Quem está passando por uma separação sente mais
dificuldade em realizar as tarefas mais simples,
como se não tivesse mais energia para nada. Nesse
momento nos sentimos tão sem valor, que não
encontramos forças para fazer algo por nós mesmas
ou ainda, não acreditamos sermos merecedoras de
nada que possa fazer nos sentir bem, como se
houvesse uma culpa oculta gerada pela própria
situação.
Há uma mistura de sentimentos: culpa, abandono,
mágoa, raiva, medo, rancor, tristeza, frustração,
impotência, dor, solidão... Mas apesar da perda,
dos erros e feridas, podemos e devemos, fazer algo
para que consigamos suportar esse momento tão
cruel e que parece não ter fim.
Separar-se de quem se ama não é uma tarefa das
mais fáceis. É um momento de muita dor, como se
tivesse atingido a nossa própria alma, que agora
sangra de tal forma, que parece não se cicatrizar
nunca. As emoções ficam mais expostas e a razão
parece sequer existir. Ficamos totalmente sem
defesa e proteção. E o que mais nos pedem é que
sejamos racionais. Como, quando tudo é sentido com
tanta intensidade, que parece não existir espaço
para a razão?
Quando a decisão pela separação é tomada pelos
dois, que concordam ser esse o melhor caminho, por
não haver mais amor, respeito, amizade, objetivos
em comum, já é difícil, por todo o processo em si
que envolve esse momento. Mas existem casos que a
separação acontece quando um, ou muitas vezes, os
dois, ainda se amam, mas determinada situação os
"forçam" a se separar. Ou ainda, há pessoas que
são literalmente abandonadas, sem sequer ter
participado da decisão ou sabem os reais fatores
que levaram o outro a ir embora.
Quando existe amor, a separação machuca demais os
envolvidos, não atingindo apenas quem já não sente
mais amor, ou quem já está com outra pessoa em seu
coração. Para quem ainda ama, requer muito esforço
para voltar a sentir prazer pela vida. Afinal...
que vida... se sentimos que quem foi levou um
pedaço de nós? Dizem que o tempo é o melhor
remédio, mas o tempo parece se intensificar e
prolongar ainda mais o que tanto dói.
Hoje, sequer existem amigos para dividir esse
momento, e muitas vezes, não há família. Ou seja,
não há ninguém com quem dividir a tristeza, a
saudade, com quem falar das dúvidas e perguntas
sem fim. Não há quem suporte ao nosso lado e
preencha esse vazio tão intenso deixado por quem
se foi e por tudo que se acreditou. É exatamente
isso que dá a sensação de vazio, os planos feitos,
os sonhos que jamais serão realizados, ao menos
com quem se acreditou que seriam. Tudo isso
acabou! Acabou o "nós" e é preciso de novo voltar
a dizer "eu", não há mais a "nossa" casa, e sim, a
"minha". Não há mais as ligações diárias, os
jantares a dois, os momentos de prazer, as
preocupações divididas, tudo agora terá que ser
feito só, mas é preciso lembrar que também não há
mais sofrimento.
A certeza de ter alguém que nos espere, que se
preocupe, que nos ame, nos dá muitas vezes a
segurança para continuar mais um dia e que, de
repente, não temos mais. Ficamos inseguros,
frágeis, sensíveis, e apenas com uma certeza: não
somos amados como esperávamos ser. E isso acaba
por se refletir em todas as outras áreas de nossa
vida, comprometendo nossa concentração,
criatividade, o trabalho e até a própria saúde.
A tendência nesse momento é lembrar apenas de tudo
que havia de bom, dos momentos de alegria, mas
será que era mesmo assim? Se fosse, haveria a
separação? É preciso analisar todo o
relacionamento para identificar o que era desejo,
idealização e o que era realidade. A outra pessoa
estava correspondendo aquilo que você esperava
dela? Será que nos últimos meses, ou quem sabe até
anos, tudo era mesmo feito junto e com satisfação
para ambos? Quem acabava sempre cedendo para
agradar apenas ao outro? Quanto será que você não
relevou, deixou para lá, não esperou que o outro
mudasse? Quais eram os motivos dos
desentendimentos, discussões e brigas? Os
objetivos de cada um continuavam a ser os mesmos?
Os valores também? Havia demonstrações constantes
de amor? Os dois se sentiam amados e valorizados?
O que levou ao distanciamento? Havia diálogo,
trocas constante de carinho, cuidado com o outro?
Ou será que as palavras de carinho começaram a dar
lugar a ofensas e mágoas?
Algumas palavras ditas ferem como arma afiada que
penetram no mais íntimo de nosso ser, provocando
feridas invisíveis, mas que dificilmente
cicatrizam. Como e quando as coisas mudaram? Por
que não se conseguiu evitar a separação?
Acaba sendo instintivo julgar o outro como
responsável pelo nosso sofrimento em função de sua
ausência. Mas será que agora você não está tão
sozinho como quando estavam juntos? Todos esses
sentimentos, muitas vezes contraditórios, podem
nos deixar mais confusas ainda, quando o que mais
precisamos é serenidade e confiança.
Sentimos medo de errar de novo, de ficar sozinha,
de ninguém mais querer dividir a vida conosco, de
não ser mais amada, desejada, de não conseguir
superar mais essa perda, e assim, nos isolamos.
Culpamos-nos pelo que fizemos e deixamos de fazer.
Tudo parece não ter mais vida e nem sentido para
se continuar vivendo. Será que está sentindo tudo
isso porque o outro não está mais ao seu lado, ou
por que abandonou a si mesma há muito tempo?
É importante nesse momento você responder a si
mesma todas essas perguntas com sinceridade para
que possa entender todo esse processo e voltar a
perceber o valor que com certeza você tem. O mais
urgente nesse momento é confrontar-se com os
sentimentos que mais doem dentro de você, pois
será o caminho certo para buscar sua força
interior.
Rosemeire
Zago
é psicóloga clínica com abordagem junguiana.