Era uma vez uma
velha árvore chamada Jacarandá, que se sentia
infeliz, sem saber para onde ir, o que fazer, não
sabia quem era e do que era capaz. Sendo assim,
foi perguntar a roseira o que devia fazer, e esta
lhe respondeu: 'Você deve dar rosas, de todas as
cores para colorir seu jardim, faça isso e será
feliz". O Jacarandá tentou, tentou e tentou, e não
conseguiu dar rosas, com isso ficou mais triste
ainda e resolveu fazer a mesma pergunta para a
macieira, a qual lhe respondeu: 'Você deve dar
maçãs, muitas maçãs vermelhas, lindas, doces, para
agradar a todos'. O Jacarandá tentou fazer o
sugerido, mas de novo não conseguiu, ficando mais
triste ainda, decepcionado e frustrado consigo
mesmo, sentindo-se mais uma vez incapaz. Afinal
pediram-lhe para dar rosas e não conseguiu,
pediram para dar maçãs e também não conseguiu,
sentindo-se assim a pior das criaturas, totalmente
incapaz de fazer o que esperavam que ele fizesse.
Nesse momento
surge a sábia coruja, que lhe diz: 'Nada disso,
não queira ser o que os outros esperam que seja,
nem faça o que lhe sugerem, mas seja você mesmo,
dê sombra aos viajantes, abrigo aos pássaros,
valorize tudo aquilo que é capaz de fazer,
valorize acima de tudo seu próprio ser. Ouça sua
voz interior, procure se conhecer mais'. Dito
isso, ela desapareceu, como se tivesse deixado sua
importante mensagem. O Jacarandá pensou e pensou:
'Ser eu mesmo, voz interior, conhecer-me? Como
farei isso, será que sou mesmo capaz de fazer algo
por mim?'. As dúvidas eram muitas.
Quantos de nós
não fomos ou somos Jacarandás em algum momento de
nossas vidas? Quantos não são Jacarandás e não se
permitem crescer? Sempre que duvidamos de nossa
capacidade, sempre que perguntamos a outra pessoa
o que devemos fazer, como devemos agir, o que
devemos sentir, nos permitimos ser aquilo que
esperam de nós, e isso muitas vezes, está distante
de quem somos na verdade. É só reparamos o quanto
em nosso dia-a-dia nos deixamos contaminar com a
opinião, e o pior, com o julgamento dos outros,
sem dizer no quanto deixamos de nos respeitar e
reclamamos quando fazem o mesmo conosco.
Infelizmente,
poucas são as pessoas que se conhecem ou buscam
elevar seu autoconhecimento, acomodando-se em
situações, evitando mudanças ou conflitos, tudo
para não desagradar a outras pessoas, sem se
importarem com o quanto estão sendo duras, para
não dizer, cruéis, consigo mesmas. Há pessoas que
se punem diariamente e permitem que suas vidas
fiquem na mão dos outros. Isso geralmente acontece
em quem se sente inseguro, não acredita em si
mesmo, nem na própria capacidade. Ou ainda, nas
pessoas que necessitam constantemente de aprovação
e reconhecimento.
É preciso
entender que essa necessidade está quase sempre
relacionada com a necessidade em agradar aos
outros, ainda que faça isso sem perceber. Ao agir
assim, não se percebe que se deixam manipular por
outras pessoas, fazendo sempre o que o outro quer
e raramente ouvindo a si mesmo e suas próprias
necessidades. Ou seja, estamos constantemente
desvalorizando o que somos, e supervalorizamos a
opinião dos outros, sejam estes quais forem.
Para quem se
sente como o Jacarandá é preciso ter consciência
que por mais que outras pessoas possam lhe dar
respostas, elas estão dentro de você! Mas existem
momentos em que não acreditamos nisso, nos
sentimos tão sem valor que sequer podemos pensar
em buscar respostas dentro de nós mesmos e
continuamos a buscá-las fora de nós, o que quase
sempre gera frustração, pois ninguém pode saber o
que é melhor para nós.
Sabemos o quanto
é difícil em momentos de conflitos, tristeza,
perda, abandono, conseguir ouvir ou identificar o
que sentimos, mas se fizermos um esforço, mantendo
o diálogo interno, conversando muito consigo
mesmo, aos poucos conseguimos nos ouvir. Como
fazer isso? Pergunte-se todos os dias: 'O que
estou sentindo?' E não desista até que ouça a
resposta. No começo irá sentir um pouco de
dificuldade, mas se insistir, perceberá que as
respostas começarão a surgir. Se você consegue
conversar com outra pessoa, por qual motivo não
irá conseguir conversar consigo mesmo?
Ao ouvir-se
mais, com certeza perceberá que só depende de você
mudar a situação em que se encontra, pois enquanto
buscar as respostas em terceiros, mas distante
ficará de si e de seus sentimentos. E é isso que
gera conflitos. Aproxime-se de você, permita-se se
ouvir um pouco mais, respeite seus sentimentos e
aprenda a lidar com eles.
Por tudo isso,
reflita, medite e pense: 'Não permita que nada,
nem ninguém, incluindo você mesmo, impeça que
descubra toda a essência maravilhosa de seu ser:
SEJA VOCÊ MESMO'!
Rosemeire
Zago
é psicóloga clínica com abordagem junguiana.