Este é o segundo artigo da série Os Sete
Pecados Capitais: gula, cobiça, luxúria,
avareza, preguiça, ira e inveja. Nesse segundo
artigo abordarei a ira. Segundo o dicionário
Aurélio, ira é cólera, raiva, indignação, desejo
de vingança. É preciso distinguir entre a ira ou
cólera; e raiva ou ódio. O ódio e a raiva, de
certa forma, são a ira reprimida. São emoções
totalmente destrutivas tanto para os que as sentem
como para quem se torna objeto delas. A ira é um
impulso momentâneo, que provoca também os maus
pensamentos, fazendo com que muitas vezes façamos
acusações injustas, provocando muitas brigas e
conflitos nas relações.
Pessoas que se comportam de maneira feroz, animal,
destrutiva, agressivas, demonstram imaturidade. Se
a ira causa um desejo descontrolado de vingança,
está diretamente associada a desonra, brigas,
indignação, a agressividade exagerada, a qual
desencadeia hostilidade e destruição. É um estado
de descontrole, que chega a modificar o semblante,
a expressão facial.
O
homem conseguiu controlar sua agressividade
através da razão, ou seja, utiliza a
racionalização como um mecanismo de defesa, mas
quando tomado por uma forte emoção nem sempre
esses mecanismos atuam. A agressividade gerada
pela ira demonstra a incapacidade de racionalizar
quando se deixa dominar pela emoção, sobrepondo
muitas vezes, conteúdos inconscientes, como por
exemplo, pode indicar uma incapacidade exagerada
de amar aos outros, muitas vezes como resultado do
amor que não recebeu na infância ou da
agressividade que recebeu, repetindo assim o mesmo
padrão. Nesses casos é preciso identificar a
emoção que foi mobilizada e que não permitiu a
atuação do mecanismo de defesa.
A
ira no trabalho
No campo profissional a ira é o maior exemplo de
sentimentos expostos, por exemplo, pelos líderes
sem equilíbrio emocional ou autoconhecimento.
Basicamente a atitude mental que está por trás da
ira é o desejo de destruir. É aquele líder que
apela para técnicas pouco eficazes como mexer com
o lado emocional. É do tipo que, quando você vai
pedir seu aumento salarial, ele diz que você é um
ingrato e que você não imagina como foi difícil
convencer a diretoria a lhe dar o último aumento.
Ou quando ele não concorda com algo que você fez,
ameaça o seu emprego, às vezes com frases sutis
como: "O mercado de trabalho está difícil, não?".
Ou ainda, quando você debate empolgado com ele
sobre sua brilhante carreira, ele diz algo como,
"Você tem ainda muito que aprender..." Ou seja,
sempre te colocando para baixo, desvalorizando,
com autoritarismo, desrespeito, provocando com o
tempo e com as somas destes comentários, muita
ira.
Por baixo de toda ira quase sempre detectamos o
medo de errar, de expressar-se de outra maneira,
de perder espaço, etc. Ao invés de terem
consciência da origem de tais sentimentos,
preferem atacar para defender-se de seus próprios
fantasmas. O resultado disso é fazer com que a
equipe não discuta os problemas com o líder, pois
sabe que ele irá utilizar algum artifício
emocional, desencadeando assim aspectos emocionais
e conflitos.
Como lidar com a ira
O
que fazer quando somos tomados pela emoção e
perdemos o controle? Com certeza não é sair
xingando ou berrando com o primeiro que aparecer
pela sua frente, isso só vai piorar as coisas e
trazer mais confusão.
O
mais indicado é extravasar sim, porém de maneira
adequada, seja surrando uma almofada ou um
colchão, fechando os vidros do carro ou se
trancando em seu quarto e gritar. Pode também
escrever tudo que estiver sentindo e depois poderá
guardar e ler após um mês.
Outra técnica é a visualização: imagine a pessoa
que provocou tal sentimento em você e fale tudo
que estiver sentindo. Qualquer coisa que libere
seus sentimentos, ainda que só em seus
pensamentos, te trará um grande alívio, pois para
o inconsciente não há diferença entre o pensamento
e a realidade. É possível assim, descarregar toda
energia reprimida causada pela ira ou raiva de
modo a não ofender ou machucar alguém.
Depois, mais calmo, é possível analisar a situação
e refletir o que tocou tão profundamente dentro de
você, o que tocou em sua emoção. Isso não quer
dizer que seja saudável nos sentirmos irados a
todo momento, considerando tudo como ofensa
pessoal, mas havendo o sentimento, também não é
benéfico reprimir sua manifestação, desde que seja
feita como sugerida acima.
Mas o que dizer daquelas pessoas que estão sempre
extravasando sua ira e continuam constantemente
iradas?
Geralmente, são pessoas que não se confrontam com
a fonte original do sentimento e saem agredindo a
todos, quando na verdade, ainda que
inconscientemente, estejam agredindo a si
próprias.
Através do auto-conhecimento
é possível perceber que comportamentos desse tipo
são manifestações de ódio por si mesmo. Por mais
que possam te fazer, não permita que alguém tenha
controle sobre seus sentimentos e consiga te
deixar irado. Como em todos os outros pecados o
amor por si mesmo ainda é o melhor remédio.
Rosemeire
Zago
é psicóloga clínica com abordagem junguiana.