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o que é se colocar no
lugar do outro?
Flávio Gikovate
Uma
das operações psíquicas mais sofisticadas que
aprendemos, lá pelos 7 anos, é esta, de tentarmos
sair de nós mesmos para imaginar
como se sentem as outras pessoas. De repente
podemos olhar para a rua num dia de chuva e
imaginar – o que, de certa forma, significa
sentir – o frio que um outro
menino pode passar por estar mal agasalhado.
Nossa capacidade de imaginar o que se passa é como
uma faca de dois gumes. O engano
mais comum – e de graves conseqüências para as
relações interpessoais – não é imaginarmos as
sensações de uma outra pessoa, e sim tentarmos
prever que tipo de reação ela
terá diante de uma certa situação. Costumamos
pensar assim: "Eu, no lugar dela, faria desta
maneira." Julgamos correta a atitude da pessoa
quando ela age da forma que agiríamos. Achamos
inadequada sua conduta sempre que ela for
diversa daquela que teríamos. Ou melhor,
daquela que pensamos que teríamos, uma vez que
muitas vezes fazemos juízos a respeito de
situações que jamais vivemos. Quando nos colocamos
no lugar de alguém, levamos conosco nosso
código de valores. Entramos no corpo do
outro com nossa alma. Partimos do princípio de que
essa operação é possível, uma vez que acreditamos
piamente que as almas são idênticas; ou, pelo
menos, bastante parecidas.
Cada vez que o outro não age de acordo com aquilo
que pensávamos fazer no lugar dele, experimentamos
uma enorme decepção.
Entristecemo-nos mesmo quando tal atitude não tem
nada a ver conosco. Vivenciamos exatamente a dor
que tentamos a todo o custo evitar, que é a de nos
sentirmos solitários neste mundo.
Sem nos darmos conta, tendemos a nos tornar
autoritários, desejando sempre que o outro se
comporte de acordo com nossas convicções. E assim
procedemos sempre com o mesmo argumento:
"Eu no lugar dele agiria assim."
A decepção será maior ainda se o outro agiu de
modo inesperado em relação à
nossa pessoa. Se nos tratou de uma forma rude, que
não seria a nossa reação diante daquela situação,
nos sentimos duplamente traídos:
pela agressão recebida e pela reação diferente
daquela que esperávamos. É sempre o eterno
problema de não sabermos conviver com a verdade de
que somos diferentes uns dos
outros; e, por isso mesmo, solitários.
Aqueles que entendem que as diferenças entre as
pessoas são maiores do que as que nos ensinaram a
ver desenvolvem uma atitude de real
tolerância diante de pontos de vista
variados a respeito de quase tudo. Deixam de se
sentir pessoalmente ofendidos pelas diferenças de
opinião. Podem, finalmente, enxergar o outro com
objetividade, como um ser à parte, independente de
nós. Ao se colocar no lugar do outro, tentarão
penetrar na alma do outro, e não apenas transferir
sua alma para o corpo do outro. É o início da
verdadeira comunicação entre as
pessoas. |