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A Busca do Amor
Perfeito
Sirley
R.S. Bittú
E-mail:
sirley.regina@terra.com.br
Durante a vida escolhemos nossos amantes e amores,
pautados muitas vezes em nosso desejo de resgatar
em outro alguém o tão sonhado amor incondicional
que se traduz na área da ilusão, como a mais pura
e verdadeira forma de amar, o único e verdadeiro
amor.
A primeira forma de amor que conhecemos é o amor
materno, talvez uma das mais belas formas de amar.
Trata-se da total disponibilidade, do amor
incondicional. A mãe simplesmente ama seu filho,
incluindo suas características boas e ruins;
costumo dizer que a mãe ama o “pacote completo”.
Seu amor, muitas vezes supera qualquer frustração
e alcança a maior capacidade humana de perdoar que
alguém pode sentir.
Lembremos que quando falamos da absoluta
disponibilidade materna, nos referimos
principalmente, aos primeiros meses de vida onde a
ilusão da total onipotência vivida pelo bebê, é
essencial para seu desenvolvimento emocional e tão
necessária para viver a brecha entre a fantasia e
a realidade. Neste tempo, amor é sinônimo de
mistura, complementaridade e plena satisfação
narcísea dos próprios desejos, para o bebê o outro
existe apenas para ele, está a sua disposição,
respira o ar que ele respira, ele e a mãe são um
único ser, não há diferenciação ou limites claros.
O próximo passo para o desenvolvimento emocional é
a vivência da frustração, a mãe totalmente
disponível vai gradativamente e naturalmente
“frustrando” o bebê na medida em que o bebê já tem
condições de lidar com essa frustração. Este
movimento materno (ou de quem faz esse papel), é
extremamente importante para o bebê começar a
diferenciar o que é ele e o que não faz parte dele
(mãe) iniciando assim sua “noção” primária de
existência.
Usando este momento do desenvolvimento emocional
de todos nós como referência, podemos entender
algumas formas de relação que continuam seguindo
esse padrão, onde uma das partes por exemplo
insiste em não acreditar que pode existir sem o
outro; são os amores passionais onde mistura
emocional e imaturidade afetiva ainda são
entendidos ou traduzidos como amor.
Trazemos dentro de nós uma necessidade nata de
completude que se torna preenchida num primeiro
momento de nossa existência por esse amor materno.
Muitos adultos em busca desse amor perfeito,
muitas vezes se perdem quando acreditam que amor é
sinônimo de anulação, quando confundem liberdade
com desrespeito, intimidade com invasão, quando
usam de chantagem emocional para suprir suas
carências; e ainda quando deixam de viver seus
outros papéis na vida: mulher, homem,
profissional, filho(a), por exemplo, para “ser”
exclusivamente em função do outro.
Algumas pessoas entendem o amor como algo quase
mágico que mistura uma certa “santidade /pureza”
com a total e plena devoção ao outro e eu diria
que estão presas ao mito do amor “uterino”. São
relações que muitas vezes exigem um raio-X dos
pensamentos e sentimentos, desejam, necessitam dos
detalhes sobre os pensamentos e sentimentos do
outro, um verdadeiro relatório contínuo e absoluto
sem pulos, desvios ou mesmo titubeios sobre tudo
que passa em sua mente, algo tão impossível
racionalmente que geralmente só é confessado entre
quatro paredes. Esse tipo de relação traz
sofrimento e dor para ambos, parte de um
entendimento equivocado onde amor é sinônimo de
mistura e individualidade é sinônimo de desamor e
traição.
O bebê só agüenta a frustração do afastamento
momentâneo da mãe, quando tem dentro de si a
segurança e a confiança de que ela não o
abandonará e de que ele conseguirá sobreviver sem
ela naquele momento.
Portanto, como nosso próprio desenvolvimento
emocional nos ensina, o “amor perfeito”, ou melhor
dizendo o “amor saudável”, recusa a auto-anulação,
propõe a existência, a individualidade, o respeito
ao outro, a solidariedade, o companheirismo, e a
confiança mútua. |