Cada um do seu jeito sente o tempo cada vez mais
escasso, o que mais se ouve é: "não tenho tempo".
Claro, com o avanço da tecnologia, globalização,
recebemos cada vez mais informações e mal
conseguimos processar todas as que chegam até nós.
Estamos sempre na ânsia de fazer mais em menos
tempo, e por vezes nos lembramos com saudades
daquela época em que tínhamos mais tempo. Você se
lembra, acredito que não faz tanto tempo assim, de
quando visitava um parente ou amigo, só para saber
como estava?
Hoje não conseguimos visitar nem quando precisam,
quem dirá para simplesmente bater papo. Não
conseguimos desligar do relógio nem nos finais de
semana, e até nosso relógio biológico parece nos
trair ao nos acordar no horário habitual, mesmo
quando podemos dormir mais, pois são tantas
tarefas a realizar que nos cobramos controlar o
tempo. Ou será ele que nos controla?
A
ociosidade transformou-se em não ter o que fazer,
quando na verdade, é um convite à reflexão, e com
isso, antes de tudo, permite com que fiquemos
muito mais perto de nós mesmos e de nossos
sentimentos. Alguns, eu diria, muitos, mesmo na
praia, sentados à beira-mar, ao invés de
contemplarem o horizonte e desfrutarem a natureza,
estão com os olhos grudados em jornais. É claro,
aproveitando o tempo para saber as últimas
notícias. Ficar informado é importante, mas dar um
tempo para nossa mente é igualmente sábio. Muitos
chegam a se culpar quando não estão produzindo,
sempre em busca de movimento, ocupação, o que nos
induz a pensar se não seria uma fuga inconsciente
para não se dar tempo para pensar na vida. Quem
sabe?
Devemos lembrar ainda, que mesmo para processar
tanta informação e transformá-la em conhecimento,
é preciso análise, compreensão, e como para tudo,
há um tempo para isso também. Precisamos de tempo
para reflexão e amadurecimento. De que adianta
tanta informação se mal conseguimos nos lembrar
das últimas linhas que lemos, de tão saturados que
às vezes ficamos? Para que buscar tanto
conhecimento acerca do que acontece no mundo, se
muitas vezes não sabemos sequer o que acontece
dentro de nós mesmos ou até, dentro de nosso
círculo familiar?
O
tempo parece realmente voar, e muitos se tornam
verdadeiros bombeiros, onde estão sempre apagando
um incêndio, ou seja, nunca se preocupam em
prevenir o aparecimento de novos focos de
problemas, pois não há tempo. Sim, as pressões
externas são inúmeras, mas são as pressões
internas e a maneira com que lidamos com as
situações, o que mais nos desgastam e nos levam ao
estresse.
Aprenda a dizer não
É
importante aprender a avaliar as situações e
identificar quando é possível deixar de dizer:
"deixa que eu resolvo" e passar a dizer aquela
palavrinha tão difícil de ser pronunciada por
muitos: "não". Se você tem dificuldade de dizer
não, tente treinar em situações em que você a
princípio não conseguiria, imaginando como se
sentiria se tivesse respondido negativamente e aos
poucos aprenda a se impor.
Geralmente são pessoas que inconscientemente
desejam agradar, pois acreditam que se disserem
"não", deixarão de serem amadas; se não mostrarem
conhecimento, deixarão de serem reconhecidas, ou
seja, estão sempre em busca de aprovação, porque
em seu íntimo, não aprovam a si mesmas.
Na
verdade, antes de aprendermos a aproveitar melhor
o tempo, devemos estar conscientes do que pode
estar oculto no jargão "não tenho tempo",
refletindo profundamente sobre quais questões
podem vir à tona se houver mais tempo para pensar,
ficar mais consigo mesmo ou com aqueles que ama. O
que poderá acontecer ao permitir-se fazer nada de
vez em quando?
Identifique culpas, ou se durante sua formação
aprendeu que quem não faz nada não tem valor e
guardou essa crença como realidade. Ou ainda, se a
necessidade do controle do tempo não pode estar
refletindo uma necessidade do controle da própria
vida, ou de agradar, se mostrar importante, tendo
sempre que verificar a agenda antes de marcar um
compromisso. E permita-se ter tempo ao menos uma
vez por semana para olhar o céu, contemplar as
estrelas, brincar com as nuvens, ou simplesmente
fazer nada e nem por isso, ser alguém com menos
valor. Afinal, a sabedoria não estar em acumular
informações, mas sim, em colocá-las em prática.
Rosemeire
Zago
é psicóloga clínica com abordagem junguiana.