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» Psicologia |
Como enfrentar a solidão causada pela separação
Rosemeire Zago
r.zago@uol.com.br |
Quando
passamos por uma separação, o mais indicado para a
recuperação é a consciência do que ocorreu e do que
está sentindo. Digo isso porque muitas pessoas
acabam um relacionamento e logo em seguida, quando
não antes de acabar, já estão entrando em outro, o
que pode gerar a longo prazo muita confusão,
insegurança. Todos sabemos que separar não é nada
fácil, requer acima de tudo muita maturidade, pois
em geral há muitas pessoas envolvidas, muito mais
que o simples casal. É um momento marcado por muita
confusão, dúvidas, com a única certeza do desejo de
querer paz e ser valorizado por tudo aquilo que se
tem de melhor. Durante o período da saudade, vive-se
uma alternância de raiva e tristeza. Raiva pelo que
aconteceu e da forma que aconteceu e tristeza por
tudo de bom que se viveu e não vive mais. A saudade
é pelos momentos bons vividos, esquecendo-se muitas
vezes do real motivo que motivou a separação.
Conseguir examinar a relação passada com
objetividade e serenidade não é uma tarefa simples,
principalmente para quem não está acostumado a
refletir e analisar suas próprias emoções e
sentimentos. Mas é o caminho que poderá aumentar a
consciência de si, dos próprios limites, e evitar
buscar culpados como algumas pessoas tendem ao final
de um relacionamento, sem jamais chegar de fato às
causas dos problemas que aos poucos foram se
instalando.
É preciso analisar com o maior distanciamento
possível a relação passada e avaliar os fatores que
influenciaram essa decisão, compreendendo o passado,
tudo que ocorreu, lembrar de fatos e o que levou
cada um a tomar as atitudes que foram tomadas e
analisar principalmente, em que ponto seu próprio
crescimento foi interrompido, como também os
sentimentos que foram despertados pelo outro durante
o relacionamento. Enfim, a separação pode ser
marcada pela oportunidade de refletir sobre tudo que
se viveu, se permitiu viver e aprender a valorizar a
capacidade de crescer cada vez mais, é
definitivamente sair da zona de conforto.
Algumas pessoas se separam com muita certeza do que
querem; mas outras, no entanto, fazem por pura
impulsividade, num momento de nervoso, e muitas
vezes apenas com o intuito de fazer o outro levar um
susto, e não pensam muito em como irão se sentir com
essa decisão e quando percebem já estão separadas e
sentindo muita dor. Por isso, é preciso muita
reflexão e diálogo antes de tomar uma decisão.
Uma das características da separação é deparar-se
com a solidão. É ter que enfrentar tudo aquilo que
muitas vezes escondeu por anos de si mesmo. O medo
de olhar para dentro de si é tão profundo que
algumas pessoas evitam a separação, e outras só
conseguem se separar quando já estão envolvidas com
outra pessoa, tudo para não sentir a própria dor.
Ainda que existam filhos, há a solidão em estar
sozinho com os próprios sentimentos, medos, dúvidas,
tristezas, e tudo mais que a separação provoca. Esse
é um dos motivos que pode fazer uma pessoa
envolver-se com outra logo após uma separação: o
medo de ficar só. O mais aconselhável é dar um tempo
para si mesmo, pois só estará efetivamente aberto
para uma nova relação a dois quando for capaz de
enfrentar a vida sozinho, a menos que já tenha a
certeza de que a relação passada não deixou nenhum
vestígio, o que raramente acontece. Envolvendo-se
muito rápido num novo relacionamento, corre-se o
risco de levar consigo todos os comportamentos
negativos da relação passada. É como se a falta de
vínculo com outra pessoa criasse um vazio enorme,
onde a vida parece sem sentido e nada vale a pena,
sentindo que só voltará a viver se tiver outro
relacionamento.
Enquanto estão sozinhas, muitas pessoas recorrem ao
uso de álcool, drogas, comida em excesso ou deixando
de alimentar-se como uma fuga, ainda que muitas
vezes inconsciente, de uma realidade dolorosa. Mas
com certeza, não é negando nem fugindo do que se
sente o melhor caminho para se livrar de toda a dor.
