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Ciclo da Evolução -
Amigo
por
Saul Brandalise Jr. -
saul@tvbv.com.br
Existem pessoas que são uma mistura de realidade e
sonho. Um sonho pelo qual a gente dormiria,
dormiria, quem sabe, uma vida inteira. O sonho que
certamente se confunde com a realidade. E uma
realidade que jamais pensaríamos, admitiríamos
até, que se tornaria saudades.
Existem pessoas que são semelhantes a estrelas,
luzes que enfeitam e iluminam os nossos caminhos e
as noites escuras de nossas vidas. Existem pessoas
que são verdadeiras plantas, flores e rosas.
Belezas discretas que alegram o nosso caminho.
Existem pessoas que são verdadeiros guerreiros de
alma branca. Lutam a vida toda para o crescimento
dos que lhe rodeiam e também daqueles que cruzam o
seu caminho. Existem pessoas que vieram para
transformar, construir, liderar e enobrecer.
Existem pessoas que simplesmente são pessoas.
Humildes, simples e que desconhecem o medo. Não
importando o tamanho do problema. Eles, os
problemas, todos, se anulam frente à garra, ao
conhecimento e espírito de luta, Existem pessoas
que, por si só, em seus exemplos, nas suas
atitudes, conseguem expressar e definir lealdade.
Existem pessoas que brilham tanto que gostaríamos
de tê-las em nossos dedos. Raríssimos anéis de
brilhante. Seres inconfundivelmente raros de LUZ
ofuscantemente nobre e própria.
Você, Gabriel Bogoni, foi assim e tudo isso.
Mas, com o tempo, as flores murcham, os guerreiros
adoecem, partem e só resta a saudade e o
reconhecimento das realizações do herói. Vem
igualmente o destino e nos acorda violentamente de
nosso sonho.
A dura realidade se apresenta nua, em nossa
frente. Incrédulos, olhamos, e sentimos um aperto
na alma e não adianta resistir. O universo mudou
as perguntas. Não resolve conhecer as respostas
anteriores. Agora é uma nova experiência, nova
vida, novos valores.
Foi assim... a noite toda, ao lado de seu corpo,
frio, inerte e sem vida. Os sentimentos brotavam
numa velocidade enorme e por mais que eu tentasse
apagar, eles eram mais fortes, afinal, fizeram
parte de nossas vidas. Como negar, esquecer, se os
melhores momentos, os mais dinâmicos, os mais
desafiadores, os mais alegres, os mais travessos,
realizamos juntos...
Não havia uma fogueira, como habitualmente
tínhamos nos acampamentos. Não resolveria te dar o
meu casaco, te agasalhar para te aquecer. Não
adiantaria tomar vinho tinto para “esquentar o
pé”. Era de vida que você precisava e ela já não
existia em seu corpo. Sem este calor tudo fica
frio...
Confesso, compadre, foi a pior noite que passei ao
seu lado. Eu falava e você não respondia. Eu
caminhava e você não me acompanhava. Eu chorava,
como agora que escrevo este texto e você não vinha
perguntar o que eu tinha, onde doía... qual era o
meu mal...
Assim, analisando a vida que dividimos, conclui,
para minha tristeza maior, que setenta por cento
dos momentos alegres da minha vida, você estava
comigo, mas, por outro lado, nos momentos em que
eu precisava de um ombro, em cem por cento dos
casos, você estava comigo. Portanto, quando eu
mais precisava de um amigo era você que eu tinha.
Sabe, compadre, eu já sabia que você era meu
amigo, eu já entendia que você era único, eu tinha
absoluta consciência do quanto você representava.
Mas, surpreendentemente, agora sei mais. No meio
de tantas e incontáveis alegrias que você me
proporcionou, sou obrigado a confessar que você
também causou uma das maiores dores. Foi muito
ruim não poder te dar o que eu queria... VIDA. Foi
terrível ser seu companheiro na última noite...
Sem calor, sem fogo e sem vida.
Não consegui ver seu corpo ser fechado dentro de
um caixão. Fui embora antes disso, me consumindo
em minha dor, em minhas saudades. Afinal, quem, de
sã consciência, desviaria um rio que desagua na
praia, num calor insuportável, só porque o tempo
não nos permitia ir pescar. Só nos dois não é?
