Algumas pessoas parecem colecionar injustiças.
Tudo acontece com elas. Ao parar no farol o carro
de trás não consegue brecar, e lá se vai todo seu
pára-choque. Estão andando na rua e são
assaltadas. Compram os móveis que tanto queriam, e
quando chegam, se é que não atrasa muito mais que
o prazo previsto, chegam com defeito. Ou seus
relacionamentos afetivos são destrutivos, onde o
marido ou a esposa sempre os deixam de lado. Ou
estão sempre se envolvendo com quem as machucam.
Suas amizades constantemente estão aprontando
alguma.
E no trabalho?
Há sempre alguém que não gosta dela, tentando
prejudicá-la em tudo. Enfim, tudo acontece com
elas. De ruim, é claro! São as eternas vítimas!
Estão sempre se lamentando, sempre com uma
tragédia para contar. E fazem questão de ficar
relembrando uma a uma, como se não conseguisse
viver sem elas.
Você conhece
alguém assim?
Sentem que só o
outro consegue, seja uma promoção, comprar um
carro, manter o casamento. E se acontece alguma
coisa boa para alguém, sentem como se fosse um
insulto pessoal, podendo gerar muita inveja,
principalmente daqueles que contam o que de bom
lhes acontece, chegando até a perder muitas
amizades.
Afinal, fica
difícil manter uma amizade com alguém que não
perdoa mal-entendidos, erros, pois não esquecem
nunca o passado e sentem muita dificuldade em
perdoar. Estão sempre culpando os outros por suas
infelicidades, pois não se responsabilizam por
nada.
Geralmente podem
ter esse sentimento desde a infância, quando
achavam ou eram mesmo, o (a) filho (a) menos
favorecido (a), aquele (a) que recebia menos
elogios, menos presentes, e muito mais críticas e
cobranças.
Ou ainda,
sofreram influência do pai ou da mãe, pessoas que
talvez vivessem sempre insatisfeitas e que só
percebiam e reconheciam as falhas e erros.
Cresceram acreditando que não existe uma
quantidade de coisas boas para todos. E quando
existe, é claro, nunca estão incluídas! E se por
acaso algo bom acontece, são capazes de
acreditarem que está bom demais para ser verdade e
começam a verbalizar que algo muito ruim está para
acontecer, como se não confiassem, nem
acreditassem, serem merecedoras de obterem
sucesso, prazer.
Colecionam
decepções, frustrações, insatisfações e parecem
viver em função disso. Não conseguem aceitar que
tudo isso são partes normais e inevitáveis da
vida. Esperam o pior e acabam criando, ainda que
inconscientemente, circunstâncias para que o pior
realmente lhes aconteçam e acabam deixando de
gozar a vida e valorizar as coisas boas que com
certeza também acontecem.
Quando por
exemplo, estão num relacionamento saudável, estão
sempre esperando que algo ruim irá acontecer. Até
que acontece! Pois como evitam a afeição, a
generosidade, o amor verdadeiro, quando lhes são
oferecidos, como se isso os garantissem nunca mais
se machucarem, acabam vivendo como que com uma
armadura que as impedissem de serem magoadas,
humilhadas, usadas, por quem quer que seja. Com
isso, evitam também as aproximações verdadeiras e
honestas.
São pessoas que
se acham sempre certas e que raramente mudam seu
comportamento. São rígidas na sua forma de verem o
mundo e as relações pessoais. A não ser que
encontrem alguém que seja realmente importante e
que não esteja disposto a ouvir sua lista
interminável de lamentações.
O desejo para
manter uma relação pode ser fator primordial para
uma mudança na maneira de encarar a vida com seus
sabores e dissabores. O ideal seria perceberem que
só poderão manter relações saudáveis se passarem a
ter uma relação mais harmoniosa consigo mesma e
com seu passado. Não há como fazer o caminho
contrário.
Para isso é
importante perdoar, a si mesma e aos outros.
Perdoar não significa necessariamente esquecer,
mas significa não permitir mais que mágoas e
ressentimentos passados continuem controlando sua
vida.
Cada vez que
reprime raiva, ressentimento, mágoa, esses
sentimentos negativos vão se acumulando e com o
passar dos anos podem buscar uma maneira de serem
expressos. E pode ser através de alguma doença.
Vale a pena?
Talvez seja hora
de parar com essa coleção de mágoas... antes que
se destrua! É hora de perceber a relação direta
desse tipo de comportamento com a destruição de
relacionamentos valiosos, podendo destruir
principalmente sua relação consigo mesmo.
Será que vale a
pena continuar a se lamentar e manter relações
altamente destrutivas a ter a possibilidade de
construir uma relação sadia consigo mesmo e com os
outros? Essa resposta só você pode responder!
Rosemeire
Zago
é psicóloga clínica com abordagem junguiana.