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» Psicologia - Curando Feridas - Maus-tratos na infância |
Maus-tratos na infância
Rosemeire Zago
r.zago@uol.com.br |
As conseqüências dos maus-tratos na infância
Muitos adultos ao lembrarem de sua infância se
questionam se certas imagens registradas em sua
memória aconteceram de fato. As pessoas sempre
relacionam maus-tratos com espancamentos, mas
podemos encontrar muitas definições para os
maus-tratos na infância. Podemos incluir crianças
mal-amadas, ou seja, aquelas que sofreram várias
formas de abuso afetivo; crianças mártires, aquelas
que sofreram todas as formas de violência física;
crianças abandonadas, que foram atingidas pelo
desamparo e negligência; e ainda temos aquelas
crianças que são comercializadas, pois foram
transformadas em mercadorias de prostituição,
pornografia infantil, tráfego de drogas e exploração
do trabalho infantil, onde fica claro o poder
exercido por um adulto sobre quem ainda não tem
condições de se defender.
O intuito desse artigo não é apontar culpados, mas
sim alertar e conscientizar dos prejuízos causados
por esses adultos em crianças que logo cedo trocaram
a inocência pela dor, e assim, proporcionar uma
reflexão tanto em quem foi vítima desses abusos,
como para quem os provocou. O que não podemos é
continuar ouvindo, lendo, participando de fatos como
esses e nos mantermos distantes e isolados como se
nada estivesse acontecendo.
Afinal, os prejuízos emocionais são profundos e
requerem muitas vezes acompanhamento psicológico
para o resto da vida, com o intuito de ter alguém
que lembre a essas pessoas que apesar de terem sido
vítimas de maus-tratos durante a infância, são
pessoas com valor, que merecem ser amadas e felizes.
Essas crianças vitimizadas, em geral, tornam-se
adultos que continuam a se castigarem, como se
punissem por estarem vivos e que não se sentem
merecedores de receberem amor. Em geral, o adulto
agressor também foi vítima de maus-tratos durante
sua infância, assunto que será explorado em outro
momento.
É muito comum o adulto agressor exigir que a criança
seja "cúmplice", num pacto de silêncio, ameaçando-a
que será mais punida ainda caso conte para alguém,
gerando assim um medo que a paralisa diante da
possibilidade de pedir ajuda.
É possível registrar três tipos de abuso:
- Abuso físico
É o uso de força física intencional com o objetivo
de ferir, danificar ou destruir. Incluem-se aqui os
castigos corporais, como bater de forma
descontrolada ou ainda utilizando-se de algum
instrumento, seja cabo de vassouras, panelas, panos
molhados, cintos, ferro, correntes...
Diferenciar um comportamento acidental de um
intencional muitas vezes se torna difícil, pois um
comportamento acidental num primeiro momento, poderá
ser determinado após melhor investigação, por uma
intenção inconsciente. Um exemplo muito comum é a
mãe que "sem querer" deixou a panela com água ou
óleo quente cair sobre a criança provocando
queimaduras. Mesmo uma pessoa que não tenha a
intenção de prejudicar a criança, mas o fato de
ignorar os efeitos do seu comportamento também é
considerado abuso.
- Abuso psicológico
Também conhecido como tortura psicológica. Ocorre
quando um adulto constantemente deprecia a criança,
bloqueia seus esforços de auto-aceitação,
causando-lhe intenso sofrimento psíquico. Ameaças de
abandono também podem tornar uma criança medrosa e
ansiosa.
Aqui podemos citar duas formas básicas de abuso:
negligência afetiva e rejeição afetiva.
A negligência afetiva é a falta de responsabilidade,
de calor humano, de interesse para com as
necessidades e manifestações da criança. Representa
uma omissão para prover necessidades físicas e
emocionais. A criança é totalmente dependente dos
pais e/ou responsáveis, mas muitas vezes encontramos
pais que ignoram as necessidades de alimentação,
higiene, vestuário, etc. É evidente que se a criança
não foi alimentada por falta de recursos financeiros
não é considerada negligência, mas caso o dinheiro
conseguido seja desviado para o consumo de bebidas
alcoólicas, com certeza será.
A rejeição afetiva é a manifestação de depreciação e
agressividade com a criança. Pais que culpam os
filhos pela sua própria infelicidade e os
responsabilizam pela manutenção do casamento que já
acabou; pais que expressam o quanto o nascimento da
criança atrapalhou sua vida afetiva e profissional.
As expressões verbais agressivas também são
consideradas abusos, onde a única forma de
comunicação é através de gritos, xingamentos,
broncas, críticas, cobranças, gerando na criança
cada vez mais os sentimentos de incapacidade e
inadequação. Fale o que falar, faça o que fizer,
estará sempre errada.
O abandono e a rejeição são sentimentos que perduram
por toda a vida e influenciam principalmente a
relação afetiva futura.
- Abuso sexual
É todo ato ou jogo sexual, relação heterossexual ou
homossexual, entre um ou mais adultos e uma criança.
Segundo pesquisas, uma menina em cinco e um menino
em dez são vítimas de abuso sexual antes dos 18
anos. Em geral, o abuso acontece dentro do próprio
lar, pelos próprios familiares, sendo provocado pelo
próprio pai ou irmãos mais velhos. Nesses casos, o
silêncio sempre se impõe. Se a criança buscar ajuda
contando para um outro familiar, poderá ainda ser
acusada de estar inventando e não ser levada a sério
sua acusação.
É importante que quem sofreu algum tipo de abuso na
infância ou na adolescência busque ajuda psicológica
para desenvolver estruturas para suportar e elaborar
todos esse marcos que dificilmente são esquecidos,
pois as conseqüências dos maus-tratos podem se fazer
refletir em todas as áreas da vida.
- Dica de filme
Um filme muito interessante É Voltando a Viver com
Derek Luke e Denzel Washington. Baseado em fatos
reais conta a história de um marinheiro rebelde que
recebe ordens para consultar-se com o psiquiatra da
marinha, pois precisa aprender a dominar seu
temperamento instável. Ao relembrar a história, faz
uma viagem emocionante ao seu doloroso passado e, a
partir desse confronto, muda toda sua trajetória de
vida.
O filme reflete muito bem as conseqüências
emocionais de quem passou por maus-tratos na
infância, com agressões físicas, sexuais e
psicológicas. Para quem deseja assistir vale a pena
ficar atento ao momento que o marinheiro
reencontra-se na porta da casa, com a família que o
"criou" e, ao tentarem abraçá-lo, perceba sua
atitude que demonstra o quanto passou a respeitar os
próprios sentimentos. Mostra ainda que é possível
aprender a lidar com um passado que tanto machuca.
Indicação Bibliográfica
Crianças Vitimizadas - A Síndrome do Pequeno Poder
Org. Maria Amélia Azevedo e Viviane Nogueira de
Azevedo Guerra
Editora Iglu
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