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Como Educar nos dias de hoje?
Sirley
R.S. Bittú
E-mail:
sirley.regina@terra.com.br
Educar é um assunto corrente em consultório de
psicologia. A necessidade de colocar limites é
sempre muito questionada, tanto pelos filhos como
entre os novos e dedicados pais. Muitas pessoas
viveram em sua própria educação a experiência de
duros limites, constituídos em regras e
proibições. Autoridade era misturada com
Autoritarismo, a sabedoria da maturidade era
confundida com verdade absoluta. Exigia-se da
criança, do adolescente e mesmo dos adultos, total
submissão e resignação; ser uma criança boazinha
era sinônimo de atender as regras, jamais ser
espontânea e nunca criar ou questionar algo; a
liberdade em expressar suas idéias e pontos de
vista confundia-se com enfrentamento e desrespeito
aos “mais velhos”.
É claro que esse modelo de educação trouxe muitos
problemas e resultou em muitos adultos inseguros e
até mesmo revoltados. Neste quadro surge uma
postura defendida pelos psicólogos e estudantes do
comportamento humano que talvez não tenha sido
suficientemente entendida. A proposta era
possibilitar a livre expressão dos potenciais e da
espontaneidade infantil, como até hoje defendemos.
Respeitar a criança em seus desejos e necessidades
esperadas para a idade, por exemplo, a curiosidade
perante o novo, a inesgotável energia de vida, sua
necessidade de brindar para entender o mundo e
etc... Mas para alguns pais essa proposta foi
confundida com a total permissividade, a educação
do “tudo pode”, perdendo o entendimento da palavra
não, do limite e do respeito.
Nascemos totalmente espontâneos e criativos e com
o decorrer do desenvolvimento através da educação
aprendemos como usar nossos potenciais
adequadamente, ou seja, respeitando as regras para
viver socialmente. É também neste processo que
aprendemos a acreditar ou não nesses potenciais.
Nossas atitudes e comportamentos são o tempo todo
avaliados e confirmados ou não, pelas pessoas com
quem nos relacionamos e principalmente pelos
nossos pais. É desta aprovação que surge a
sensação de segurança interna que todos possuímos
em maior ou menor quantidade, e também nossa
auto-estima. É claro que para os pais não é uma
tarefa fácil, pois implica em ter uma noção clara
do que é ser adequado, o que depende de sua
maturidade emocional.
Há 40 anos atrás questionar uma ordem paterna, por
mais absurda que ela fosse era praticamente um
crime, castigável sem sombra de dúvida, com
diversas formas de agressão tanto físicas como
emocionais. Hoje em dia o questionamento já começa
a ser entendido como algo positivo, pois ao trazer
questionamentos novos a questões antigas
aumentam-se as possibilidades de criar e
descobrem-se novas formas de existir. O
conhecimento deixa de ser percebido como uma
“conserva cultural” e passa a ser percebido como
algo dinâmico e em constante transformação e
renovação.
Mas como oferecer liberdade sem tornar a
sociedade um caos?
Introduzindo as noções de responsabilidade e
respeito. Quando falamos em liberdade, falamos em
respeito ao outro e em respeito a si mesmo, caso
contrário estamos falando em invasão, e em
desrespeito. Para convivermos em sociedade
precisamos de algo que nos auxilie a lidar com as
diferenças entre as pessoas, suas particularidades
na sua forma de existir e de entender o mundo,
pois apesar de sermos todos humanos, e similares
em nossas necessidades, a forma de expressar
nossos desejos difere de um para o outro, pois se
relaciona ao grau de maturidade de cada um.
É como se todos nós usássemos óculos relacionais,
onde as lentes são forjadas durante a aprendizagem
emocional, por crenças, valores e pontos de vista.
Isto se explica por termos potenciais inatos que
são influenciados pelo meio social em qual nos
desenvolvemos. Esta delicada alquimia é
responsável pelos diferentes tipos de pessoas em
que nos tornamos. Portanto para vivermos
socialmente necessitamos de alguns parâmetros, que
se traduzem nas noções de ética, cidadania,
gratidão e senso moral. Desta forma, quando
pensamos em educar, precisamos checar dentro de
nós como nos posicionamos em relação a isto e como
esses parâmetros estão sendo exercitados nas
relações que desenvolvemos.
A educação se constitui basicamente em aquilo que
dizemos, confrontados pelo que fazemos. Ou seja,
se pregamos o respeito mútuo e a honestidade, mas
no dia-a-dia, valorizamos o “esperto”, aquele que
sempre se dá bem, estamos sendo incoerentes e
certamente essa incoerência fará parte de nosso
rol de ensinamentos, seja de forma consciente ou
inconsciente.
O catalisador necessário ao processo de educação é
o amor. Este gera a segurança interna, a confiança
e a respeitabilidade, ingredientes indispensáveis
para que a relação de intimidade necessária num
processo de educação possa se estabelecer. Educar
implica em intimidade, e você só ensina algo se é
autorizado pelo outro, com esta autorização que se
dá pela confiança que nasce nas relações onde o
amor e a amizade são as palavras de ordem.
Muitos pais se referem frequentemente às
dificuldades em colocar limites, confusos entre
cercear demais ou de menos. Esta dificuldade nasce
de uma forma de entender o amor muitas vezes
equivocada, onde se confunde limite com abandono e
desamor, e consequentemente amar torna-se sinônimo
de total permissividade, com a antítese do “nada
pode” passando a ser o “pode-se tudo”.
Colocar limites é ensinar que existe a frustração,
que apesar de desagradável, faz parte do mudo
real, ao vivo e a cores. O limite nos ajuda a
perceber quem somos, o respeito nos ensina que
temos limites e aumenta nossa consciência pessoal,
e a responsabilidade nos ensina que tudo tem seu
preço, pois estamos sempre em relações de troca,
colhendo aquilo que semeamos. Oferecendo amor
certamente colheremos alegria e felicidade. Para
exercer o papel de educador, precisamos reavaliar
o entendimento do "não", para esta importante
palavra não se transformar numa forma de tirania e
sim uma forma de proteção, exercício do amor e
respeito a quem amamos. |