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» Psicologia - Curando Feridas - Criança Interior |
Criança Interior
Rosemeire Zago
r.zago@uol.com.br |
O real significado da "Criança Interior"
"Em todo adulto espreita uma criança - uma criança
eterna, algo que está sempre vindo a ser, que nunca
está completo, e que solicita, atenção e educação
incessantes. Essa é a parte da personalidade humana
que quer desenvolver-se e tornar-se completa"
Carl Gustav Jung psiquiatra suiço (1875-1961)
Muito se fala sobre a criança interior, mas nem
sempre conseguimos entender seu verdadeiro
significado e toda a transformação possível através
do reencontro com a mesma.
Assim, com o intuito de elevar o conhecimento sobre
o assunto e, conseqüentemente, o auto-conhecimento,
começarei a partir desse artigo, uma série em que
irei abordar esse assunto com a profundidade e
seriedade que ele requer, com indicações de livros e
filmes que com certeza poderão enriquecer seu
conhecimento.
Solicito que ao ler essa série, o leitor utilize
suas faculdades intuitivas, mais do que as
analíticas. Não pense que criança interior é aquela
que veio do interior ou seus filhos, mas sim aquela
que vive dentro de nós. Acredito que os conceitos da
teoria de Carl Gustav Jung se fazem necessários para
uma maior compreensão do referencial teórico
utilizado, onde alguns serão descritos ao final de
cada artigo.
Começaremos com o *arquétipo da criança, que
poderíamos chamar de a "grande" imagem da criança
interior, uma vez que ela é a criança que todos nós
contemos, não só como parte de nós, mas também como
uma forma codificada da vivência coletiva que a
humanidade tem com relação à criança.
A promessa que essa criança representa está dentro
de nós, em nossas origens e esperanças. O aspecto
divino da criança interior que habita em todos nós é
uma fonte que, quando percebida conscientemente,
pode nos oferecer coragem, entusiasmo e,
principalmente, cura. Ela é divinamente inspirada,
irradiando luz para quem a encontra e iluminando
nossa **sombra.
É importante salientar que a criança divina se
distingue da criança interior formada a partir da
memória das vivências pessoais, ou seja, a criança
negligenciada, vítima de abuso, não amada,
exageradamente disciplinada, excessivamente
criticada, cobrada e humilhada, assim como os
aspectos vulneráveis e carentes da criança que fomos
um dia. É a criança de nossas vivências e que todos
nós desejamos curar para podermos recuperar a
energia que ainda resiste em forma de defesa, que
acabamos por desenvolver para nos proteger das
primeiras experiências sofridas.
As defesas podem ser muitas como forma inconsciente
de fugir do que um dia sentiu, seja através da fuga
pelo álcool, comida, drogas, sexo, poder, dinheiro,
enfim, é a busca pelo externo com o intuito de não
sentir o que está dentro. A criança divina é um
símbolo de transformação, o qual é portador da cura,
daquilo que torna inteiro. Curar essa criança
interior através da criança divina significa uma das
tarefas mais sagradas e também nos possibilita não
continuarmos mantendo inconscientemente alguns
padrões com nossos próprios filhos nem com nós
mesmos.
Independente do histórico de vida de cada um,
torna-se imprescindível o entendimento dessa teoria
para quem está em busca do seu verdadeiro 'eu', o
self , pois sempre parece nos faltar algo à nossa
infância de verdade.
Infância ideal e infância real
Em geral, levamos dentro de nós uma imagem da
infância ideal, daquela em que o acolhimento e
demonstrações de amor foram perfeitos. Essa imagem
muitas vezes poderá ser projetada nos outros e
lamentando-nos por um ideal, idealizamos
relacionamentos e aumentamos nossa solidão e dor.
Por trás dessas imagens da infância real e da
infância ideal está a imagem da criança interior
divina, que brota da camada arquetípica mais
profunda de nosso ser.
A criança interior divina tem a inocência, a
espontaneidade e o anseio profundo da alma humana
por expandir-se e crescer. Às vezes, essa criança
interior faz exigências muito intensas,
apresentando-se por emoções, ansiedade, depressão,
raiva, conflito, vazio, solidão, ou sintomas
físicos. A força vital e natural desse arquétipo
quer o nosso reconhecimento e ao ser ignorada pode
acarretar sérias conseqüências quando adulto. Quando
não fomos devidamente valorizados quando crianças,
diminuímos o valor da criança interior e assim
mantemos as vivências de nossa infância e seu
sofrimento.
Para encontrar essa criança abandonada o mais
indicado é através do processo analítico, ou seja,
da psicoterapia com base no inconsciente, amparando
essa criança e compreendendo seus sentimentos, pois
a cura só acontece quando lamentamos nossos
sentimentos mais íntimos. Assim, desenvolvemos ***a
função transcendente, que nos conduz à revelação do
essencial no homem. No início não passa de um
processo natural. Jung deu a esse processo o nome de
****processo de individuação, o qual parte do
pressuposto de que o homem é capaz de atingir sua
totalidade, isto é, de que pode curar-se.
E essa cura pode muitas vezes ser obtida quando se
encontra essa criança, muitas vezes abandonada, mas
que nem sempre conseguimos reconhecer sua
existência, principalmente pelo fato da resistência
e máscaras que vamos desenvolvendo no decorrer da
vida e que nos distancia de nosso verdadeiro eu.
O primeiro passo no processo de individuação é
explorar a persona (máscara), pois embora tenha
funções protetoras importantes, ela é também uma
máscara que esconde o self, nosso verdadeiro eu, o
inconsciente e tudo que ele contêm e que serão
explorados no próximo artigo.
*Arquétipo: conteúdos do inconsciente coletivo.
**Sombra: tudo aquilo que não percebemos e não
aceitamos, e que gostaríamos de não ver. Parte
obscura e inconsciente.
***Função transcendente: mudança obtida através do
confronto com o inconsciente.
****Processo de individuação: processo de
desenvolvimento da totalidade, o tornar-se si mesmo.
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