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Tudo acontece comigo!
Rosemeire Zago
r.zago@uol.com.br
 
Algumas pessoas parecem colecionar injustiças. Tudo acontece com elas. Ao parar no farol o carro de trás não consegue brecar, e lá se vai todo seu pára-choque. Estão andando na rua e são assaltadas. Compram os móveis que tanto queriam, e quando chegam, se é que não atrasa muito mais que o prazo previsto, chegam com defeito. Ou seus relacionamentos afetivos são destrutivos, onde o marido ou a esposa sempre os deixam de lado. Ou estão sempre se envolvendo com quem as machucam. Suas amizades constantemente estão aprontando alguma.

E no trabalho? Há sempre alguém que não gosta dela, tentando prejudicá-la em tudo. Enfim, tudo acontece com elas. De ruim, é claro! São as eternas vítimas! Estão sempre se lamentando, sempre com uma tragédia para contar. E fazem questão de ficar relembrando uma a uma, como se não conseguisse viver sem elas.

Você conhece alguém assim?

Sentem que só o outro consegue, seja uma promoção, comprar um carro, manter o casamento. E se acontece alguma coisa boa para alguém, sentem como se fosse um insulto pessoal, podendo gerar muita inveja, principalmente daqueles que contam o que de bom lhes acontece, chegando até a perder muitas amizades.

Afinal, fica difícil manter uma amizade com alguém que não perdoa mal-entendidos, erros, pois não esquecem nunca o passado e sentem muita dificuldade em perdoar. Estão sempre culpando os outros por suas infelicidades, pois não se responsabilizam por nada.

Geralmente podem ter esse sentimento desde a infância, quando achavam ou eram mesmo, o (a) filho (a) menos favorecido (a), aquele (a) que recebia menos elogios, menos presentes, e muito mais críticas e cobranças.

Ou ainda, sofreram influência do pai ou da mãe, pessoas que talvez vivessem sempre insatisfeitas e que só percebiam e reconheciam as falhas e erros. Cresceram acreditando que não existe uma quantidade de coisas boas para todos. E quando existe, é claro, nunca estão incluídas! E se por acaso algo bom acontece, são capazes de acreditarem que está bom demais para ser verdade e começam a verbalizar que algo muito ruim está para acontecer, como se não confiassem, nem acreditassem, serem merecedoras de obterem sucesso, prazer.

Colecionam decepções, frustrações, insatisfações e parecem viver em função disso. Não conseguem aceitar que tudo isso são partes normais e inevitáveis da vida. Esperam o pior e acabam criando, ainda que inconscientemente, circunstâncias para que o pior realmente lhes aconteçam e acabam deixando de gozar a vida e valorizar as coisas boas que com certeza também acontecem.

Quando por exemplo, estão num relacionamento saudável, estão sempre esperando que algo ruim irá acontecer. Até que acontece! Pois como evitam a afeição, a generosidade, o amor verdadeiro, quando lhes são oferecidos, como se isso os garantissem nunca mais se machucarem, acabam vivendo como que com uma armadura que as impedissem de serem magoadas, humilhadas, usadas, por quem quer que seja. Com isso, evitam também as aproximações verdadeiras e honestas.

São pessoas que se acham sempre certas e que raramente mudam seu comportamento. São rígidas na sua forma de verem o mundo e as relações pessoais. A não ser que encontrem alguém que seja realmente importante e que não esteja disposto a ouvir sua lista interminável de lamentações.

O desejo para manter uma relação pode ser fator primordial para uma mudança na maneira de encarar a vida com seus sabores e dissabores. O ideal seria perceberem que só poderão manter relações saudáveis se passarem a ter uma relação mais harmoniosa consigo mesma e com seu passado. Não há como fazer o caminho contrário.

Para isso é importante perdoar, a si mesma e aos outros. Perdoar não significa necessariamente esquecer, mas significa não permitir mais que mágoas e ressentimentos passados continuem controlando sua vida.

Cada vez que reprime raiva, ressentimento, mágoa, esses sentimentos negativos vão se acumulando e com o passar dos anos podem buscar uma maneira de serem expressos. E pode ser através de alguma doença. Vale a pena?

Talvez seja hora de parar com essa coleção de mágoas... antes que se destrua! É hora de perceber a relação direta desse tipo de comportamento com a destruição de relacionamentos valiosos, podendo destruir principalmente sua relação consigo mesmo.

Será que vale a pena continuar a se lamentar e manter relações altamente destrutivas a ter a possibilidade de construir uma relação sadia consigo mesmo e com os outros? Essa resposta só você pode responder!
 

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