e geralmente negada por
todos. Por que o que o outro tem se
torna alvo do que queremos ter? Por que
o referencial do que devemos ter está
sempre no outro e raramente dentro de
nós? Somente na reflexão sobre a inveja
é que teremos consciência deste
sentimento na nossa vida e poderemos
aprender a lidar com ele em nosso
comportamento. Qual será o mecanismo
básico que nos move para a inveja?
Este mecanismo, responsável pelos nossos
ressentimentos é o mecanismo da
comparação. Nunca haverá inveja sem que
antes tenha havido uma comparação.
Entristecer-se sinceramente com o
sofrimento de alguém não é difícil,
porém manifestações exageradas de dor
pela dor de alguém, pode encobrir, ainda
que seja inconfessável, uma certa
satisfação.
É muito difícil, e podemos perceber isso
nas conversas informais, o quanto
incomoda algumas pessoas quando contamos
algo de bom que nos aconteceu, mas é só
começar a contar uma tragédia que muitos
outros se interessam. Os altos índices
de audiência dos programas de televisão
sobre a desgraça alheia confirmam esse
interesse.
Inveja: tristeza pelo bem alheio ou
alegria pelo mal do outro?
A inveja não é só tristeza pelo bem
alheio, mas alegria pelo mal do outro. É
um sentimento de inferioridade, fruto da
comparação que fazemos entre nós e o
outro em algum aspecto específico: ou
nas posses materiais, na casa, no carro,
na roupa, no dinheiro ou nas suas
qualidades psicológicas, morais,
físicas, sociais ou espirituais. Ao nos
sentirmos menores do que os outros, nos
aumentamos, nos vangloriamos, nos
enaltecemos para evitar o mal-estar do
desequilíbrio. Falamos excessivamente
bem das nossas próprias coisas e, ao
mesmo tempo, procuramos diminuir o outro
através de crítica.
Quando criticamos alguém, quando
diminuímos, ofendemos, quando temos
necessidade de falar mal de alguém,
provavelmente estamos nos sentindo
inferiores a ele. A inveja é a
incapacidade de ver a luz das outras
pessoas, a alegria, o brilho, a
luminosidade de alguém, seja em que
aspecto for, porque na verdade, não se
percebe ter essa mesma luz.
O que há de negativo na inveja é a
rejeição em algum momento do seu próprio
tamanho, a sua incapacidade de acreditar
ser capaz de também conseguir.
'Olho gordo' é outro nome para a
inveja
Desde criança ouvimos falar que não
devemos contar algo de bom que está para
nos acontecer antes que esteja tudo
muito certo, o famoso ´olho gordo". Essa
crença antiga permanece até hoje e nasce
de uma longa observação popular. O 'olho
gordo' é outro nome para a inveja.
Popularmente, 'o olho gordo', é um olho
que atrapalha, faz mal, danifica.
O principal prejudicado na inveja não
são os outros, mas nós mesmos, pois é
destrutiva, não produz mudanças, diminui
a auto-estima, destrói o crescimento
pessoal, fazendo com que o invejoso se
contamine de ódio. O invejoso se utiliza
muito da projeção, tornando más as
pessoas que são boas, onde as qualidades
do indivíduo invejado ficam perdidas
porque não são percebidas, colocando
todos os sentimentos ruins naquele que é
objeto de sua inveja.
Ou seja, por negar os próprios
sentimentos negativos que há dentro de
si, passa a projetar no outro. "O outro
é mau, eu nunca". A pessoa dominada pela
inveja tenta diminuir o outro a todo
custo, numa mistura de raiva e tristeza
por tudo que ele tem e conquista. Quando
a inveja é inconsciente é muito mais
fácil de ser projetada e também negada.
Aprendemos ainda, desde muito cedo, a
comparar, pois somos constantemente
comparados com o irmão que é mais
bonzinho, com o primo que tira boas
notas... Isso acontece na escola, na
família, na sociedade e começam as
humilhações e as críticas, fazendo nos
sentir cada vez mais incapazes de ser e
obter o que o outro tem. Isso acaba
gerando sentimentos de impotência,
inferioridade e insatisfação consigo
mesmo.
Há uma tendência a supervalorizar o
outro com tudo que ele tem e
desvalorizar o que temos. A inveja
geralmente surge do sentimento de
sentir-se incapaz, percebendo o outro
como tendo todos os atributos que
acredita não ter. A competição, tão
incentivada no campo profissional,
também pode ser geradora da inveja.
O mal não é sentir inveja, mas
cultivá-la
O mal não é sentir inveja, o mal é
cultivá-la. A inveja é má, pois engendra
o ódio que é destrutivo, pois destrói o
próprio indivíduo e a sociedade. Não
seria uma virtude espontânea e natural
no homem, mas uma atitude derivada do
ressentimento e do ciúme, do rancor e da
indignação pela má sorte de alguns
perante os outros.
A falta de confiança e de segurança em
si mesmo, unida a um invencível
sentimento de impotência colabora para
acentuá-la.
Todos sabemos que a sociedade valoriza a
beleza, a inteligência, o brilho social,
a juventude e a saúde. Que fazer quando
faltam essas condições elementares de
felicidade?
Inveja pode ser positiva
Podemos analisar duas interpretações: a
inveja como paixão detestável, que
produz ódio e destruição, negando o
valor do outro e em conseqüência o
próprio valor, e a inveja como impulso
para transformação. É preciso buscar o
que realmente somos e não vivermos em
função do que os outros esperam de nós,
libertando-se da opinião dos outros e
dos valores impostos do que é ser feliz.
Devemos valorizar todo nosso caminho até
aqui. Quanto você não superou, não
conquistou? È possível admirar o outro e
não mais querer viver a vida do outro. É
preciso ter consciência do que é ser
feliz para você! Devemos termos sempre
em mente que somos todos seres capazes
de nos transformamos naquilo que
gostaríamos de ser e ter, transformando
cada sonho em realidade, ocupando nosso
tempo em buscarmos cada um deles e não
mais perdermos parte de nossas vidas
focados no que o outro tem ou é, ou
tentando destruir quem conseguiu o que
não conseguimos. O diferencial acima de
tudo é acreditar em si mesmo, gostar de
quem somos e buscar os próprios sonhos!