|
A
sexualidade de cada um
Sirley
R.S. Bittú
E-mail:
sirley.regina@terra.com.br
Vamos fazer um rápido exercício: Pense por um
instante nas formas de expressar carinho, amor,
desejo, excitação, que você já presenciou. Deixe
as cenas brotarem de sua memória, sua família seus
pais, você mesmo, como acontecia? Seus pais se
beijavam na sua frente? Trocavam carícias, andavam
de mãos dadas, lado a lado ou um na frente outro
atrás?, conversavam sobre sexo, amor, carinho com
você? Censuravam filmes, horários de TV? Reagiam
com vergonha ou com naturalidade às suas
perguntas? Estavam presentes...
Agora lembre-se de como você lidava com tudo isso,
você era tímido, ousado, curioso? Tinha medo de
fazer perguntas ou não?...contentava-se com
qualquer resposta? Conversava com amigos(as) sobre
suas dúvidas? Por último, tente detectar a
influência de tudo isso em sua sexualidade hoje.
Entendo que trata-se de uma tarefa ampla para ser
feita num breve instante, e obviamente não
coloquei aqui todas as variáveis que deveríamos
considerar, mas é apenas o início de um exercício
que poderá ajudá-lo a compreender a influência de
nossas experiências em nosso comportamento,
principalmente na expressão de nossos sentimentos.
Hoje a expressão de sua sexualidade com alta
chance é o resultado dessa difícil e complexa
equação: tudo que recebeu de informação -
conceitos e preconceitos, mitos e verdades -
somados à sua forma particular de decodificar
aquilo que recebeu: seu ”óculos”.
A escolha sexual passa por um processo físico,
emocional e social. Como podemos perceber,
recebemos modelos de comportamento em nossa
educação e nascemos com características
particulares. Aprendemos a nos vestir, a nos
movimentar de forma “adequada”, ou esperada
socialmente, a escolher o que comer, a torcer por
um time, ou um esporte, a gostar de TV ou não.
Tudo isso de forma explícita ou nem tanto,
dependendo do grau de consciência dos educadores
que cada um de nós teve. Da mesma forma aprendemos
a “lidar” com nossa sexualidade.
Nossos envolvimentos amorosos passam por nossas
buscas, insatisfações, fantasias, crenças, medos,
certezas e entendimentos de mundo. O ser humano
naturalmente busca se envolver afetivamente e
amorosamente. A demanda do ser humano é uma
demanda de amor, o prazer, o carinho, fazem parte
desta esfera. O tipo de parceiro(a) que escolhemos
está relacionado a esses modelos que recebemos
durante nosso desenvolvimento, às pessoas que
conhecemos, e histórias que acompanhamos.
As formas que buscamos para obter prazer
relacionam-se a nossas fantasias, desejos, e às
possibilidades de realizá-los. O ser humano é um
complexo formado por razão, emoção e
espiritualidade. O desejo é livre, podemos desejar
muitas coisas, mas a execução desses desejos passa
pelo crivo da nossa razão e espiritualidade. O que
quero dizer é que desejar é expressão do humano
que existe em nós, mas executar o desejo é
expressão de nossa saúde interna, de nossa
capacidade de adequação, ou habilidade para viver
socialmente, e de nosso entendimento de mundo.
Durante o desenvolvimento pessoal temos a difícil
tarefa de aprender a respeitar nossos valores, a
sermos espontâneos em nossos desejos e criativos,
procurando o caminho para superar nossas
limitações. Difícil também é detectar nossos
desejos. Os desejos enquanto substância humana são
a expressão de nossa individualidade.
Ainda temos muitos preconceitos mesmo nos dias de
hoje. A homossexualidade por exemplo ainda é alvo
de ataques e desrespeito. A liberdade de escolher
e de ser o que se deseja ainda está longe de ser
conquistada, ainda há de se crescer muito e
amadurecer nosso modo de nos relacionar com
aqueles que pensam, sentem e percebem o mundo de
maneira particular e diferente de nós.
A virgindade hoje em dia tornou-se um tabu ao
“contrário”, entre os jovens. O “crime” agora é
ser virgem e não mais não ser como 40 ou 50 anos
atrás; apenas se inverteu a posição, portanto o
preconceito ainda impera absoluto.
A virgindade não é apenas uma questão de “transar”
ou não, mas está diretamente relacionada à noção
de respeito próprio, capacidade para cuidar de si
e responsabilidade. O jovem estará preparado
quando a relação sexual não for uma
obrigatoriedade ou apenas mais uma afronta.
É comum escutar frases do tipo ...”todas as minhas
amigas da minha idade já transaram”... ou,
“quando alguém me pergunta, eu vou logo dizendo
que é claro que já tive a minha experiência”...
ou, “sou chamada de ‘vacilona’ porque não quis
transar ainda”...
Este é um importante aprendizado emocional:
assumir nossas escolhas e “bancar” suas
conseqüências.
A noção de respeito e individualidade ainda é
muito confusa socialmente. No Brasil a sexualidade
é algo explorado e produto da mídia, somos o país
das mulatas e dos biquínis. As crianças são
estimuladas através das roupas, acessórios, TV,
músicas e até algumas danças, a voltarem sua
atenção para a sexualidade, algumas vezes perdendo
com isso seu espaço de serem crianças,
simplesmente porque a sexualidade faz parte do
mundo do jovem/adulto e não da infância.
Comerciais de TV aludem à sexualidade, mulheres
são associadas a cervejas ou ao prazer provocado
por elas. A mídia é a expressão do imaginário
humano, refletindo idéias, valores, desejos e
fantasias da atualidade. A mulher como objeto
sexual ainda vende, mas o homem também passou a
ser produto de consumo.
Estamos numa época de reformulação de valores,
idéias e crenças. O ser humano está sempre em
evolução e transformação. Nossos entendimentos de
bom e mau, certo e errado modificam-se de acordo
com o prisma que escolhemos para decodificar a
vida.
A sexualidade deve ser olhada e aceita como algo
natural que faz parte do desenvolvimento, das
descobertas, das experiências pessoais e
principalmente da expressão da vida. Para
vivenciar a própria sexualidade sem culpas ou
sofrimentos é necessário respeito próprio e
enfrentamento dos próprios medos, conseguidos
apenas através da ampla consciência de quem somos
e da noção de nossas possibilidades e
responsabilidades. |