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» Psicologia - Curando Feridas - Dor do Abandono |
Dor do Abandono
Rosemeire Zago
r.zago@uol.com.br |
Sensação de abandono na infância gera complexos
Um dos sentimentos mais difíceis de serem superados
creio que seja a dor do abandono, da rejeição, da
perda, que para muitas pessoas começa logo cedo. Não
me refiro só ao abandono cujos pais o deixaram desde
o nascimento. Mesmo quem teve pai e mãe presente,
pode sentir-se abandonado, se sentir que sua mãe não
o escutava, não ouvia. Quando a criança não é aceita
em sua realidade, ela não vivencia a autenticidade
de seus próprios sentimentos. Não é preciso que a
criança seja órfã para ter esses sentimentos, mas é
claro que serão mais intensos em quem realmente
viveu ou vive a orfandade.
Quando o relacionamento primário fundamental foi
comprometido, não havendo um envolvimento total dos
pais com os cuidados básicos da criança, ela
desenvolverá mecanismos inconscientes para contar
com seus próprios recursos. É quando o bebê
experimenta o abandono e passa desde muito cedo a
agir como um ser independente, como se no fundo
soubesse que não pode contar com mais ninguém.
Diante desse abandono podemos encontrar três
complexos psicológicos principais. Entendemos por
complexo uma determinada situação psíquica de forte
carga emocional, que muitos conhecem como "trauma".
Ou seja, os complexos são portadores da energia
afetiva.
Esses três complexos são:
- Profunda sensação de ausência pessoal de valor:
O calor materno oferece à criança a sensação de
valor. Quando esse amor deixa de existir a pessoa se
sente rejeitada, acha que fez alguma coisa errada,
sendo assim, inaceitável, e passa a duvidar da razão
de sua própria existência. Sentimento que pode
perdurar durante anos ou uma vida inteira dentro de
algumas pessoas e refletir em todas áreas de sua
vida. A tão conhecida baixa auto-estima. A sensação
de ter valor é essencial à saúde mental, pois quando
se sente valiosa, a pessoa cuidará de si mesma de
todas as maneiras que forem necessárias.
- Sensação de culpa:
Essa culpa não deve ser confundida com a culpa mais
consciente que a pessoa sente quando faz algo. É uma
culpa mais profunda, onde acaba por se culpar por
não ser amado, aceito. Essa busca pela mãe, ou pela
fonte de carinho e amor, pode desencadear outros
processos na vida da pessoa. É como se estivesse
sempre em busca dessa proteção. Sente que tem uma
dor que não pode ser aliviada, e assim, acaba por
sentir pena de si mesmo, desenvolvendo muitas vezes
a auto-piedade. Espera, ainda, que os outros também
a vejam assim, sempre esperando que alguém venha
salvá-la.
Esse quadro pode gerar relacionamentos de muita
dependência. Como perdeu sua ligação com a fonte de
sustentação da vida, apega-se a toda pessoa que
possa lhe oferecer segurança. Alguns se apegam a
qualquer objeto, pessoa ou forma de comportamento
que representa segurança, como sexo, dinheiro,
comida, drogas, entre outros. Até o momento de
perceber, o que muitas vezes pode levar anos, que
esse objeto não tem o mesmo significado e não irá
efetivamente suprir essa carência e esse vazio.
Poderá também desenvolver muita dificuldade em lidar
com a solidão. Como não tem o bastante de si mesma,
sente que tem valor apenas quando está na presença
de outra pessoa, como se fosse vital para sua
sobrevivência. Pode ainda desenvolver uma
dependência mútua, criando um verdadeiro elo
simbiótico inconsciente, ou seja, o que muitos vivem
e conhecem como relação doentia. Onde nenhum dos
dois consegue deixar esse vínculo, apesar do
sofrimento instalado. Essa situação de excessiva
dependência entre duas pessoas cria uma situação
psicológica improdutiva e, conseqüentemente, não há
troca, crescimento, mas sim muito sofrimento.
Torna-se uma situação difícil de ser rompida, pois
há muito medo de ser deixado, ficar só, evitando a
todo custo, mais um abandono.
Poderá ainda acontecer o contrário, a pessoa mesmo
querendo manter a relação, abandona a outra pessoa,
para que ela mesma não seja abandonada. Essa
situação de dependência pode fazer com que a pessoa
torne-se a criança-vítima, ou seja, procura ser
boazinha com o intuito de ser cuidada, gerando a
necessidade de agradar e a dificuldade de dizer não,
buscando sempre e, inconscientemente, aprovação e
reconhecimento. É preciso tornar consciente sua
dependência e suas eventuais conseqüências para que
não fique repetindo situações de abandono.
- Profunda atração pela morte:
Para a criança, o abandono por parte dos pais é
equivalente à morte. Essa sensação é mais profunda
em quem realmente perdeu a mãe no momento do
nascimento. Mas também por quem não foi literalmente
abandonado, mas vivenciou esse medo, ele pode
ressurgir mais acentuadamente em momentos de
renascimento ou quando algum projeto está para ser
iniciado, como em momentos de mudança, pois todo
caos que precede a cada novo nascimento acaba por
gerar um doloroso processo de recordação de sua
experiência traumática inicial do abandono, podendo
facilmente sentir-se imobilizado frente ao
desconhecido, sem permitir-se crescer, transcender,
resistindo às mudanças.
Pode existir em algumas pessoas a síndrome do
aniversário, onde revive nesse dia seu trauma de
infância, o abandono, evitando assim, qualquer tipo
de comemoração.
Para lidar com todos esses aspectos o mais indicado
é ter consciência de todo esse processo e,
principalmente, dos sentimentos que surgem. Falar
sobre eles poderá ajudar a integrar conteúdos que
estão no inconsciente ao consciente.
É preciso aceitar toda essa realidade e não negar
seus sentimentos e carências, assim suas
necessidades poderão ser supridas de maneira
equilibrada e consciente e não através de relações
doentias.
Ao se permitir sentir dor, raiva, mágoa e tristeza,
poderá começar a amenizar sua dependência e assumir
mais responsabilidade por si mesmo e por seus
sentimentos.
Quando esses presentes, carinho, afeto,
demonstrações constantes de amor, como a certeza de
que não será abandonado, não foram dados pelos pais,
é possível obtê-los de outras fontes, porém esse
processo em geral, dura a vida inteira. Mas é
possível transformar toda a dor do abandono ao
interagir com essa criança que apenas espera por seu
amor.
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