|
O lado obscuro da palavra
Flávio Gikovate
Uma
das mais fascinantes aquisições da nossa
espécie foi a linguagem. Mesmo dispondo de um
cérebro competente e da laringe, foram necessários
vários milênios para que pudéssemos construir um
conjunto de sons correspondentes a objetos, seus
atributos e ações. Depois, os sons tiveram de ser
transformados em algum tipo de sinal, de
desempenho - precursor das palavras e, finalmente,
das letras que as compõem. O que cada criança
demora poucos anos para aprender nos custou muito
tempo e suor para construir.
Estabelecida a linguagem, passamos a experimentar
um período de grande e rápida evolução, que
correspondeu aos últimos 5 mil anos de nossa
história. A transferência de informações de uma
geração para outra ficou muito mais fácil devido à
existência da palavra, de modo que temos
acumulado conhecimento a uma velocidade cada
vez maior. Como conseqüência, surgiram novos
conceitos e idéias, e tudo isso acabou promovendo
o progresso tecnológico de que tanto nos
orgulhamos. Nossa memória foi suficiente para
armazenar todo o conjunto de dados necessários
para a evolução em cada setor das atividades
humanas. Essa característica de nosso cérebro pode
ser estimulada graças ao desenvolvimento da
linguagem, pois é por meio das palavras que os
fatos e os conceitos se fixam no sistema nervoso.
A comunicação entre as pessoas também experimentou
grande avanço. A narrativa literária ficou cada
vez mais sofisticada. Usando a linguagem, sabemos
expressar os mais diversos estados da alma.
Podemos fazer perguntas sobre as sensações do
outro. Podemos conhecer suas alegrias e a razão de
suas amarguras, de forma fácil e direta.
Infelizmente, parece que tudo é uma faca de
dois gumes. Até agora, falamos das
impressionantes vantagens que obtivemos com a
aquisição da linguagem. Mas existe também o lado
negativo desse processo que nos permitiu um uso
mais adequado da inteligência. Por exemplo, uma
pessoa, ao perceber que será punida se outras
descobrirem determinado comportamento seu, poderá
tentar esconder o fato por meio das palavras. A
mentira não deixa de ser uma utilização
sofisticada da inteligência, mas também é um
subproduto dela por seu caráter imediatista. Pode
ajudar momentaneamente. A médio e a longo prazo,
leva o mentiroso a se perder, afastando-o da
realidade. Sim, porque ele passa a utilizar a
razão de forma menos rigorosa e precisa. A mentira
é “coisa dos espertos”, dos que querem tirar
vantagem sempre. Nunca aproximará alguém da
verdadeira sabedoria e serenidade. A longo prazo,
não há trambique no jogo da vida.
A linguagem se estabeleceu e com ela achamos os
meios para uma comunicação interpessoal
extraordinariamente fácil e direta. Por
outro lado, os seres humanos aprenderam a usar a
linguagem para afastar o interlocutor da verdade.
Por meio da mentira, as palavras ganharam
peculiaridades muito negativas. Passaram a ser
utilizadas para que uma pessoa consiga se impor
indevidamente sobre outra. A comunicação foi dando
lugar ao jogo de poder, à denominação, ao
desejo de enganar com o intuito de obter
vantagens. Em vez de perseguir a verdade, a
maioria costuma perseguir a vitória.
Como distinguir a verdade da mentira? Nem
sempre é simples. Nem sempre é possível fazer essa
separação. Muitas vezes, teremos de lançar mão da
nossa sensibilidade para captar, nos gestos e nas
atitudes do outro, suas intenções. Mesmo assim,
vale a seguinte regra geral: sempre que as
palavras não estiverem de acordo com os fatos,
prevalecem os fatos. Se um homem diz a uma
mulher que a ama muito e a maltrata o tempo todo,
consideramos o tratamento e não a palavra. Falar é
fácil e, depois da invenção da mentira, só tem
valor quando a palavra vem acompanhada de
atitudes que confirmem o que está sendo dito. |