Sente-se infeliz? Podem ser as
falsas crenças vindas da infância O modo como fomos tratados quando crianças
pequenas é o modo como nos trataremos pelo resto
da vida Alice Miller
Todos nós temos dois aspectos em nossa
personalidade: o Adulto e a Criança. Quando estas
duas dimensões estão conectadas e trabalhando
juntas, registramos uma sensação interna de paz,
de totalidade. Quando não estão conectadas por
terem sido feridas ou abandonadas, a sensação é de
conflito, vazio e solidão.
Quem não foi valorizado quando criança, sentirá
dificuldade em perceber a existência dessa criança
dentro de si. Mas quando se entende a importância
que é reconhecer a existência dessa criança ferida
e abandonada dentro de você, se torna possível
valorizar a Criança para conseguir se tornar
inteiro.
A
Criança Interior tem uma ampla variação de
emoções: alegria, dor, felicidade, tristeza. Ela
funciona na modalidade do hemisfério cerebral
direito, ou seja, ela é o ser, sentir, vivenciar,
é pura emoção. O Adulto funciona na modalidade do
hemisfério cerebral esquerdo, ou seja, é o fazer,
pensar e agir, é a razão.
"Fazer" relaciona-se com o mundo externo, enquanto
"ser" refere-se ao nível interno, emocional e
espiritual. Fazer é a experiência externa e o ser
é a interna. Cabe ao Adulto iniciar a tarefa de
refazer de maneira amorosa as etapas das
necessidades não satisfeitas da Criança, de curar
as antigas feridas e mágoas e substituir as falsas
crenças com a verdade.
Falsas crenças assimiladas na infância
-
Não sinta, não fale de seus sentimentos
- Não pense, não tome decisões, você não sabe o
que é melhor
- Seja sempre bonzinho, perfeito e forte
- Não seja quem você é
- Não seja egoísta, nunca se coloque em primeiro
lugar
- Não diga o que quer, pensa ou precisa
- Nunca diga não, não imponha limites
- Cuide sempre dos outros
- Não confie em determinadas pessoas, nem na Força
Superior, nem em você
- Demonstre sempre estar bem, independente do que
esteja sentindo
Reflita se essas crenças existem em sua vida.
Preste atenção no seu diálogo interno, que
acontece inconscientemente o tempo todo, ou seja,
sem que você perceba, talvez possa estar repetindo
palavras semelhantes àquelas que ouvia na
infância, pelas pessoas mais importantes de sua
vida. Assim, continuamos quando adultos a repetir
as mesmas falsas crenças que marcam nossa vida,
como:
-
Não posso ser feliz, não consigo ficar feliz,
ficar feliz é egoísmo e, portanto, errado
- Não consigo cuidar de mim
- Não consigo enfrentar a dor, especialmente a da
rejeição e do abandono, nem a da minha solidão;
- Os outros são responsáveis por meus sentimentos
- No fundo eu não tenho valor, sou errado, não
mereço ser amado
- Não sou capaz de conseguir sozinho.
Enquanto existir essas ou outras crenças falsas,
não conseguirá ser amoroso com sua Criança, assim
como não foram com você no passado. Quando os pais
e outros adultos rejeitam a criança, fazem-na
sentir vergonha por aquilo que ela é ou abusam
dessa criança durante a infância. A dor desse
abandono é tão insuportável, que o Adulto Interior
se desliga da Criança Interior para não sentir
essa dor.
A
Criança Interior abandonada está quase sempre com
medo de estar errada, porque acredita ter sido
esse o motivo de a rejeitarem, podendo desenvolver
a necessidade de ser perfeita. O perfeccionismo e
o medo de estar errada podem ser sintomas da
desconexão interna entre o Adulto e a Criança. Ao
se sentir sozinha para enfrentar a solidão do
abandono externo, pode ainda desenvolver vários
vícios com o intuito de preencher esse vazio. Pode
procurar substâncias como álcool, drogas, comida,
ou pessoas, criando uma dependência para preencher
seu vazio. E como fuga da dor causada, pela
solidão interna e externa, pode ainda desenvolver
a necessidade de controlar os outros como forma de
obter amor.
A
Criança ferida contamina a vida do Adulto, que
pode vir como uma depressão, sentida também como
um grande vazio, onde está sempre se lamentando
pela perda do verdadeiro eu. Esse vazio pode levar
ao sentimento de solidão, porque nunca somos quem
somos, nunca estamos realmente presentes. A
depressão pode vir pelo fato da criança ter de se
adaptar a um falso eu, abandonando seu verdadeiro
eu. É como se esse abandono do verdadeiro eu
criasse um espaço interior vazio, onde se perde
contato com seus verdadeiros sentimentos,
carências e desejos. Ter um falso eu, é viver
representando, onde o verdadeiro eu nunca está
presente.
A
sensação de ter valor - sou uma pessoa de valor -
que é a base da auto-estima, é essencial à saúde
mental. Quando a pessoa se sente valiosa cuidará
de si mesma de todas as maneiras que forem
necessárias e não se submeterá a ser maltratada
por ninguém.
Procure analisar se algumas dessas crenças ainda
existem em você e se continuam a interferir em sua
vida, pois conforme conseguir ir se
conscientizando de cada uma delas, mais fácil será
encontrar-se com quem você é de verdade.
Rosemeire
Zago
é psicóloga clínica com abordagem junguiana.