Criança sofre pelo que não ouviu. Descubra como...
Sabe aquelas palavras que não foram ditas, mas
soam ao longo da vida como se um dia as tivéssemos
ouvido? São sentimentos que registramos como se
fossem palavras reais: não há ninguém responsável
aqui. Ou: você não é tão bom o bastante, você não
é tão bonita quanto sua irmã, sua prima tira boas
notas, mas você..., você nunca vai prestar para
nada. Ou: nada que faz é bom, sempre faz tudo
errado, você poderia ter feito melhor.
Quando se é criança é uma tragédia ouvir no
silêncio que existe algo errado em você, ou sentir
que esperam que aja ou seja diferente de quem você
é. É a conversa que não tinha a intenção de ser
ouvida, que ficou suspensa no ar, mas que as
crianças sentem, vagamente, e se instala na alma.
Mesmo que não sejam ditas, as mensagens são
ouvidas na psique da criança com tanta clareza
como se cada palavra houvesse sido pronunciada com
todas as letras.
A
palavra não-dita é prejudicial e pode levar uma
pessoa à loucura, porque não há evidências do que
está realmente acontecendo. É como a criança que
vê a mãe chorando após uma briga e ao perguntar o
que houve, recebe a simples resposta: nada! Como
nada? Alguém briga e chora por nada? Claro que a
incoerência entre o que se demonstra e o que se
fala só será percebida quando adulto, pois a
criança não tem a percepção para diferenciar e
analisar os fatos. Apenas as sentem, nunca
conseguindo saber de onde vieram, quem disse, ou o
que queria exatamente dizer.
A
palavra pode ferir e magoar, mas as mensagens
sussurradas devoram a confiança da criança. Desta
forma o ambiente familiar se torna um lugar que
não reflete de volta para ela quem é ou sente.
Como disse Jung: "O que a criança muitas vezes
capta são os conflitos não-resolvidos de seus
pais".
A criança precisa entender e tornar consciente
seus sentimentos, ouvir alguém confirmar que a
mensagem não-falada é, na realidade, verdadeira.
Muitas pessoas acreditam que negar ou evitar falar
dos fatos reais irão poupar a criança de sofrer,
porém o sofrimento consciente, saber que está
ouvindo a verdade, é o que salva. Quando a criança
não tem a confirmação do que está vendo e
sentindo, acaba também por não se permitir
vivenciar os próprios sentimentos de tristeza,
raiva, perda, frustração, gerando sentimentos
distorcidos.
Quando existe uma pessoa significativa no mundo da
criança, em quem ela deposite confiança, amor, ou
que possa interpretar para ela o que ela mesma
está sentindo, essa criança irá vivenciar sua
realidade como uma realidade verdadeira, mas se
acontece o contrário, constantemente sentindo algo
que sozinha não consegue interpretar, mas que seus
sentimentos não coincidem com a explicação dada,
ela desconfiará tanto desse adulto como de si
mesma, podendo gerar insegurança quanto aos
próprios sentimentos.
Para impedir que as palavras sussurrem, o adulto
deve dar voz ao que é demonstrado. A linguagem, ou
seja, dizer claramente o que está acontecendo é
tão importante para o universo infantil, que há
pesquisas e estudos provando o poder da verdade
para a cura. Em Paris há um hospital que acolhe as
futuras mães que pretendem "dar" seus filhos assim
que nascerem. Sendo alto o índice desses bebês
desenvolverem alguma doença após o nascimento,
profissionais treinados conversam com esses bebês,
explicando sua condição verdadeira, obtendo assim,
curas.
Você se lembra de algum fato que registrou, mas
que na época não recebeu nenhuma explicação? Era
muito comum não explicar nada às crianças em casos
de separação ou morte, deixando a criança à
revelia com seus sentimentos, dúvidas e medos, que
permanecem, mesmo quando adultos, quando estas
situações novamente vêm à tona.
A
criança sente o que sente, mas sua linguagem e sua
capacidade para interpretar tais sentimentos não
estão plenamente desenvolvidas. O ideal é que o
adulto, que possui a capacidade de racionalizar e
verbalizar, se responsabilize de observar e
refletir o que a criança está sentindo. Não
havendo essa confirmação de seus sentimentos, a
criança poderá se sentir errada, culpada e
desorientada.
Para desfazer o dano que esses murmúrios podem
causar é preciso tornar real a mensagem do que
esteja acontecendo, seja qual for. É importante
ajudar a criança a entender o que ela está
sentindo, sem julgar se está certo ou errado. A
criança precisa que todos seus sentimentos
verdadeiros sejam confirmados, para que possam
desenvolver a confiança em si mesma.
Quando ela sente que seus pais nunca confirmarão o
que sente, acaba desistindo e desenvolvendo uma
persona (máscara) falsa. Ou seja, quando a criança
não tem permissão para ser quem é e vivenciar seus
próprios sentimentos, poderá tornar-se uma outra
pessoa. Às vezes nos escondemos tão bem que, com o
tempo, nem mesmo nós conseguimos mais reconhecer
nossos próprios desejos e sentimentos. É quando no
sofrimento das depressões, ansiedades ou alguma
outra doença, podemos ser forçados a ir em busca
de respostas em nosso eu verdadeiro e assim
encontrar essa parte escondida de nós.
É
isso que se propõe o trabalho de reencontro com a
criança interior: descobrir o que ficou escondido
e que tanta falta nos faz, para que possamos ser
capazes de voltarmos a ouvir a nós mesmos.
A
criança interior é para Jung algo que existiu não
só no passado, mas que também existe agora, apesar
das resistências em aceitá-la. É a parte de nossa
psique que vivencia a angústia e o sofrimento. A
menos que nos tornemos conscientes dessa criança
dentro de nós, iremos às vezes comportar-nos de
modo inconsciente, mobilizados por essa parte que
existe em nós. Muitos reprimem ou ignoram as
vivências de sua infância e de sua criança. Quando
temos essa espécie de cegueira, estamos limitando
nossa consciência e capacidade de viver a vida. Se
não ouvirmos a criança interior que ainda existe
dentro de nós, seremos como os pais que não ouvem
seus próprios filhos.
Rosemeire
Zago
é psicóloga clínica com abordagem junguiana.