Neste artigo irei falar sobre a avareza, para dar
seqüência à série de artigos sobre "Os Sete
Pecados Capitais": gula, soberba, luxúria,
avareza, preguiça, ira e inveja.
Avareza vem do latim avere. Segundo o
dicionário Aurélio, avareza significa excessivo e
sórdido apego ao dinheiro; falta de generosidade e
mesquinhez. Entende-se por sórdido quem denota o
emprego de meios degradantes e baixos para
alcançar um fim. Você conhece alguém assim?
Convivemos diariamente com pessoas que cometem
esse pecado capital. A avareza pode gerar outras
atitudes negativas: a desumanidade derivada do
excesso de apego, a inquietude que impõe
preocupações e cuidados excessivos, proveniente da
necessidade de juntar bens para si. Está ainda
relacionada com os enganos, a falsidade e a
mentira, na tentativa de enganar para lucrar.
Segundo o conceito cristão, o homem se preocupa em
acumular bens que não conseguirá levar para o céu
(paraíso). O lema de quem comete a avareza é:
"Quanto mais tenho, mais quero".
Avareza no trabalho
No trabalho podemos encontrar essa característica
em líderes "avaro" em relação à comunicação,
levando ao slogan: "Não tenho confiança em
ninguém", monopolizando as informações que lhe
chegam às mãos, por não conseguirem lidar com a
diversidade, com a transparência, entrando num
clima defensivo. Assim, não "conseguem"
comunicar-se com a equipe, que acaba por não
compreender as idéias e instruções, pois na
verdade, não são passadas claramente, onde o líder
deseja deter a informação para si, provocando
deturpações e conflitos nas tarefas do dia-a-dia.
A equipe tende a perder a confiança nas decisões e
atitudes do líder. Em termos de gestão de pessoas
podemos apontar a tendência à centralização como
gesto avarento nas organizações.
Avareza define-se ainda como estar excessivamente
apegado a alguma coisa levando a um grande medo de
faltar, uma percepção de escassez; que pode ter
sua origem na infância, onde quando crianças
passaram muitas privações, sendo muito comum a
privação alimentar. Podemos verificar isso em
pessoas que sempre fazem ou compram comida mais do
que o necessário, com medo, ainda que
inconsciente, de faltar. Outra reação muito comum
é não permitir que ninguém, principalmente as
crianças, deixem comida em seus pratos,
obrigando-as a comer tudo que foi colocado. Tudo
isso pode gerar adultos que comem em excesso,
cometendo outro pecado capital: a gula.
A
avareza é o produto de uma necessidade que se
encontra na intimidade da psique (mente) humana.
Ela tenta disfarçar o conflito com a busca de
bens, mas nunca consegue suprir a sensação de
carência, sendo um dos fatores que faz com que a
pessoa sinta uma insatisfação constante, buscando
cada vez mais adquirir bens, acreditando que com a
próxima conquista sentirá satisfação, o que nunca
ocorre.
O dinheiro pode passar a ser
ainda uma fonte absoluta de poder, pois em muitas
famílias e na sociedade como um todo, quem ganha
mais parece ter o direito de reivindicar sua
autoridade e poder, o que também leva à soberba (leia
mais), outro
pecado capital.
A
riqueza pode ser um dos instrumentos com o qual se
manipula as pessoas, controlando-as e fazendo-as
agir do modo muito distante do que na verdade
desejam. Em muitos casos pode até influenciar a
escolha da profissão, fazendo com que a pessoa
busque uma profissão tida como tradicional e de
maior valorização social, em detrimento de sua
vocação interna, sem se dar conta que ao longo do
tempo, poderá ser mais uma fonte de insatisfação.
Há casos, ainda hoje, em que muitos casais se
casam não por amor, mas para se unir a alguém que
lhes proporcione um status social, um nome, uma
posição, sem levar em conta os reais sentimentos
da alma.
É
uma falta de contato com o mundo interno, gerando
uma busca incessante por tudo que é externo, pois
acredita que dentro dela não há nada, como se
houvesse um imenso vazio que só poderá ser
preenchido por algo que venha de fora. O que gera
a necessidade de ostentação, ou seja, a ilusão de
querer ter êxito diante do mundo e não dentro de
si mesmo. A ilusão nada mais é do que uma defesa
contra uma realidade amarga. Embora, possa poupar
das dores momentaneamente, ao mesmo tempo, torna
prisioneiro da uma verdade que nem sempre
corresponde com a realidade.
Quase sempre desenvolvemos a ilusão na infância,
com pais, professores, parentes, como sendo reais
ensinamentos de que o dinheiro compra tudo e todos
e que, com o passar do tempo, se tornam crenças
que inconscientemente seguimos. Por exemplo, uma
pessoa com baixo padrão de vida, que na infância
presenciava muitas brigas dos pais e, que nos
finais de semana ou em período de férias, passava
na casa de um amigo ou parente, cujo ambiente era
acolhedor, tranqüilo, de muita harmonia entre as
pessoas, e com um padrão de vida um pouco melhor;
quando adulto, poderá relacionar que o dinheiro é
que proporcionava paz e harmonia, fazendo de tudo
para encontrá-la através das posses materiais. O
que é pura ilusão.
Afeto X dinheiro
Ainda há muitas pessoas que agem em função dessa
crença e acreditam que o amor, o carinho, a
atenção, a presença constante, podem ser
facilmente substituídas por roupas caras, carros
importados, uma linda casa, freqüentar os melhores
restaurantes, viagens constantes, como se isso
fosse suprir o amor não recebido. Tudo isso só
gera adultos que cometem, ainda que
inconscientemente, não só esse pecado capital,
como ainda a soberba, o orgulho, a vaidade e a
luxúria.
A
avareza gera ainda uma preocupação com rótulos,
pois como se importa com a opinião dos outros de
maneira exagerada, ainda que a negue, há uma
necessidade de mostrar sua capacidade através de
aquisição de bens materiais, como a importância
por suas posses e propriedades, como se isso
mostrasse sua real capacidade.
Viver em busca de bens materiais é valorizar e
viver em função do externo, pois não acredita ter
algo dentro de si mesmo. Isso pode criar muitas
ilusões e fantasias acreditando que quanto mais
obtiver, mais felicidade encontrará, como se a
posse material fosse o suficiente para
proporcionar felicidade.
Pessoas que dão valor excessivo aos bens materiais
precisam acreditar que são superiores para
compensar um profundo complexo de inferioridade e
a crença na falta de sentido em que vivem.
Relato de Jung
"Vi muitas vezes que os homens ficam neuróticos
quando se contentam com respostas insuficientes ou
falsas às questões da vida. Procuram situação,
casamento, reputação, sucesso exterior e dinheiro;
mas permanecem neuróticos e infelizes, mesmo
quando atingem o que buscavam. Essas pessoas
sofrem, freqüentemente, de uma grande limitação do
espírito. Sua vida não tem conteúdo suficiente,
não tem sentido. Por esse motivo a idéia de
desenvolvimento, de evolução tem desde o início,
segundo me parece, a maior importância".
Jung nos mostra nesse relato, a importância em se
buscar o sentido da vida, que com certeza não é
adquirido através da aquisição de bens. Somente
quando o homem tomar consciência do seu próprio
mundo interior, poderá deixar a doentia
preocupação com as aparências e com a conseqüente
frustração gerada pelo vazio causado na busca
desenfreada pelo mundo externo e, nesse momento,
poderá encontrar o sentido da sua própria vida.
Rosemeire
Zago
é psicóloga clínica com abordagem junguiana.