Dando seqüência à série de artigos sobre 'Os Sete
Pecados Capitais': gula, soberba, luxúria,
vaidade, preguiça, ira e inveja, irei abordar a
soberba. São Tomás de Aquino considerou a soberba
um pecado específico, embora possa ser encontrado
em todos os outros pecados. A soberba é a forma
básica do pecado. Ela teria sido a responsável
pela desobediência de Adão, que provou o fruto
proibido com a ambição de se tornar Deus. A
soberba leva o homem a desprezar os superiores e a
desobedecer as leis. Ela nada mais é que o desejo
distorcido de grandeza.
A
pessoa que manifesta a soberba atribui apenas a si
próprio os bens que possui. Tem ligação direta com
a ambição desmedida, a vanglória, a hipocrisia, a
ostentação, a presunção, a arrogância, a altivez,
a vaidade, e o orgulho excessivo, com conceito
elevado ou exagerado de si próprio. Quantas
pessoas de nosso convívio conhecemos com algumas,
ou todas, essas características?
Em algumas citações dos sete pecados, utiliza-se o
termo cobiça, que é ambição desmedida, o desejo
veemente de possuir bens materiais. Em outras
citações podemos encontrar o termo soberba que é o
orgulho excessivo, arrogância, elevação ou altura
de uma coisa em relação à outra, e que leva à
soberania, que é o poder ou autoridade suprema. E
ainda podemos encontrar o termo orgulho, conceito
exagerado de si próprio, com amor próprio
demasiado. Ou seja, esse pecado tem relação direta
com a ambição desmedida pelo poder e o orgulho
exagerado.
A
soberba no trabalho
No campo profissional aparece com a sensação de
que "eu sou melhor que os outros" por algum
motivo. Isto leva a ter uma imagem de si inflada,
aumentada, nem sempre correspondendo à realidade.
Surge com isso a necessidade de aparecer, de ser
visto, passando inclusive por cima de padrões
éticos e vendo os outros colaboradores ou colegas
minimizados.
Geralmente, pessoas com essas características
ocupam cargos elevados e utilizam seu poder para
impor suas vontades, manipulando as pessoas ao seu
redor com o intuito de conseguirem que tudo seja
feito conforme seus desejos. Exigem ainda uma
disciplina perfeccionista, não respeitando os
limites de cada um. Podemos citar o exemplo de
gestores que tomam determinadas decisões por
questões de orgulho pessoal, ferindo muitas vezes
as metas organizacionais, mas com o único objetivo
de dar vazão a este sentimento, o que certamente
trás resultados desastrosos a longo prazo.
A
pessoa com essa característica e por sua
necessidade de destaque dentro da empresa,
despreza as idéias e decisões da equipe, não
reconhecendo a capacidade desta. Toma as decisões,
muitas vezes sozinho e, na hora de reconhecer o
fracasso, diz que a decisão foi em equipe e no
sucesso diz que a idéia foi dele. Típico de
pessoas que querem ter sempre o destaque nos
grandes projetos. Não percebem que a melhor
maneira de estimular o crescimento não é impondo
regras, mas fazer com que cada um descubra em si
mesmo seu potencial, estimulando a independência.
Com isso a equipe passa a não participar de
decisões, sabendo que é "voto vencido". A equipe
passa a ter uma postura defensiva, preocupando-se
não com as decisões, mas em não absorver culpas.
Quem é acometido pela soberba, em nome do poder,
quase sempre sacrifica sua tranqüilidade, a
convivência com a família, uma relação afetiva
saudável, a própria saúde, tudo para conquistar ou
manter uma posição de destaque, não importando o
preço a ser pago, em geral, muito caro. A pessoa
orgulhosa por não suportar a dependência,
menospreza os sentimentos das pessoas, se
colocando sempre como um "ser superior", como se
estivesse num pedestal difícil de ser alcançado.
Com isso, a soberba acaba acarretando muitos
conflitos nas relações pessoais, afetivas,
familiares, pois quem a comete busca manter o
controle, criticando, manipulando e dominando,
como forma de manter seu poder e autoridade. Ela
precisa fazer com que o outro se sinta diminuído
para que ela se sinta superior.
Sede
de poder
Não encontramos o poder apenas na política ou nos
cargos elevados. O poder como a capacidade de
fazer com que outras pessoas ajam na dependência
de sua vontade, pode ser encontrando em muitos
exemplos em nosso dia-a-dia. Quantos pais não
exercem seu poder com seus próprios filhos? A dona
de casa que impõe sua vontade com a diarista?
Quantas pessoas que se aposentam não ficam em
depressão pela perda do poder que isso acarreta?
Não querer abrir mão de uma autoridade que durante
tantos anos deu sentido e valor à sua vida, pode
trazer muito sofrimento, mas que também não é
assumido. Ninguém abre mão do poder, ou sequer, de
uma parcela dele, com facilidade e satisfação. A
perda do poder, ou de uma parcela dele, muitas
vezes é sentida como sendo alguém de menor valor,
pois são pessoas mais preocupadas em ter do que em
ser.
O
conceito exagerado de si próprio, o amor-próprio
demasiado, a necessidade de poder, são apenas
máscaras que buscam compensar a falta de amor que
sente por si mesmo, pois possui em geral uma
necessidade de auto-afirmação. O orgulho está
diretamente relacionado com a falta de
amor-próprio. A ambição pelo poder e a aquisição
de bens materiais podem ser uma forma de compensar
um sentimento de vazio. Esse impulso para o poder,
essa necessidade de querer ter mais, pode ainda
ser conseqüência do sentimento de inferioridade e
da sensação de desamparo, fragilidade e
impotência, presentes em muitos de nós. Porém,
esses sentimentos são mais intensos naqueles que,
nos primeiros anos de vida, não encontraram junto
aos adultos com quem conviveram, o conforto, o
acolhimento e o amor que amenizassem esse
desamparo. O que explica o fato da necessidade de
poder ser vital para algumas pessoas e de menor
significado para outras.
A
soberba está muito distante da humildade,
característica básica de quem possui algum
autoconhecimento. É lamentável que algumas pessoas
só percebam esses comportamentos no final de suas
vidas, muitas vezes num leito de hospital, quando
muito pouco podem fazer para reconstruírem o que
destruíram, nos outros e, principalmente, em si
mesmas. É preciso desenvolver a consciência que
seu valor enquanto pessoa independe da posição ou
aquisição, mas que acima de tudo, somos todos
seres humanos, em constante processo de evolução,
independente do que temos, mas com certeza por
aquilo que somos.
Rosemeire
Zago
é psicóloga clínica com abordagem junguiana.