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» Psicologia - Curando Feridas - Máscaras |
Máscaras
Rosemeire Zago
r.zago@uol.com.br |
Você vive atrás de uma máscara?
Se vivemos atrás de uma máscara durante a nossa vida
inteira, cedo ou tarde - se tivermos sorte - essa
máscara será esmagada...
Marion Woodman
O primeiro passo no processo de individuação
(processo de desenvolvimento da totalidade, o
tornar-se si mesmo) é explorar a persona, ou seja, a
forma pela qual nos apresentamos e nos relacionamos
com o mundo, incluindo nossos papéis sociais.
O termo persona é derivado da palavra latina
equivalente à máscara, que se refere às máscaras
usadas pelos atores no drama grego para dar
significado aos papéis que estavam representando. E
o primeiro passo no processo de individuação é o
desnudamento da persona, pois conforme vamos
desenvolvendo máscaras para nos defendermos, ao
mesmo tempo acabamos por nos afastar de quem
realmente somos, de nosso self (personalidade total,
verdadeiro eu).
Começamos a desenvolver essas máscaras desde
crianças, ou seja, a criança quando não é aceita da
maneira que ela é, passa a ser como esperam que
seja, ou tentando ser o mais próxima possível das
expectativas que criaram para ela, mas que na
verdade não é sua essência. Esse afastamento com o
tempo pode ser a origem de muitos conflitos e
vazios.
Por exemplo, uma criança que quando foi gerada e
durante toda sua gestação o pai ou a mãe desejava
muito que fosse um menino e ao nascer a frustração
de um deles foi muito grande ao saber que era uma
menina; essa criança desde pequena, com o intuito
inconsciente de agradar esse pai ou mãe, passa a
agir, vestir e brincar como um menino, buscando
corresponder às expectativas externas. E assim vão
sendo criadas as máscaras, como a única forma que
encontra de ser aceito.
Como a persona se estrutura conforme o ambiente,
como se fosse uma couraça protetora que nos defende
das agressões externas, essa couraça vai ficando
cada vez mais espessa para conseguir suportar a
realidade. São aqueles adultos que com os quais nos
deparamos - ou somos - rígidos, inflexíveis, onde
nada parece os atingir. É como se o "eu verdadeiro"
ficasse soterrado no fundo da pessoa, embaixo de
muitas camadas de mágoas, ressentimentos,
humilhações, desprezo, criando uma verdadeira
muralha que os afastam de quem são verdadeiramente.
Quantos não vestem uma máscara sorridente durante o
dia inteiro, mas quando voltam para casa à noite,
choram até o dia seguinte? São adultos que enquanto
crianças desenvolveram a arte de não sentir seus
sentimentos, pois uma criança só pode ter e
expressar seus sentimentos quando existe ali alguém
que os possa aceitar completamente, sem críticas,
julgamentos, comparações, entendendo-a e dando-lhe
apoio.
Não tendo quem suportasse com ela suas dores, não
aprendeu a se ouvir, se respeitar, como se tudo que
sentisse fosse errado, com a sensação que não devia
sentir o que sentia, desenvolvendo assim, um falso
eu e, quando adulto, ignora seus sentimentos mais
íntimos como aprendeu na infância. Vive em função do
externo, buscando sempre uma forma de preencher esse
vazio, seja através das drogas, sexo, comida, poder,
trabalho, tudo para não entrar em contato com seus
reais sentimentos, pois em alguma época aprendeu que
isso era errado e aprendeu a ignorar também o que
sentia.
Ser ferido quando criança, porque seus pais não
permitiam que você fosse quem era, foi a pior coisa
que poderia acontecer, fazendo com que aprendesse
que não era certo ser você mesmo. Não era certo
pensar o que você estava pensando, querer o que você
queria, sentir o que você sentia ou imaginar o que
imaginava. Às vezes não era certo ver o que você via
ou sentir o cheiro que estava sentindo. Enfim, não
era certo ser você.
Assim, muitas pessoas acreditam que não há nada além
dessa máscara. É quando se faz necessário
compreender o que aconteceu com essa criança, sob
que condições e por quais motivos essa couraça foi
desenvolvida, e que se justifica a importância do
trabalho do resgate da criança interior e do qual
pode ser realizado pelo processo de individuação,
que geralmente ocorre através da análise.
Mas se quando adulto continua a ignorar os
sentimentos e necessidades dessa Criança, perde a
conexão com ela, fazendo-a confirmar que não é
amada. Com isso ela conclui que deve ser muito má,
errada, indigna de ser amada, insignificante,
inadequada, caso contrário, não teria sido
abandonada, primeiro pelos adultos da realidade
exterior, pais, avós, e depois, por seu próprio
Adulto Interior, ou seja, por você, hoje.
Ela aprende a temer ser rejeitada e abandonada e,
com o tempo, pode acabar projetando nas outras
pessoas essa vivência de abandono, acreditando quase
o tempo todo que será abandonada ou rejeitada a
qualquer momento, ainda que de fato isso possa não
estar acontecendo. Então, tudo o que passa a fazer é
com o intuito de evitar esse abandono ou rejeição,
muitas vezes aceitando relações destrutivas,
doentias, humilhando-se sempre por migalhas de amor.
Máscara esmagada
Como disse a analista junguiana Marion Woodman, a
qual resume muito bem esta reflexão: "Se vivemos
atrás de uma máscara durante a nossa vida inteira,
cedo ou tarde - se tivermos sorte - essa máscara
será esmagada. Então será preciso que olhemos no
espelho, enxergando nossa própria realidade. Talvez
fiquemos apavorados. Talvez estejamos então olhando
para os olhos aterrorizados de nossa própria
criancinha, daquela criança que nunca conheceu o
amor e que agora suplica atenção. Essa criança está
sozinha, ficou esquecida antes mesmo de sairmos do
útero, no próprio momento do parto, ou quando
começamos a fazer as coisas para agradar aos nossos
pais e aprendemos a manejar nossas melhores atuações
para ganhar aceitação. À medida que a vida avança,
continuamos a abandonar a nossa criança procurando
agradar aos outros. Essa criança, que é a nossa
própria alma, implora, por baixo do burburinho da
nossa vida, muitas vezes imersa no cerne do nosso
pior complexo, que digamos: você não está sozinha,
eu amo você".
Faça uma reflexão sobre tudo isso, o quanto pode se
relacionar com sua própria história, o quanto você
se sente distante de si mesmo, quantas são as
máscaras que desenvolveu em busca de aceitação e
reconhecimento, que espera até hoje, o quanto ainda
age com a intenção de agradar a todos, sem
importar-se com seus reais sentimentos. E por falar
em sentimentos, onde estão seus reais
sentimentos?... Continuarei na próxima semana.
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