Nunca fomos de ficar parados...
O verdadeiro amigo é aquele que fica quando todos
os demais foram embora. O verdadeiro amigo é
aquele que, não importando a situação e as
dificuldades, luta ao nosso lado. Você me mostrou
isso em vida. Quando todos foram, você ficou...
Sei que fui covarde. Esta colocação de estar
junto, custe o que custar, serve, para mim, não em
um funeral, em um velório. Já decretei. Quando eu
partir não quero isso. Desejo ser cremado
imediatamente e que alguém jogue minhas cinzas no
mar. Aqui no Sul da Ilha de Santa Catarina
E eu fico agora, entre lágrimas e meu computador,
lembrando das nossas incansáveis aventuras.
Pescarias, caçadas, acampamentos, noivado de
nossos filhos, nascimento de nosso neto e viagens
por este mundo afora. Preciso agradecer ao
Universo por ter permitido dividir contigo muitos
dias, meses e anos desta existência. Você tornou
tudo mais alegre, sábio e suportável.
Você sabe, onde V. estiver, que nada será como
antes. Terei que aprender a levar o que sobra
desta vida sem você, sem meu grande camarada. Tudo
vai ficar mais difícil, mais complicado. Os
acampamentos, as barracas, o Motor Home, as
viagens e principalmente as pescarias... terei que
reaprender a ter prazer, sabendo que nunca mais as
repetirei com você. Claro que existem outros seres
humanos e outras situações, mas nós sabemos que as
nossas sempre eram especiais.
Terei que ir buscar na memória os exemplos, as
palavras e as suas atitudes, se quiser te ter
presente em meu futuro. Você partiu cedo demais,
eu acho. Meu egoísmo não me permite, agora,
aceitar que você cumpriu a sua missão. Minha
saudade me impede de ter serenidade e reconhecer
que estamos neste planeta de passagem. Que a
verdadeira vida é a eterna, mas do outro lado.
A nossa Videira, com você eu admito dividir, não
será mais a mesma. Vai faltar alguém para cuidar
dela. Nesta hora em que o nosso país é carente de
políticos íntegros e de caráter... Você parte. No
outro lado está cheio de gente boa, mas, aqui,
estamos dividindo nosso País, nosso Estado, nossas
cidades com corruptos, cegos, ladrões, e
incompetentes. Sinceramente, para mim, você
poderia ter ficado mais um pouco. Na sua idade,
aos 59 anos, não é tempo para “se aposentar”.
Neste momento não conforta dizer que você deixou
os valores perenes. Não os quero, quero você.
Em cada brinde, em cada peixe fisgado, em cada
beijo e abraço ao nosso neto Gabriel, terei
certamente você presente. Minha memória faz
questão de manter sua imagem viva, ao meu lado
como exemplo de amigo, irmão e avô de meu neto
(como sempre gostávamos de brincar, afinal você
tinha mais cara de avô do que eu...).
Está sendo incrivelmente difícil aceitar a sua
partida. Por mais espiritualizado que eu queira
ser neste momento, a dor da dura realidade é
enorme. Seria um hipócrita se negasse... Quando
paro, me sinto só e as lágrimas me fazem
companhia; não resolve ser consciente. Sei que
isso vai passar, mas agora dói.
Sabe de uma coisa, compadre? Tenho a feliz
sensação de que não deixamos de realizar nada. É
só egoísmo mesmo. É estar acostumado que, não
importando hora e situação... você estaria ali,
pronto ao meu chamado ou simplesmente à minha
necessidade. É, isso não tem valor, mas eu já
sabia, antes de te perder. Uma pena que poucas
pessoas saibam reconhecer esta situação, ou mesmo
já tenham experimentado o real valor de um amigo.
Neste ponto eu fui privilegiado. Era Amigo de
Gabriel Bogoni. Meu compadre, irmão, pai e fiel
camarada.
Vai preparando o caniço, o vinho e o local do
acampamento aí em cima... Um dia chego. E aí
diremos juntos, erguendo a taça: VIVA O BISPO DE
LAGES, SACRAMENTA!!!
Saudade Eterna
Do irmão
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