Você vive atrás de uma máscara? Se vivemos atrás de uma
máscara durante a nossa vida inteira, cedo ou
tarde - se tivermos sorte - essa máscara será
esmagada...
Marion Woodman
O
primeiro passo no processo de individuação
(processo de desenvolvimento da totalidade, o
tornar-se si mesmo) é explorar a persona, ou seja,
a forma pela qual nos apresentamos e nos
relacionamos com o mundo, incluindo nossos papéis
sociais.
O
termo persona é derivado da palavra latina
equivalente à máscara, que se refere às máscaras
usadas pelos atores no drama grego para dar
significado aos papéis que estavam representando.
E o primeiro passo no processo de individuação é o
desnudamento da persona, pois conforme vamos
desenvolvendo máscaras para nos defendermos, ao
mesmo tempo acabamos por nos afastar de quem
realmente somos, de nosso self (personalidade
total, verdadeiro eu).
Começamos a desenvolver essas máscaras desde
crianças, ou seja, a criança quando não é aceita
da maneira que ela é, passa a ser como esperam que
seja, ou tentando ser o mais próxima possível das
expectativas que criaram para ela, mas que na
verdade não é sua essência. Esse afastamento com o
tempo pode ser a origem de muitos conflitos e
vazios.
Por exemplo, uma criança que quando foi gerada e
durante toda sua gestação o pai ou a mãe desejava
muito que fosse um menino e ao nascer a frustração
de um deles foi muito grande ao saber que era uma
menina; essa criança desde pequena, com o intuito
inconsciente de agradar esse pai ou mãe, passa a
agir, vestir e brincar como um menino, buscando
corresponder às expectativas externas. E assim vão
sendo criadas as máscaras, como a única forma que
encontra de ser aceito.
Como a persona se estrutura conforme o ambiente,
como se fosse uma couraça protetora que nos
defende das agressões externas, essa couraça vai
ficando cada vez mais espessa para conseguir
suportar a realidade. São aqueles adultos que com
os quais nos deparamos - ou somos - rígidos,
inflexíveis, onde nada parece os atingir. É como
se o "eu verdadeiro" ficasse soterrado no fundo da
pessoa, embaixo de muitas camadas de mágoas,
ressentimentos, humilhações, desprezo, criando uma
verdadeira muralha que os afastam de quem são
verdadeiramente.
Quantos não vestem uma máscara sorridente durante
o dia inteiro, mas quando voltam para casa à
noite, choram até o dia seguinte? São adultos que
enquanto crianças desenvolveram a arte de não
sentir seus sentimentos, pois uma criança só pode
ter e expressar seus sentimentos quando existe ali
alguém que os possa aceitar completamente, sem
críticas, julgamentos, comparações, entendendo-a e
dando-lhe apoio.
Não tendo quem suportasse com ela suas dores, não
aprendeu a se ouvir, se respeitar, como se tudo
que sentisse fosse errado, com a sensação que não
devia sentir o que sentia, desenvolvendo assim, um
falso eu e, quando adulto, ignora seus sentimentos
mais íntimos como aprendeu na infância. Vive em
função do externo, buscando sempre uma forma de
preencher esse vazio, seja através das drogas,
sexo, comida, poder, trabalho, tudo para não
entrar em contato com seus reais sentimentos, pois
em alguma época aprendeu que isso era errado e
aprendeu a ignorar também o que sentia.
Ser ferido quando criança, porque seus pais não
permitiam que você fosse quem era, foi a pior
coisa que poderia acontecer, fazendo com que
aprendesse que não era certo ser você mesmo. Não
era certo pensar o que você estava pensando,
querer o que você queria, sentir o que você sentia
ou imaginar o que imaginava. Às vezes não era
certo ver o que você via ou sentir o cheiro que
estava sentindo. Enfim, não era certo ser você.
Assim, muitas pessoas acreditam que não há nada
além dessa máscara. É quando se faz necessário
compreender o que aconteceu com essa criança, sob
que condições e por quais motivos essa couraça foi
desenvolvida, e que se justifica a importância do
trabalho do resgate da criança interior e do qual
pode ser realizado pelo processo de individuação,
que geralmente ocorre através da análise.
Mas se quando adulto continua a ignorar os
sentimentos e necessidades dessa Criança, perde a
conexão com ela, fazendo-a confirmar que não é
amada. Com isso ela conclui que deve ser muito má,
errada, indigna de ser amada, insignificante,
inadequada, caso contrário, não teria sido
abandonada, primeiro pelos adultos da realidade
exterior, pais, avós, e depois, por seu próprio
Adulto Interior, ou seja, por você, hoje.
Ela
aprende a temer ser rejeitada e abandonada e, com
o tempo, pode acabar projetando nas outras pessoas
essa vivência de abandono, acreditando quase o
tempo todo que será abandonada ou rejeitada a
qualquer momento, ainda que de fato isso possa não
estar acontecendo. Então, tudo o que passa a fazer
é com o intuito de evitar esse abandono ou
rejeição, muitas vezes aceitando relações
destrutivas, doentias, humilhando-se sempre por
migalhas de amor.
Máscara esmagada
Como disse a analista junguiana Marion Woodman, a
qual resume muito bem esta reflexão: "Se vivemos
atrás de uma máscara durante a nossa vida inteira,
cedo ou tarde - se tivermos sorte - essa máscara
será esmagada. Então será preciso que olhemos no
espelho, enxergando nossa própria realidade.
Talvez fiquemos apavorados. Talvez estejamos então
olhando para os olhos aterrorizados de nossa
própria criancinha, daquela criança que nunca
conheceu o amor e que agora suplica atenção. Essa
criança está sozinha, ficou esquecida antes mesmo
de sairmos do útero, no próprio momento do parto,
ou quando começamos a fazer as coisas para agradar
aos nossos pais e aprendemos a manejar nossas
melhores atuações para ganhar aceitação. À medida
que a vida avança, continuamos a abandonar a nossa
criança procurando agradar aos outros. Essa
criança, que é a nossa própria alma, implora, por
baixo do burburinho da nossa vida, muitas vezes
imersa no cerne do nosso pior complexo, que
digamos: você não está sozinha, eu amo você".
Faça uma reflexão sobre tudo isso, o quanto pode
se relacionar com sua própria história, o quanto
você se sente distante de si mesmo, quantas são as
máscaras que desenvolveu em busca de aceitação e
reconhecimento, que espera até hoje, o quanto
ainda age com a intenção de agradar a todos, sem
importar-se com seus reais sentimentos. E por
falar em sentimentos, onde estão seus reais
sentimentos?... Continuarei na próxima semana.
Rosemeire
Zago
é psicóloga clínica com abordagem junguiana.