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Nossas Qualidades Atraem Hostilidade
Flávio Gikovate
Crescemos e nos formamos levando em consideração,
basicamente, aquilo que ouvimos dos nossos pais e
professores. Por influência deles, somos levados a
concluir que é conveniente sermos pessoas boas,
esforçadas, trabalhadoras e gentis com os nossos
colegas, uma vez que este é o caminho para sermos
aceitos e queridos por eles. Uma das mais
desagradáveis surpresas que muitos de nós tiveram
ao longo da adolescência reside no fato de que,
exatamente por sermos portadores de tais
qualidades, somos muito mais hostilizados que
amados.
A idéia de que o acúmulo de virtudes despertará o
amor das pessoas parece lógica, de modo que quase
todos se esforçam nesta direção. Só não agem de
modo legal aqueles que não conseguiram o
desenvolvimento interior necessário para, por
exemplo, controlar seus impulsos agressivos ou
renunciar a determinados prazeres imediatos em
favor de outros, maiores, colocados no futuro.
Assim, ao longo da vida adulta convivem dois tipos
de pessoas: aqueles que conseguiram vencer estes
obstáculos interiores e se tornaram criaturas
melhores, e outros que não foram capazes de
ultrapassar estas primeiras e fundamentais
dificuldades - e que se esforçam ao máximo para
disfarçar suas fraquezas. Os primeiros são os que
saíram vencedores no primeiro combate importante
da vida, o de “domesticar” seus próprios impulsos
destrutivos, e se transformaram em criaturas
portadoras das propriedades humanas que somos
unânimes em catalogar como virtudes.
O que acontece? Os perdedores se sentem
incomodados e humilhados pelo fato de não
possuírem igual capacidade de controle interior.
Este dado é muito importante, pois indica que,
independentemente do que digam, os perdedores
sabem perfeitamente quais são as virtudes e as
apreciam; não aderem a elas porque isto implica em
um esforço que não são capazes de fazer. De todo
modo, os perdedores - que adoram desfilar como
“superiores” e indiferentes às questões de moral
-, por se sentirem humilhados, também se sentem
agredidos pela presença daquelas virtudes em uma
outra pessoa que não neles próprios. Comparam-se
com o virtuoso, consideram-se inferiores a eles,
sentem-se por baixo, irritados com a presença
daquelas virtudes que adorariam possuir. A vaidade
dos perdedores fica ferida e eles, como têm pouca
competência para controlar a agressividade, saem
atirando pedras.
É claro que tais pedradas têm de ser sutis para
que não denunciem todos os passos do mecanismo da
inveja: reação agressiva derivada de suposta
ofensa na vaidade daquele que se sentiu
inferiorizado por não ter as virtudes que lhes
provocaram a admiração. Sim, porque o invejoso
admira muito o invejado; senão seria tudo
totalmente sem sentido. Saber que o bandido inveja
o mocinho é uma das razões da esperança que sempre
tive no futuro da nossa espécie.
A agressividade sutil derivada da inveja nos
derruba, entre outras razões, porque ela vem de
pessoas que gostaríamos que nos amassem. Afinal de
contas, nos esforçamos tanto para conseguir os
bons resultados justamente para ter essa
recompensa. É difícil para um filho perceber que
suas qualidades despertam em seu pai emoções
contraditórias: por um lado, a admiração se
transforma em inveja, de modo que o pai se
ressente da boa evolução do filho. O mesmo
acontece entre mães e filhas, sendo inúmeras as
exceções onde a admiração não dá origem à vertente
invejosa.
As “agulhadas”, as indiretas e as observações
depreciativas e inoportunas próprias da inveja
existem de modo muito intenso entre irmãos
(eternos rivais), entre marido e mulher, assim
como em todas as outras relações sociais e
profissionais. É praticamente impossível uma
pessoa se destacar por virtudes ou competências
especiais sem ser objeto da enorme carga negativa
derivada da hostilidade invejosa. O mais grave é
que não fomos educados para isso, de modo que nos
surpreendemos e ficamos chocados ao observarmos
esse resultado. A decepção é tal que muitos se
desequilibram quando atingem algum tipo de
destaque, condição na qual são levados a um estado
de solidão - o oposto do que pretendiam. Uns se
drogam e outros tratam de destruir rapidamente o
que construíram, de modo a deixarem de ser objeto
de inveja.
Tudo isso é, além de triste, inevitável, ao menos
no estágio atual do nosso desenvolvimento
emocional. Poderíamos ser ao menos alertados por
uma educação mais sincera e sem ilusões. Toda
ilusão trará uma desilusão! A maior parte das
pessoas jamais imaginou, por exemplo, o volume de
problemas e de decepções por que passam as moças
mais belas, especialmente quando isso se associa a
uma inteligência sofisticada e a uma formação
moral requintada. São portadoras daquelas virtudes
que mais aparecem e encantam a todos. São, por
isso mesmo, objeto de uma hostilidade inesperada e
enorme. Ficam totalmente encurraladas e quase
nunca sabem como sair da situação a não ser
destruindo algumas de suas propriedades. |