Desde crianças precisamos saber que somos
importantes, que somos levados a sério e que cada
parte de nós é digna de ser amada e aceita.
Precisamos também saber que os que tomam conta de
nós nos amam e que podemos confiar neles. Quando
não podemos confiar nas pessoas responsáveis por
nós, quando sentimos que não se preocupam com o
que sentimos, desenvolvemos uma profunda falta de
confiança em nós mesmos. Se formos privados desse
amor, nossa noção de EU SOU é prejudicada,
contaminando o adulto com uma sede insaciável de
amor, atenção e afeição, procurando esse amor no
externo, em coisas materiais, dinheiro ou em
outras pessoas.
Só podemos mudar algo quando conseguimos
reconhecer alguns padrões em nossa vida. A falta
de autoconhecimento e conexão com a criança
interior pode trazer alguns padrões comuns:
- Sentimentos mais intensos
Medo, culpa, vazio, impotência, solidão e muito
medo de ser abandonada e rejeitada. Quando os pais
e outros adultos significativos nos abandonam,
rejeitam ou abusam de nós na infância, a dor é tão
insuportável que o Adulto Interior se desliga da
Criança Interior para não ter mais tais vivências,
intensificando assim a dor, o vazio e a solidão.
- Medo de estar errada
A Criança Interior abandonada está quase sempre
com medo de estar errada, porque acredita ser essa
a razão de ter sido abandonada ou rejeitada.
Torna-se um adulto que está sempre pedindo
desculpas, como se precisasse se desculpar por um
dia ter nascido. Pode ainda ser um adulto
perfeccionista, ou muito preso às regras, em como
as coisas devem ser feitas, na tentativa de não
errar.
- Repetição interna
A repetição interna consiste em repetir em si
mesmo as violências do passado. Nós nos punimos
como nos puniam na infância. Dizer a si mesmo
frases como: "seu idiota como pode ser tão burro?"
ou "não sei fazer nada direito", " nunca serei
feliz", podem ser repetições do que ouvia quando
criança. Algumas pessoas batem no próprio rosto,
exatamente como a mãe fazia com ela quando era
pequena. A emoção do passado, não resolvida,
geralmente é usada contra a própria pessoa. Se era
comum desprezarem nossos sentimentos, será também
comum nos relacionarmos com quem agirá da mesma
forma.
- Dificuldade no relacionamento afetivo
Se quando crianças fomos vítimas de maus-tratos,
tendemos a manter relacionamentos destrutivos,
permitindo sermos tão maltratados como éramos,
temendo o abandono. Confundimos carência com amor.
Como podemos compartilhar nossa vida com alguém,
quando não sabemos realmente quem somos? Como
alguém pode nos conhecer quando nós mesmos não nos
conhecemos? Como podemos receber amor de alguém se
não nos sentimos merecedores de sermos amados?
- Comportamento agressivo
Hitler foi espancado na sua infância, humilhado e
envergonhado por um pai sádico. Hitler repetiu a
forma mais extrema dessa crueldade em milhões de
pessoas inocentes. O comportamento agressivo pode
ser o resultado da violência na infância e da
mágoa e da dor não resolvidas. A criança impotente
e ferida pode se transformar no adulto agressor.
Isto é verdade especialmente em casos de
maus-tratos físicos, de abuso sexual e de severo
castigo emocional. Para sobreviver à dor, perde-se
toda noção de identidade, identificando-se com o
agressor.
A maioria do comportamento agressivo nem sempre é
resultado de maus-tratos. Em alguns casos,
crianças que foram "mimadas" pelos pais aprenderam
a se considerar superiores aos outros, fazendo-as
acreditar que merecem um tratamento especial de
todos. Perdem toda a noção de responsabilidade,
certas de que seus problemas são sempre de outras
pessoas, não assumindo a responsabilidade por seu
comportamento.
- Co-dependência
Ser co-dependente é perder o contanto com os
próprios sentimentos, carências e desejos. Não tem
noção do próprio valor, que é criado no seu
íntimo, só compreende o valor dos outro,
tornando-se dependente de outras pessoas. Não tem
nenhuma noção interior do próprio "eu".
A co-dependência nasce e cresce dento de sistemas
familiares doentios. Por exemplo, quando o
ambiente familiar é de violência (química,
emocional, física ou sexual), a criança passa a
focalizar apenas o exterior. Com o tempo, ela
perde a capacidade de gerar a auto-estima que vem
do seu interior. O comportamento co-dependente
indica que as carências da infância não foram
atendidas, que a criança não sabe quem é. Algumas
pessoas ficam paradas porque estão o tempo todo
buscando fora o amor que não receberam.
- Necessidade de aprovação e reconhecimento
Grande parte do que lhe disseram que era cuidado
paterno ou materno era abuso. Se continuar
inclinado a minimizar e/ou racionalizar os modos
pelos quais foi envergonhado, ignorado ou usado
para satisfazer seus pais, não conseguirá se
libertar da angústia e da dor. Deve aceitar o fato
de que essas coisas feriram a sua alma.
Todas as crianças idealizam os pais, esse é o modo
pelo qual garantem a própria sobrevivência.
Contudo, quando a criança agredida idealiza os
pais, ela acredita que é a única responsável pelo
abuso de que é vítima. "Eles me batem porque sou
uma criança malvada." Ou ainda: "Eles me tocam
porque eu deixo."
Estranhamente, quanto mais era agredida,
maltratada ou ignorada em seus sentimentos, mais
pensava que era mau, mais idealizava seus pais e
mais necessidade de aprovação e reconhecimento por
parte deles buscava, sempre procurando agradá-los.
Esse comportamento pode se manter mesmo quando
adulto. Se não consegue obter aprovação dos pais e
depois junto de seu próprio Adulto, poderá fazer
de tudo para obter amor e aprovação dos outros.
- Carência
É quando precisamos dos outros para nos sentir
amados. Essa carência de uma aprovação externa
surge do medo profundo do abandono e da rejeição.
A carência em geral gera dependência em
relacionamentos doentes e do qual não se consegue
sair.
É
preciso confrontar-se com os sentimentos para nos
curarmos
Quanto mais estiver disposto a enfrentar o medo, a
verdade, a dor, a solidão, a mágoa, suas
decepções, raivas, inseguranças, e quaisquer
outros sentimentos, mais depressa conseguirá se
libertar dessas correntes que o aprisionam.
Permita-se enfrentar todas as proteções que o
ajudam a se esconder e comprometa-se com seu
crescimento, pois enquanto não enfrentar sua dor,
se esconderá atrás dela.
Mas é claro que pode optar em permanecer com seu
medo e dor. Mas espero que seu desejo de se
libertar seja muito maior que seu desejo de
enfrentar a dor que todo esse processo provoca.
Afinal, cada um tem a vontade de escolher aquilo
que lhe é mais importante; permanecer como está,
fingindo que não sente dor ou curar-se e crescer.
Qual deles você prefere?
"Precisamos
aceitar que não foram nossos pais que nos
abandonou,
nós nos abandonamos"
Rosemeire
Zago
é psicóloga clínica com abordagem junguiana.