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Não sabemos lidar com Divergências
Flávio Gikovate
Uma
das contradições mais graves que carregamos é
esta: gostamos de ser únicos e originais, mas
esperamos que todos pensem como nós e até que
sintam o que sentimos. Nossa imagem de liberais e
democratas vai por água abaixo assim que
enfrentamos uma opinião divergente sobre os temas
mais banais – um filme que amamos ou uma música
que detestamos. De futebol à religião, expressamos
essa intolerância: queremos que as pessoas não só
creiam no mesmo deus, mas que o concebam da mesma
forma. Do ângulo da razão, desconfiamos dos que se
mostram diferentes, de todos aqueles com quem não
nos identificamos e das coisas que não
compreendemos. Do ponto de vista emocional, não
toleramos as diferenças porque nos fazem sentir
sozinhos, desamparados.
Uma simples divergência sobre um assunto
irrelevante pode causar a separação de duas
pessoas, especialmente se elas acreditam
sinceramente nos seus pontos de vista e têm a
convicção de que estão certas. As relações só
sobrevivem quando percebemos o lado rico dessa
convivência com pensamentos diversificados. Todo
mundo se diz tolerante e compreensivo em relação a
posições divergentes, mas na verdade são poucos os
que não se sentem de alguma forma ofendidos pelas
diferenças. E elas são a raiz dos preconceitos,
que não passam de generalizações precipitadas e
negativas que brotam com facilidade em nossa alma.
Talvez nenhum de nós esteja livre – e consciente –
da condição de preconceituoso.
Quando nos referimos de maneira irônica ou
humilhante àquela pessoa cuja diferença nos
incomoda, revelamos nosso preconceito – seja
racial, religioso, social, político ou
intelectual. Esta reação de aparente desprezo, na
verdade, encobre o que realmente o alimenta: a
inveja. Usamos esse disfarce sempre que nos
julgamos inferiores. Nossa tendência arraigada de
atribuir valor às pessoas e de compará-las nos
leva inevitavelmente a julgar umas melhores do que
as outras. Nem sequer cogitamos a hipótese de que
sejam apenas diferentes. Como consideramos nossa
própria escala de valores, tampouco estamos
dispostos a entender o outro ou os critérios dele
– o que implicaria em reavaliar os nossos.
Enquanto insistirmos em pensar desse modo
equivocado, continuaremos a cometer os erros de
sempre: orgulho, quando julgamos nosso modo de ser
invejável; inveja, quando ocorre o inverso.
Esse eterno círculo vicioso provoca desdobramentos
gravíssimos. O maior exemplo é o da guerra entre
os sexos. Homens e mulheres têm diferenças
marcantes – da anatomia à maneira de pensar. Desde
que os homens se declararam superiores às mulheres
a partir da sua escala de valores, eles gastam uma
enorme energia tentando provar a inferioridade
delas – o que não seria necessário caso
estivessem, mesmo, convictos de sua supremacia. As
lutas femininas em defesa da tese igualitária não
diminuíram nossa dificuldade de pensar com
liberdade, sem a urgência de avaliar quem é maior
ou melhor. As mulheres não são inferiores nem
iguais aos homens. São diferentes. E, como já
vimos, diferenças não precisam gerar reflexões
amarradas a juízos de valor, que rendem veredictos
hierárquicos. Precisam apenas ser respeitadas.
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