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O que é ser livre...
Flávio Gikovate
Falar sobre a liberdade é uma das questões mais
fascinantes da psicologia. Usamos muito essa
palavra, mas temos dificuldade em conceituá-la.
Todo o mundo afirma que quer ser livre, mas pouca
gente sabe dizer o que quer fazer com a liberdade.
É comum pensar que se pode agir sem impor limites
à nossa vontade. Não é meu ponto de vista. Aliás,
não tenho muita simpatia pela idéia de que viver
bem é não abrir mão de nenhum tipo de desejo. Essa
abordagem me parece ingênua e não leva em conta o
fato de que, em nossa vida interior, há outras
peças tão importantes quanto as do desejo.
Por exemplo: uma pessoa me agride e eu tenho
vontade de revidar com toda a força e posso até
desejar matá-la. Mas tenho dentro de mim um
conjunto de valores morais. Se eu transgredi-los,
experimentarei uma dor íntima muito desagradável,
que é a culpa. Os animais em geral não sentem
outra coisa senão o desejo e o medo. O homem não:
tem um cérebro sofisticado que "fabrica" conceitos
e padrões de comportamento que as pessoas acham
muito importante respeitar. Em muitos casos, as
normas estão em oposição às nossas vontades. No
exemplo citado, isso fica evidente. Pelos nossos
valores éticos, não temos o direito de matar outro
ser humano.
Como agir? Respeitamos a vontade ou os padrões?
Acredito firmemente que devemos nos ater aos
padrões. Devemos seguir nossos pontos de vista e
nossas convicções. Agir sempre em concordância com
a vontade é franca imaturidade, é não saber
suportar frustrações e contrariedades.
Evidentemente que estou me referindo às situações
em que a razão está em oposição à vontade. No caso
de ela não provocar nenhuma reação negativa, é
lógico que devemos tentar realizá-la.
Não se trata, portanto, de desprezar nossos
desejos. Se estou com boa saúde, posso comer
doces. Se for diabético, tenho de ter a capacidade
de abrir mão deles. Se quero namorar uma
determinada moça, nada me impede de fazê-lo, desde
que eu me preocupe em não magoá-la à toa. Não acho
acertado considerar mais livres as pessoas que não
ligam para si mesmas e para os outros. Elas são
mais irresponsáveis e até autodestrutivas. Se um
homem sabe que o álcool lhe faz mal e continua
bebendo, ele não é mais livre. É mais fraco.
Nos séculos passados, o ser humano vivia por
normas exageradamente rígidas e alguns psicólogos
acabaram concluindo que a verdadeira liberdade
consistia em jogar fora essa camisa-de-força,
guiando-nos a partir de nossos desejos. A idéia é
boa, mas – na prática – é inviável. A vida em
grupo exige que se preste atenção também aos
outros. O amor e a solidariedade que sentimos
naturalmente dentro de nós pedem isso. Não posso
magoar as pessoas que amo sem sofrer. Nesse caso,
antes de satisfazer a vontade, tenho de refletir
muito, avaliando e pensando nas conseqüências.
Acredito que ainda seja adequada a definição que
expressei há cerca de dez anos. Liberdade não é
realizar todas as vontades. Não é ser desta ou
daquela maneira. Liberdade é a sensação íntima de
prazer que deriva da coerência entre o que
pensamos e forma como atuamos. Sou livre se sou
capaz de agir de modo coerente com o que penso.
Algumas vezes respeito a vontade; outras, as
normas morais. Em cada situação eu tomo decisões,
válidas apenas para aquele momento. Sei dizer
"sim", sei dizer "não". Tudo depende da
importância do desejo e da permanente preocupação
de equilibrar os meus direitos e os direitos das
demais pessoas. Aceitar certos limites para as
nossas vontades é sinal de maturidade, não de
resignação e conformismo. É sinal de força, não de
fraqueza. |