|
Amor Virtual
Sirley
R.S. Bittú
E-mail:
sirley.regina@terra.com.br
A
cada dia a humanidade descobre uma nova forma de
se relacionar, somos sedentos de relação, nos
relacionamos para nos desenvolver emocionalmente e
para sobreviver. O ser humano só adoece.
É a busca de completude, de compartilhar, de ser
entendido, ouvir, aprender, desenvolver-se que faz
o movimento das relações. Mas para relacionar-se é
preciso vencer o medo, medo de não agradar, medo
de não ter assunto, medo de não ser atraente, medo
de não ser inteligente, medo de se envolver, medo
de amar, medo de se machucar, medo de não ser
correspondido, medo simplesmente de não ser
aceito, medo da violência, medo da humanidade...
medo.
A sociedade tem medo. Assaltos, sequestros, abusos
sexuais e assassinatos, são as manchetes de todos
os dias. A sensação de desproteção e fragilidade
invade nossas vidas e vai fechando as pessoas em
suas casas, em sua vida pessoal, em sua cada vez
mais escassa e seleta rede de relacionamentos.
Solidão se confunde com proteção e algumas vezes é
sinônimo de clausura. O solitário é aquele que
escolhe a solidão, não importa o motivo, para ele
a solidão é uma opção, é diferente daquele que se
sente só, ser só traz consigo a sensação de
abandono e de não ser importante, não fazer falta.
O solitário abandona o mundo e o só sente que
nunca foi acolhido. Na verdade são faces da mesma
moeda.
Dentro deste cenário surge nossa querida e ágil
Internet. Em instantes podemos falar, trocar
idéias e conhecer pessoas, supostamente protegidos
pela tela de nossa máquina. Resgata-se quase como
mágica a possibilidade de relacionar-se sem medo,
e aí a imaginação toma conta. Como em um conto de
fadas, no mundo virtual, tudo pode, alguns chegam
a mentir sobre quem são ou como são, mandando
fotos provavelmente de como gostariam de ser,
talvez mais altos, mais magros, mais belos, mais
ricos, mais sábios... na verdade criam suas
imagens idealizadas e perfeitas. Será que voltamos
aos namoros por cartas de décadas atrás?
Criar um mundo imaginário é muito fácil desta
forma. Pessoas se conhecem, namoram e até fazem
sexo virtualmente. O objetivo aqui não é
recriminar esta prática, acredito que como forma
de relação humana ela pode ser positiva ou
negativa, depende de como e porque é usada. A
Internet é uma excelente ferramenta de pesquisa, e
como tal pode ser útil até mesmo no campo dos
relacionamentos pessoais e afetivos, facilitando o
acesso a alguém que você dificilmente conheceria
de forma convencional, ou mesmo demoraria mais
para conhecer. O problema começa quando esta
prática substitui por completo o relacionamento
“ao vivo e a cores, com direito a percepções e
sensações”, tornando-se uma forma de se esconder,
ou de não lidar com as próprias inseguranças.
É possível Amar virtualmente?
Acredito que apaixonar-se sim, amar talvez seja
mais difícil. Amar implica em conhecer o outro, em
aceitá-lo e ser aceito, com todas as qualidade e
defeitos, o “pacote completo”.
O ser humano é mais do que suas palavras, ele é
também atitude, tom de voz, ritmo, expressão,
espontaneidade e criatividade interagindo
dinâmicamente. O que falta nas relações virtuais é
o mesmo que faltava nos relacionamento por carta e
nos “amores platônicos”, falta o “olho no olho” e
a fala articulada com a expressão de todo o corpo
que concede a credibilidade àquele que escutamos.
E falta principalmente o toque, como expressão de
carinho e fonte de prazer, isso não será jamais
substituído.
Antes a vida que o medo, não importa o meio de
comunicação, importa a relação que você faz e com
quem você se comunica.
Não importa se o outro mente ou não, importa o
quanto você deseja ouvir aquelas mentiras...
Não importa a realidade em que você vive, mas a
ilusão da qual você não quer participar...
Ensaie à vontade pela Internet, mas tente, ouse,
se proponha a vencer suas dificuldades de
relacionar-se, sua timidez e procure relações ao
alcance de suas mãos e de seus olhos. |