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A
maternidade depois dos trinta anos
Sirley
R.S. Bittú
E-mail:
sirley.regina@terra.com.br
A
maternidade é percebida por algumas mulheres como
o início de um novo ciclo, um marco diferencial
que consagra de forma concreta a abrangência do
papel feminino, e talvez seja por isso que a
maternidade pode tornar-se uma dolorosa obsessão.
Muitas mulheres desenvolvem dentro de si o desejo
de ser mãe. A maternidade após os trinta é
raramente um erro de cálculo ou obra do acaso,
trata-se na maioria das vezes de algo planejado,
sonhado e muito desejado. Algumas vezes torna-se
um objetivo de vida. Condição para sentir-se
realizada no mundo.
A revolução do papel da mulher na sociedade, e sua
conseqüente inserção no mercado de trabalho de
forma cada vez mais competitiva, modificou
consideravelmente as características da mulher
atual. É claro que a liberdade sexual também
ajudou, pois atualmente a mulher pode escolher
a maternidade desvinculando-a da relação sexual.
Historicamente somos herdeiras de uma educação
onde o amor e o sexo formavam um dueto
inquestionável para uma mulher de “boa índole”, e
o prazer só era permitido relacionado com o
sentimento mais sublime, o amor, e desta forma
mantinha-se uma visão da mulher comparável apenas
ao aspecto divino dos anjos, e não aos seres
humanos.
A mulher, faz parte da mesma espécie tanto como o
homem, por mais incrível que isso possa parecer
para alguns, guardando obviamente diferenças entre
si, não apenas físicas, mas emocionais e
culturais, que se revelam em sua forma de se
relacionar com o mundo. Os seres humanos, - homens
e mulheres portanto - sentem, desejam e são
capazes de amar de várias formas, cada um com suas
peculiaridades.
A mulher está aprendendo a buscar seus desejos, a
ter projetos outros além de casar e ter filhos.
Com o desenvolvimento emocional e cultural tanto
da mulher como do homem e o aumento de sua
autoconsciência, a maternidade está deixando de
ser manipulada à vontade pelos controles sociais
de natalidade, ou mesmo pelos interesses políticos
de alguns. O desejo feminino passou a ser mais
aceito e reconhecido, numa sociedade
tradicionalmente patriarcal.
Muitas dessas mudanças estão acontecendo, como
resultado do questionamento de fórmulas antigas e
consagradas onde as idéias sobre sexo,
sexualidade, prazer e amor eram associadas à
sujeira, vergonha, medo, dor, repulsa e culpa. A
mulher está tentando aprender com os homens a
separar amor e sexo, enquanto o homem
reciprocamente, tenta aprender a juntar as duas
coisas.
Temos obviamente ganhos e perdas com essa
revolução social. As dificuldades em estabelecer
relações de intimidade, por exemplo, tornaram-se
“favorecidas” nesse contexto, uma vez que as
diferenças entre autonomia emocional e o medo de
relacionamentos afetivos possuem entre si uma
tênue divisão.
Um dos resultados dessa reorganização social, que
podemos considerar positivo, foi à maternidade
estar tornando-se uma escolha cada vez mais
consciente.
A maternidade após os 30 anos de idade passou a
ser algo comum dentro desse cenário, pois
freqüentemente é uma opção de mulheres que já
construíram sua vida profissional e se sentem
maduras e preparadas emocionalmente para assumir
tal responsabilidade.
Com a gravidez “tardia” (na verdade não podemos
pensar em hora certa, ou tempo certo, mas em nossa
hora ou nosso tempo...), surgem dificuldades
naturais do ponto de vista biológico. O corpo
precisa se adaptar à nova necessidade para dar
conta dessa demanda. O fantasma da infertilidade
surge para muitos nesse momento quase como o
expiador de suas culpas.
Aprendemos através do processo de autoconhecimento
que a culpa surge muitas vezes, da dificuldade em
assumirmos as escolhas e as opções que fazemos
durante nossa vida. Ela é alimentada por
inseguranças internas, dificuldades em identificar
nosso próprio
tempo/ritmo, e é “temperada” por nossos medos e
desconhecimentos de nossos potenciais, tão
necessários para lutar contra as dificuldades que
surgem em nosso caminho.
Em sua evolução o ser humano está constantemente
fazendo escolhas e com isso rescrevendo sua
história, adaptando sua espécie as suas novas
necessidades. Possuímos em nós um potencial
criativo que nos possibilita esta transformação.
Precisamos talvez focar nossa atenção aproveitando
e direcionando essas mudanças, de forma a permitir
o florescer do melhor em nós, quem sabe assim o
repensar sobre o papel de ser mãe seja o início da
revalorização da vida e traga consigo o
redimensionamento da agressividade humana e do
amor, como partes de um dueto que precisa
reencontrar seu equilíbrio. |