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Como nos relacionamos?
Sirley
R.S. Bittú
E-mail:
sirley.regina@terra.com.br
Recentemente ouvi uma metáfora sobre o
comportamento humano muito interessante, era mais
ou menos assim:
”O ser humano caminha pelo mundo sempre em fila
indiana. Carrega em sua jornada duas mochilas, uma
na frente e uma em suas costas. Na da frente leva
suas virtudes e qualidades e mantém seus olhos
atentos a elas, na das costas leva seus defeitos e
dificuldades. Carrega suas virtudes bem próximo ao
peito, enquanto observa os defeitos e dificuldades
do outro a sua frente, sem se dar conta que aquele
que vem atrás, pensa o mesmo dele”.
Este pequeno texto foi encaminhado por e-mail e o
autor eu desconheço, mas achei que poderíamos a
partir desta cena convidá-los a continuar
desenvolvendo essa metáfora, sendo que talvez ela
nos seja útil para entendermos alguns dos nossos
comportamentos.
Essas mochilas fazem parte de nós. Durante nosso
desenvolvimento emocional alimentamos nossas
mochilas com nossos conhecimentos e
desconhecimentos de nós mesmos. As confirmações e
desconfirmações às quais somos submetidos todo o
tempo, vão carregando-as, ora a da frente, ora a
de trás. Elas são responsáveis, entre outras
coisas, por nossa autopercepção, segurança interna
e auto-estima que influenciam e moldam nossas
propostas de relação.
Realmente trazemos dentro de nós esta difícil
equação.
Como nos relacionarmos de forma positiva e
saudável, sem enaltecermos demasiadamente as
nossas qualidades, negá-las ou envergonhar-se
delas? A busca pela saúde emocional, nos leva a
andar simplesmente, ora lado a lado, ora em nossa
velha fila indiana, ora alternadamente, buscando
relações simétricas e algumas vezes
complementares, mas tentando olhar e aceitar
nossas diferenças e similaridades que regem a
intensidade do ser humano.
Quanto às dificuldades e defeitos, continuaremos a
observá-los e a carrega-los, mesmo que andemos
lado a lado. Precisamos de nossas mochilas
traseiras para contrabalançar o peso que
carregamos, mantendo nossas costas eretas e retas.
Quando valorizamos demais nossas virtudes e nos
cegamos aos nossos defeitos, tornamos nossa
mochila da frente muito pesada o que obriga nosso
corpo a dobrar-se para a frente e impede que
vejamos com clareza nosso objetivo. Como
conseqüência, passamos a observar e a valorizar
atentamente cada pedra de nosso caminho, já que
estamos totalmente inclinados e com nossa atenção
voltada às pedras. Estas seriam comparadas aos
sentimentos de inveja que atraímos para nós.
Se carregarmos demais nossa mochila das costas,
exacerbando nossos defeitos e dificuldades,
forçamo-nos a olhar para o céu, buscando um ideal,
uma perfeição. Como resultado nos cegamos com o
excesso de luz, perdendo o referencial de quem
somos e do que é possível e desejado, e ficamos
apenas com a lembrança de quem gostaríamos de não
ser (nós mesmos). A insatisfação nos torna rígidos
e exigentes, donos de uma autocrítica implacável e
na maioria das vezes surge uma imensa solidão como
resultado,.
Engana-se aquele que acredita que a saída está em
negar a mochila das costas, pois não temos como
descartá-la, ela faz parte de nós. Engana-se
também quem acredita que a solução seja completar
a mochila da frente, pois ela se tornará pesada
demais e o resultado já conhecemos.
Talvez a saída esteja no entendimento que temos
sobre o conteúdo de nossas mochilas, as duas faces
de tudo, bom e mal intercalados e complementares.
Aprender com nossos defeitos e dificuldades,
conhecendo-os primeiramente, ou seja, passando-os
da mochila de trás para a da frente,
transformando-os em características e aceitando o
seu lado positivo, é o movimento essencial da
psicoterapia e do autoconhecimento. No começo pode
tratar-se de uma jornada difícil, pois alguns
passos parecem mais cansados e pesados, mas
aprimorando nosso processo descobrimos que o que
entendíamos como defeitos são velhos e conhecidos
resultados presentes em muitos de nossa fila
indiana.
E aí... como se encontram as suas mochilas? |