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Variações sobre o tema da traição: Casamento, o
que é?
Silvia Malamud
Ao
longo dos meus atendimentos, neste mundo
pós-moderno que habitamos, não poucas são as vezes
em que pacientes chegam meio confusas quanto aos
significados do trair. Obviamente aqui estamos
abordando seja ações efetivas, seja desejos não
satisfeitos, porém cogitados. Estamos também
falando de crenças pessoais e vigentes nesta época
e das mudanças que aparentemente estariam
ocorrendo em nossa atualidade.
Não trarei respostas prontas, porém convido o
leitor para que mantenha sua mente aberta e que se
aventure dentro do tema proposto fazendo suas
próprias conjecturas.
Recentemente estava realizando um programam numa
rádio, falando sobre questões que envolvem
qualidade de vida, quando um ouvinte telefonou
para a rádio perguntando sobre a questão da
traição. O interessante é que sua pergunta estava
ancorada no tema qualidade de vida, pareceu que
ele estava necessitando compartilhar em publico
sobre um assunto ocorrido com ele mesmo.
Questionava a minha opinião sobre o fato dele ser
uma pessoa que sempre achou que estivesse num
casamento perfeito, mas que repentinamente fora
surpreendido por um encontro com um outro alguém
que lhe proporcionou aspectos afetivos nunca antes
vivenciados... A sua pergunta era se aquilo que
estaria vivendo intensamente poderia ser
considerado uma traição no seu casamento, ou se
ele não estivesse vivendo aquela situação do modo
como estava, aí sim seria uma traição consigo
mesmo, com sua própria vida.
Perguntei ao jovem senhor o que ele estava
sentindo sobre a sua experiência e ele prontamente
respondeu que sentia estar sendo ético consigo
mesmo, porém não com o sistema de casamento pelo
qual ele fez um contrato de fidelidade... Mas que,
apesar de saber das regras de moral impostas de
fora, sabia que não conseguiria ser infiel a si
mesmo esquivando-se do que estava vivendo.
Penso que está não é uma questão fácil e nem
simples de se desenvolver, posto que existem
muitos caminhos para se abrir dentro deste
assunto.
Podemos fazer inúmeras leituras psicológicas
sabendo que cada caso é extremamente singular e
único dentro deste delicado tema. De acordo com a
psicologia, poderemos enveredar tanto por caminhos
patológicos, como por caminhos extremamente
saudáveis dependendo de cada situação.
O fator da traição propriamente dita poderia ser
considerado como tal, quando uma pessoa
afetivamente comprometida com a outra sai com
alguém outro “de fora” da situação e tem uma
relação afetiva e/ou sexual.
Muitos - hoje em dia - consideram a instituição
casamento falida, mas parece que não há um modelo
exemplar de substituição até o momento. Percebo
porém, que o importante é estar se sentindo bem
seja onde e como for.
Hoje em dia vemos muitas pessoas que se separam,
mas pouco se fala das pessoas que não estão nada
felizes em seu casamento e que mesmo assim não
abrem mão dele por saberem que tem uma identidade
construída em seu meio social através desta
situação. São pessoas que sairiam de um casamento
se realmente valesse a pena, se algo maior se
impusesse a elas (como estarem literalmente
apaixonados) e se a pessoa encontrada tivesse o
mesmo nível que o seu. Percebo que são pessoas que
reconhecem o seu estilo de ser, entenderam o
estilo de ser dos seus parceiros, tiveram a
oportunidade de se modificar de modo importante
durante as suas vidas e agora passam pelo impasse
do questionamento sobre o trair, do romper e da
possibilidade de mudar efetivamente a qualidade de
suas vidas.
Existe um conflito sobre adequar-se de modo mais
consciente com o que existe na relação ou efetuar
uma mudança significativa em suas vidas.
A opção, seja ela qual for, nunca será tão simples
e sem tantas implicações como acontecia na
adolescência e, embora este movimento lembre
aquela idade, está bem distante disso... Aqui
estamos falando na ordem da maturidade
consciencial.
Falo de pessoas que não querem abandonar o que
gostam de fazer, os ambientes em que circulam, mas
que desejam mudanças no seu status afetivo. Um
tipo de definição e busca que pelo que tenho
observado em meus pacientes, vem junto com a
idade.
São pessoas que buscam outro tipo de cumplicidade
em suas parcerias e que na certa não estão
encontrando isso nos seus casamentos.
Recentemente recebi em meu consultório uma jovem
senhora trazendo o seguinte relato:
“Meu marido não é e nunca foi ligado em sexo e
eu gosto de estar junto, de toque, de
cumplicidade... Ele, porém não funciona assim,
hoje sei que este é o estilo dele, não é contra
mim e sei que ele não vai mudar, desisti depois de
tentar demais por todos os meios. Ele quer que eu
me submeta ao modo distante dele... Mas eu me
sinto só, muito só”. Tive uma crise quando me dei
conta disso, entendi que a vida um dia se acaba
mesmo e decidi que quero fazer valer a pena a
minha existência em todos os sentidos e isto na
certa envolve o aspecto afetivo.
Detesto a situação de vida dupla, mas hoje me
encontro numa situação em que estou aventando essa
possibilidade”.
Este breve relato só vem reforçar as situações
acima abordadas no que se refere às questões sobre
o trair, aos sistemas de crença e à busca de novas
possibilidades de existir com mais qualidade de
vida.
O que está sendo ventilado aqui é sobre o que
fazer quando as regras e leis impostas pelo meio
em que se vive, não estão sendo suficientes para
se ser feliz. Parece que a cabeça dos mais jovens
encaminha-se para estar mais preparada neste
sentido, mas ainda não há certeza sobre isso.
O que sabemos é que os jovens estão transitando
com maior facilidade entre as possibilidades que
envolvem o querer. Resta saber se realmente sabem
o que querem e se existe um tempo para que se
instale a maturação de um querer, que vem junto
com a experiência de vida de cada um.
Resta saber enfim, se este movimento questionador
sobre traição, no sentido que estamos abordando,
vem com a maturidade ou se é fruto de uma mudança
de pensamento ocasionada pelas demandas de nossa
atualidade.
Volto a dizer que cada caso é um caso e que num
processo terapêutico todas essas questões devem
ser profundamente pesquisadas; mas que jamais
deveríamos nos esquecer de que sempre somos nós os
responsáveis pelo sistema de construção de
realidade em que estamos inseridos.
Somos simultaneamente vitimas e criadores; resta
agora exercitar lucidez e autonomia em nossas
criações.
Como sempre, convido a todos que se autopesquisem
e que não se privem de buscar auxílio terapêutico
quando necessário. Não estamos sós e nem
precisamos estar quando percebemos as nossas
dificuldades se tornando insolúveis ou sofridas
demais...
Fonte: Somos todos um
Silvia Malamud:
Psicóloga, bioenergopata,
bioenergóloga e atua em seu consultório em São
Paulo.
Email:
silviavidanova@terra.com.br |