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» Psicologia - Curando Feridas - Ouvir em silêncio |
Ouvir em silêncio
Rosemeire Zago
r.zago@uol.com.br |
Criança sofre pelo que não ouviu. Descubra
como...
Sabe aquelas palavras que não foram ditas, mas soam
ao longo da vida como se um dia as tivéssemos
ouvido? São sentimentos que registramos como se
fossem palavras reais: não há ninguém responsável
aqui. Ou: você não é tão bom o bastante, você não é
tão bonita quanto sua irmã, sua prima tira boas
notas, mas você..., você nunca vai prestar para
nada. Ou: nada que faz é bom, sempre faz tudo
errado, você poderia ter feito melhor.
Quando se é criança é uma tragédia ouvir no silêncio
que existe algo errado em você, ou sentir que
esperam que aja ou seja diferente de quem você é. É
a conversa que não tinha a intenção de ser ouvida,
que ficou suspensa no ar, mas que as crianças
sentem, vagamente, e se instala na alma. Mesmo que
não sejam ditas, as mensagens são ouvidas na psique
da criança com tanta clareza como se cada palavra
houvesse sido pronunciada com todas as letras.
A palavra não-dita é prejudicial e pode levar uma
pessoa à loucura, porque não há evidências do que
está realmente acontecendo. É como a criança que vê
a mãe chorando após uma briga e ao perguntar o que
houve, recebe a simples resposta: nada! Como nada?
Alguém briga e chora por nada? Claro que a
incoerência entre o que se demonstra e o que se fala
só será percebida quando adulto, pois a criança não
tem a percepção para diferenciar e analisar os
fatos. Apenas as sentem, nunca conseguindo saber de
onde vieram, quem disse, ou o que queria exatamente
dizer.
A palavra pode ferir e magoar, mas as mensagens
sussurradas devoram a confiança da criança. Desta
forma o ambiente familiar se torna um lugar que não
reflete de volta para ela quem é ou sente.
Como disse Jung: "O que a criança muitas vezes capta
são os conflitos não-resolvidos de seus pais".
A criança precisa entender e tornar consciente seus
sentimentos, ouvir alguém confirmar que a mensagem
não-falada é, na realidade, verdadeira. Muitas
pessoas acreditam que negar ou evitar falar dos
fatos reais irão poupar a criança de sofrer, porém o
sofrimento consciente, saber que está ouvindo a
verdade, é o que salva. Quando a criança não tem a
confirmação do que está vendo e sentindo, acaba
também por não se permitir vivenciar os próprios
sentimentos de tristeza, raiva, perda, frustração,
gerando sentimentos distorcidos.
Quando existe uma pessoa significativa no mundo da
criança, em quem ela deposite confiança, amor, ou
que possa interpretar para ela o que ela mesma está
sentindo, essa criança irá vivenciar sua realidade
como uma realidade verdadeira, mas se acontece o
contrário, constantemente sentindo algo que sozinha
não consegue interpretar, mas que seus sentimentos
não coincidem com a explicação dada, ela desconfiará
tanto desse adulto como de si mesma, podendo gerar
insegurança quanto aos próprios sentimentos.
Para impedir que as palavras sussurrem, o adulto
deve dar voz ao que é demonstrado. A linguagem, ou
seja, dizer claramente o que está acontecendo é tão
importante para o universo infantil, que há
pesquisas e estudos provando o poder da verdade para
a cura. Em Paris há um hospital que acolhe as
futuras mães que pretendem "dar" seus filhos assim
que nascerem. Sendo alto o índice desses bebês
desenvolverem alguma doença após o nascimento,
profissionais treinados conversam com esses bebês,
explicando sua condição verdadeira, obtendo assim,
curas.
Você se lembra de algum fato que registrou, mas que
na época não recebeu nenhuma explicação? Era muito
comum não explicar nada às crianças em casos de
separação ou morte, deixando a criança à revelia com
seus sentimentos, dúvidas e medos, que permanecem,
mesmo quando adultos, quando estas situações
novamente vêm à tona.
A criança sente o que sente, mas sua linguagem e sua
capacidade para interpretar tais sentimentos não
estão plenamente desenvolvidas. O ideal é que o
adulto, que possui a capacidade de racionalizar e
verbalizar, se responsabilize de observar e refletir
o que a criança está sentindo. Não havendo essa
confirmação de seus sentimentos, a criança poderá se
sentir errada, culpada e desorientada.
Para desfazer o dano que esses murmúrios podem
causar é preciso tornar real a mensagem do que
esteja acontecendo, seja qual for. É importante
ajudar a criança a entender o que ela está sentindo,
sem julgar se está certo ou errado. A criança
precisa que todos seus sentimentos verdadeiros sejam
confirmados, para que possam desenvolver a confiança
em si mesma.
Quando ela sente que seus pais nunca confirmarão o
que sente, acaba desistindo e desenvolvendo uma
persona (máscara) falsa. Ou seja, quando a criança
não tem permissão para ser quem é e vivenciar seus
próprios sentimentos, poderá tornar-se uma outra
pessoa. Às vezes nos escondemos tão bem que, com o
tempo, nem mesmo nós conseguimos mais reconhecer
nossos próprios desejos e sentimentos. É quando no
sofrimento das depressões, ansiedades ou alguma
outra doença, podemos ser forçados a ir em busca de
respostas em nosso eu verdadeiro e assim encontrar
essa parte escondida de nós.
É isso que se propõe o trabalho de reencontro com a
criança interior: descobrir o que ficou escondido e
que tanta falta nos faz, para que possamos ser
capazes de voltarmos a ouvir a nós mesmos.
A criança interior é para Jung algo que existiu não
só no passado, mas que também existe agora, apesar
das resistências em aceitá-la. É a parte de nossa
psique que vivencia a angústia e o sofrimento. A
menos que nos tornemos conscientes dessa criança
dentro de nós, iremos às vezes comportar-nos de modo
inconsciente, mobilizados por essa parte que existe
em nós. Muitos reprimem ou ignoram as vivências de
sua infância e de sua criança. Quando temos essa
espécie de cegueira, estamos limitando nossa
consciência e capacidade de viver a vida. Se não
ouvirmos a criança interior que ainda existe dentro
de nós, seremos como os pais que não ouvem seus
próprios filhos.
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