Muitos adultos ao lembrarem de sua infância se
questionam se certas imagens registradas em sua
memória aconteceram de fato. As pessoas sempre
relacionam maus-tratos com espancamentos, mas
podemos encontrar muitas definições para os
maus-tratos na infância. Podemos incluir crianças
mal-amadas, ou seja, aquelas que sofreram várias
formas de abuso afetivo; crianças mártires,
aquelas que sofreram todas as formas de violência
física; crianças abandonadas, que foram atingidas
pelo desamparo e negligência; e ainda temos
aquelas crianças que são comercializadas, pois
foram transformadas em mercadorias de
prostituição, pornografia infantil, tráfego de
drogas e exploração do trabalho infantil, onde
fica claro o poder exercido por um adulto sobre
quem ainda não tem condições de se defender.
O
intuito desse artigo não é apontar culpados, mas
sim alertar e conscientizar dos prejuízos causados
por esses adultos em crianças que logo cedo
trocaram a inocência pela dor, e assim,
proporcionar uma reflexão tanto em quem foi vítima
desses abusos, como para quem os provocou. O que
não podemos é continuar ouvindo, lendo,
participando de fatos como esses e nos mantermos
distantes e isolados como se nada estivesse
acontecendo.
Afinal, os prejuízos emocionais são profundos e
requerem muitas vezes acompanhamento psicológico
para o resto da vida, com o intuito de ter alguém
que lembre a essas pessoas que apesar de terem
sido vítimas de maus-tratos durante a infância,
são pessoas com valor, que merecem ser amadas e
felizes.
Essas crianças vitimizadas, em geral, tornam-se
adultos que continuam a se castigarem, como se
punissem por estarem vivos e que não se sentem
merecedores de receberem amor. Em geral, o adulto
agressor também foi vítima de maus-tratos durante
sua infância, assunto que será explorado em outro
momento.
É
muito comum o adulto agressor exigir que a criança
seja "cúmplice", num pacto de silêncio,
ameaçando-a que será mais punida ainda caso conte
para alguém, gerando assim um medo que a paralisa
diante da possibilidade de pedir ajuda.
É possível registrar três tipos de abuso:
- Abuso físico
É
o uso de força física intencional com o objetivo
de ferir, danificar ou destruir. Incluem-se aqui
os castigos corporais, como bater de forma
descontrolada ou ainda utilizando-se de algum
instrumento, seja cabo de vassouras, panelas,
panos molhados, cintos, ferro, correntes...
Diferenciar um comportamento acidental de um
intencional muitas vezes se torna difícil, pois um
comportamento acidental num primeiro momento,
poderá ser determinado após melhor investigação,
por uma intenção inconsciente. Um exemplo muito
comum é a mãe que "sem querer" deixou a panela com
água ou óleo quente cair sobre a criança
provocando queimaduras. Mesmo uma pessoa que não
tenha a intenção de prejudicar a criança, mas o
fato de ignorar os efeitos do seu comportamento
também é considerado abuso.
- Abuso psicológico
Também conhecido como tortura psicológica. Ocorre
quando um adulto constantemente deprecia a
criança, bloqueia seus esforços de auto-aceitação,
causando-lhe intenso sofrimento psíquico. Ameaças
de abandono também podem tornar uma criança
medrosa e ansiosa.
Aqui podemos citar duas formas básicas de abuso:
negligência afetiva e rejeição afetiva.
A negligência afetiva é a falta de
responsabilidade, de calor humano, de interesse
para com as necessidades e manifestações da
criança. Representa uma omissão para prover
necessidades físicas e emocionais. A criança é
totalmente dependente dos pais e/ou responsáveis,
mas muitas vezes encontramos pais que ignoram as
necessidades de alimentação, higiene, vestuário,
etc. É evidente que se a criança não foi
alimentada por falta de recursos financeiros não é
considerada negligência, mas caso o dinheiro
conseguido seja desviado para o consumo de bebidas
alcoólicas, com certeza será.
A
rejeição afetiva é a manifestação de depreciação e
agressividade com a criança. Pais que culpam os
filhos pela sua própria infelicidade e os
responsabilizam pela manutenção do casamento que
já acabou; pais que expressam o quanto o
nascimento da criança atrapalhou sua vida afetiva
e profissional. As expressões verbais agressivas
também são consideradas abusos, onde a única forma
de comunicação é através de gritos, xingamentos,
broncas, críticas, cobranças, gerando na criança
cada vez mais os sentimentos de incapacidade e
inadequação. Fale o que falar, faça o que fizer,
estará sempre errada.
O
abandono e a rejeição são sentimentos que perduram
por toda a vida e influenciam principalmente a
relação afetiva futura.
- Abuso sexual
É
todo ato ou jogo sexual, relação heterossexual ou
homossexual, entre um ou mais adultos e uma
criança. Segundo pesquisas, uma menina em cinco e
um menino em dez são vítimas de abuso sexual antes
dos 18 anos. Em geral, o abuso acontece dentro do
próprio lar, pelos próprios familiares, sendo
provocado pelo próprio pai ou irmãos mais velhos.
Nesses casos, o silêncio sempre se impõe. Se a
criança buscar ajuda contando para um outro
familiar, poderá ainda ser acusada de estar
inventando e não ser levada a sério sua acusação.
É
importante que quem sofreu algum tipo de abuso na
infância ou na adolescência busque ajuda
psicológica para desenvolver estruturas para
suportar e elaborar todos esse marcos que
dificilmente são esquecidos, pois as conseqüências
dos maus-tratos podem se fazer refletir em todas
as áreas da vida.
- Dica de filme
Um filme muito interessante É Voltando a Viver
com Derek Luke e Denzel Washington. Baseado em
fatos reais conta a história de um marinheiro
rebelde que recebe ordens para consultar-se com o
psiquiatra da marinha, pois precisa aprender a
dominar seu temperamento instável. Ao relembrar a
história, faz uma viagem emocionante ao seu
doloroso passado e, a partir desse confronto, muda
toda sua trajetória de vida.
O
filme reflete muito bem as conseqüências
emocionais de quem passou por maus-tratos na
infância, com agressões físicas, sexuais e
psicológicas. Para quem deseja assistir vale a
pena ficar atento ao momento que o marinheiro
reencontra-se na porta da casa, com a família que
o "criou" e, ao tentarem abraçá-lo, perceba sua
atitude que demonstra o quanto passou a respeitar
os próprios sentimentos. Mostra ainda que é
possível aprender a lidar com um passado que tanto
machuca.
Indicação Bibliográfica
Crianças Vitimizadas - A Síndrome do Pequeno Poder
Org. Maria Amélia Azevedo e Viviane Nogueira de
Azevedo Guerra
Editora Iglu
Rosemeire
Zago
é psicóloga clínica com abordagem junguiana.