Pois nessa fuga incessante de si mesmo, não se
permitindo refletir sobre seus sentimentos e sua
realidade, irá manter cada vez mais seu sofrimento e
adiar a tão sonhada paz, pois a tendência será
repetir na nova relação muitos dos comportamentos
que havia na anterior.
O sentimento de solidão na maioria das vezes provoca
muita angústia e traz um forte sentimento de
autodepreciação e insegurança, com pensamentos
freqüentes de que nada vale, e que ninguém o ama. O
que não é verdade. É preciso se lembrar de quando a
relação começou. Havia sonhos, desejos, ilusões, e
que por alguns motivos, deixou de existir. Um dos
dois, ou ambos, em algum momento deixou de cuidar do
que um dia foi tão importante.
O medo da solidão pode surgir por não sentir prazer
em ficar só consigo mesmo. Como ficar com alguém que
é tão mau, constantemente abandonado, rejeitado,
desprezado? Por isso tende a fugir desses
sentimentos tão devastadores, e ao invés de eliminar
a angústia, alimenta-a ainda mais. É preciso ter
consciência que nada adianta manter esses
pensamentos de si mesmo, pois com certeza eles não
refletem a realidade. Nem se trancar em casa e
fechando-se, deixando que o desespero e as lágrimas
tomem conta. Como também não irá melhorar ficar sem
comer, ou comer em excesso, ou ocupar-se com a vida
de outras pessoas, tudo isso só irá agravar esse
momento tão delicado. Essa fuga de nada adianta pelo
simples fato de que se pode fugir de tudo, menos de
si mesmo e do que está sentindo. É claro que nem
todas as pessoas se dão conta de que estão fugindo,
pois justificam para si próprias a necessidade de
agirem de tal forma.
É essencial se convencer de que ficar sozinho pode
ter muitas conquistas importantes, como permitir a
introspecção, a reflexão dos fatos, e
principalmente, um maior encontro com seu verdadeiro
eu. Viver sozinho não significa necessariamente
sentir-se só. Afinal, quantas vezes não se sentiu
sozinho mesmo quando estava com o ex-companheiro? Ou
com amigos e familiares? Não confunda a solidão
física com a emocional, pois só se sente só quem
abandona a si mesmo. A solidão nasce dentro da
própria pessoa quando ela perde o contato com seu eu
interior ou quando procura fugir de um problema,
sentimento ou pensamento que a incomoda.
Pense em quantas coisas você deixou de fazer algo
que queria porque o ex não gostava ou por falta de
tempo? Logo após uma separação é comum haver uma
disponibilidade de tempo que parece assustar e fazer
com que se sinta imobilizado, mas passado o período
de adaptação poderá descobrir as inúmeras coisas que
poderá fazer por si mesmo. Ao se separar irá ter
muito mais tempo para fazer coisas que gosta e que
nem se lembra mais. Por que não visitar uns amigos,
ler aqueles livros que comprou e sequer os abriu,
dedicar-se a um hobby, fazer um trabalho voluntário?
São pequenas coisas que poderão aos poucos lhe
trazer de novo o prazer de viver. É importante
perguntar-se: “o que eu gosto de fazer”? E ir fazer!
Lembre-se de amigos que deixou no decorrer do
caminho. Lembre-se que havia uma vida antes de você
namorar, casar. Resgate sua vida, agora mais do que
nunca, só sua!
De fato, os momentos de saudade e tristeza pelas
lembranças do passado são inevitáveis, mas é
importante vivê-los consciente de todo o
aprendizado, e dar ao passado o direito de existir
sem que para isso precise te destruir. Ninguém pode
evitar a sensação de abandono e a falta de quem se
foi faz em sua vida, mas também ninguém pode te
privar de que sinta uma força interior que aos
poucos irá adquirir ao se permitir estar em paz
consigo mesmo. E isso não tem preço!
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