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Sou pavio curto
Sirley
R.S. Bittú
E-mail:
sirley.regina@terra.com.br
O QUE É MATURIDADE
EMOCIONAL?
O pavio curto é aquele que facilmente “explode” o
famoso “tolerância zero”. A pessoa que age como um
pavio curto na vida, é na verdade comparável a uma
“criança mimada grande”, que nega-se a aceitar
seus próprios limites e os limites dos outros
faltando com o respeito a si e aos demais.
Em nosso aprendizado de relacionamentos,
absorvemos nossa cultura e através dela aprendemos
a reagir. Enquanto bebês, precisamos da sensação
de onipotência oferecida por nossa mãe ou
cuidadores. Essa sensação é resultante de termos o
que precisamos, no momento que precisamos. O bebê
tem fome e recebe o alimento , tem frio e é
acolhido, tudo isso num ritmo que o faz “pensar”
que tudo faz parte dele, tanto a fome como o
alimento. Mundo interno e externo ainda estão
confusos e misturados, é a fase em que o bebê
ainda não possui a noção do que é dele e do que
não é. Essa sensação primária de onipotência é
extremamente importante e ajuda o bebê em seu
desenvolvimento e na formação de sua identidade
emocional.
O esperado é que gradativamente o bebê passe a
perceber esses limites ao passo que comece a
vivenciar algumas pequenas frustrações, como por
exemplo, ter de esperar pelo leite. Este delicado
e complexo caminho do desenvolvimento humano foi
estudado em minúcias por vários especialistas em
comportamento e desenvolvimento emocional como D.
WINNICOTT, SPITZ, e outros; o objetivo não é
traze-lo por completo neste artigo, apenas
utilizar alguns aspectos como base de raciocínio.
Durante nosso desenvolvimento caminhamos dessa
sensação de Onipotência/Impotência para a
percepção clara de nossos limites e
potencialidades que poderíamos chamar de poder
pessoal, ou simplesmente de maturidade emocional.
Na vida adulta nos descobrimos interdependentes
com o meio, precisamos nos relacionar para
sobreviver, precisamos do outro e o outro de nós.
A maturidade emocional se faz quando percebemos
esta difícil e delicada inter-relação, pois para
nos relacionarmos precisamos conhecer nossos
limites e os limites do outro. A sociedade impõe
regras inerentes à sua cultura e o ser humano
impõe regras inerentes à sua saúde emocional.
Estamos todo o tempo nos relacionando em
diferentes papéis sociais, quanto maior nossa
clareza sobre nossos potenciais, limites e
responsabilidades, maior nossa capacidade para
perceber o outro como ele é, pois nos tornamos
capazes de trocar de papel, nos colocarmos no
lugar do outro, entendendo melhor suas motivações
e atitudes. Ganhamos a possibilidade de tornar a
vida mais “ensolarada”, e menos “nublada” por
nossas desconfianças , medos e conclusões
equivocadas. Vamos dar um exemplo: se estamos nos
sentindo carentes afetivamente teremos a tendência
a olhar o mundo como povoado por seres egoístas e
pouco afetivos. Não conseguimos ver aquilo em que
não acreditamos, se acreditamos que não poderemos
receber afeto, realmente não receberemos,
simplesmente pelo fato de que não estaremos
abertos a perceber o que já temos, apenas o que
nos falta.
Existem muitas pessoas que vivem se lamentando de
suas amarguras e ressentimentos com o mundo,
cobrando algo que a muito elas não oferecem...
amor, atenção, carinho e respeito. O pavio curto é
na verdade alguém que tem dificuldade em aceitar
seus limites e frustrações, não consegue lidar com
eles, portanto grita primeiro numa desesperada
tentativa de evitar a frustração. A fantasia
associada é a mesma que o bebê tem, ou seja, de
que não conseguirá sobreviver à dificuldade e que
não tem recursos internos que o ampare. A nossa
capacidade de tolerar frustração é a base da
maturidade emocional principalmente porque nos dá
a habilidade necessária para distinguir fantasia
de realidade. O ser humano é falível, porém, cheio
de potenciais que precisam ser descobertos para
serem estimulados e aproveitados.
A energia de vida humana é o que nos move, o que
nos impulsiona para saborear a vida, quando
acreditamos que o mundo nos deve algo, que ele é
“mau”, uma das saídas emocionais que algumas
pessoas encontram é agredir o mundo, usando esta
energia para este fim. O mundo não é bom ou mau,
ele é as duas coisas, como o ser humano. O “pavio
curto” agride o mundo numa desesperada tentativa
de se defender, como se ele estivesse antecipando
o ataque que acredita que receberá.
Se você já está esmurrando a mesa, ao passo que
vai lendo este artigo, não se preocupe, ser “pavio
curto” é uma dificuldade emocional e não uma
doença, portanto a busca de autoconhecimento e de
superação de seus limites é possível e está a seu
alcance. Não podemos esquecer que você, que se
considera uma pessoa de temperamento explosivo,
pode aprender a utilizar essa sua energia à seu
favor. Existem outros aspectos também relacionados
a esta característica emocional, como a
dificuldade de perdoar e de ser humilde para
reconhecer seus erros e suas dificuldades.
No processo psicoterapêutico buscamos desenvolver
a autoconsciência ou seja, a capacidade de
observar a si mesmo e descobrir o que sente, o que
pensa e o que percebe aprendendo as diferenças
sobre essas coisas e descobrindo novas formas de
reagir, tornando-se mais “dono de si”.
A arte de fazer escolhas ou nossa capacidade de
tomar decisões está relacionada à noção de ter de
perder algo para ganhar algo e relaciona-se com
nossa capacidade de avaliar os reflexos de nossos
atos, assumindo a responsabilidade pela
conseqüência de nossas ações.
A maturidade emocional implica também na
compreensão de que a onipotência é apenas uma
ilusão criada por nossa mente inicialmente
primária, para nos ajudar a sobreviver à nossa
fragilidade emocional.
Precisamos desenvolver nossa capacidade de rir de
nós mesmos, num movimento de aceitação tanto de
nossas características boas como das “não tão
boas”, para que possamos ter a humildade de tentar
superá-las.
Negar nossas dificuldades é negar o humano que
existe em nós. |