Gula pode ser fuga do sexo e da
vida O sentido que está
por trás da gula é o de estar funcionando abaixo
das potencialidades, buscando sempre uma
compensação pelo que acredita não se ter
Falarei sobre a gula neste terceiro artigo da
série os 'Sete Pecados Capitais': gula, cobiça,
luxúria, avareza, preguiça, ira e inveja.
A
gula é considerada um pecado venial (perdoável),
caso a pessoa deixe de cumprir suas obrigações
devido à gula. Ela pode ser entendida como uma
forma de fuga, talvez para proteger-se do excesso
de sexualidade. Ainda hoje isso acontece, pois
muitas pessoas trazem consigo a crença religiosa
de que ter prazer sexual é pecado. Muitas pessoas,
principalmente mulheres, depois da primeira
relação sexual, ou depois do casamento, começam a
engordar, como forma inconsciente, é claro, de se
tornarem menos sensuais ou atrativas para seus
parceiros. Pode também, significar a fuga de
muitas outras dificuldades, ou ainda, de
sentimentos.
Ansiedade e comida
A
ansiedade também pode gerar a busca compulsiva
pela comida. Apesar de ser uma resposta normal ao
perigo físico - e pode ser uma ferramenta útil
para concentrar a mente, quando há o fim de um
prazo que se aproxima - a ansiedade se torna um
problema quando ela persiste muito além da ameaça
imediata e passa a ser um traço da personalidade,
onde tudo gera ansiedade. Quando os sintomas como:
preocupação descontrolada, inquietação,
irritabilidade, apreensão, tensão muscular e
problemas de concentração se tornam persistentes,
afetando os hábitos e padrão de vida comum é
chamado de Transtorno de Ansiedade Generalizada -
TAG.
No sentido literal, gula é o excesso de comer e
beber, na sua simbologia maior significa
voracidade: que devora e destrói. Entendendo essa
simbologia, podemos relacionar que ao devorar o
alimento compulsivamente, tenta-se, ainda que
inconsciente, destruir o que está dentro. Agindo
assim, sente culpa e se pune por ter perdido o
controle, formando assim um círculo vicioso: come
em excesso para fugir do que sente, culpa-se por
isso, se pune comendo mais.
Há quem coma até não agüentar mais, podendo
desenvolver a bulimia, que é um dos transtornos
alimentares que se caracteriza por episódios
repetidos de compulsões alimentares seguidas de
comportamentos compensatórios inadequados, como
vômitos auto-induzidos, mau uso de laxantes ou
diuréticos. Pessoas com esse transtorno alimentar
geralmente se envergonham de sua compulsão e
procuram ocultar seus sintomas, podendo dificultar
o diagnóstico. Duas características básicas são a
perda de controle e a culpa. E na tentativa de não
aumentar o peso, recorre ao vômito ou uso de
laxantes, como se isso fosse capaz de diminuir os
sentimentos que não consegue lidar. Depois de ter
concentrado toda sua energia em colocar a comida
para dentro, procura agora colocá-la para fora. A
pergunta é: "O que na verdade queria colocar para
dentro?" Com certeza não era comida o que
precisava, pois se fosse não teria a necessidade
de se livrar dela.
Gula intelectual
A
característica da gula é engolir e não digerir.
Quantas vezes não digerimos o que nos acontece e
simplesmente engolimos? Geralmente está associada
à comida e à bebida, mas também pode ser entendida
como gula intelectual inclusive. O sentido que
está por trás da gula é o de estar funcionando
abaixo das potencialidades, buscando sempre uma
compensação pelo que acredita não se ter. A
sensação é de não estar fazendo tudo que o
potencial permite, vivendo sem atender
expectativas. A atitude mental básica é: necessito
aprender tudo. Essa característica pode levar à
necessidade de monopolizar, desejando o poder cada
vez mais para si.
Gula nas organizações
Um exemplo da gula nas organizações é quando se
compram equipamentos de última geração
desnecessariamente ou quando os gestores
centralizam o processo decisório e as informações.
Ou ainda, a gula pelo poder, evidenciando um líder
centralizador, que não confia ou que não quer
confiar em sua equipe, porque na verdade, não
confia em si mesmo e em seu potencial. Todas as
decisões têm que partir dele, que precisa estar a
par de todas as informações que saem do setor. Até
os documentos mais banais têm de ter sua
assinatura ou visto. A equipe passa a não decidir
e fazer questão de não decidir nada. Todos os
trabalhos são incompletos, pois o líder ainda dará
a opinião final. Então, é inútil concluí-los. A
gula pode influenciar tanto nos relacionamentos
quanto na produtividade das pessoas.
O
mais indicado para evitar os excessos que a gula
pode gerar é descobrir que situações o levam a
cometê-los, identificando as situações e lidando
com cada uma delas. Não negue, nem faça que não
está sentindo nada. Para obter o controle sob suas
emoções é preciso aceitar o que está sentindo,
assim ficará mais fácil identificá-la. É
importante também reconhecer cada conquista e
manter sua mente no presente que assim o resultado
virá naturalmente.
Examine o que aconteceu naquele dia ou nos
anteriores. O que o magoou ou o perturbou? Por
exemplo, uma discussão com alguém, pressão no
trabalho, recordação de antigos sofrimentos, estar
fazendo o que não quer, etc. Os motivos podem ser
muitos, mas você só conseguirá a recuperação
quando perceber que sua necessidade está muito
além de comer, beber, ter poder, afinal, nada
disso é amor! E quando sentir esse amor por si
mesmo, não terá mais a necessidade de cometer
nenhum dos sete pecados capitais.
Rosemeire
Zago
é psicóloga clínica com abordagem junguiana.