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O medo de perder
status...
Flávio Gikovate
Conheço pessoas que vivem sob um verdadeiro
pânico:
não conseguem imaginar a hipótese de se conformar
com uma posição social abaixo da que têm. Para
elas, a idéia de conviver com um
carro inferior
ao que possuem é extremamente dolorosa, e seria
preferível a morte a mudar para uma casa pior ou
um bairro de menor status. Não querem nem pensar
em usar roupas
sem grife, deixar de sair de férias ou de
freqüentar seus restaurantes favoritos, onde são
conhecidas e tratadas com deferência.
Não é difícil entender que nossa relação com o
dinheiro
é muito mais complicada do que seria se o víssemos
apenas como um meio para sobreviver. A
vaidade,
que em tudo se intromete, participa ativamente do
processo. Ter acesso a determinadas coisas ou
situações passa a ser mais importante pela nossa
"posição" do que pela coisa em si. Por
exemplo: pessoas que não têm paladar para apreciar
um bom vinho tenderão a pedi-lo quando estiverem
num ambiente mais requintado. Não querem ser
chamadas de
vulgares por preferir cerveja ou
caipirinha. Muitas das coisas que fazem visam mais
à imagem
que querem transmitir do que a seus gostos
pessoais.
Com a vaidade entrando no jogo, nossa tendência de
fazer comparações
aumenta. Passamos a nos sentir humilhados –
agredidos, inferiorizados – quando nos vemos
abaixo de alguém. Obviamente, isso desemboca na
inveja:
desejo de nos vingarmos daquele que nos agrediu
com a sua superioridade! A humilhação é, junto com
a sensação de abandono, uma das grandes dores a
que estamos sujeitos. A
rejeição,
que é talvez nossa dor maior, é a associação de
ambas: fomos abandonados porque a pessoa perdeu o
interesse por nós, já que deixou de nos valorizar.
A idéia de perder
nossa condição econômica produz, então, a
humilhação e a rejeição. Temos medo (e com razão)
de que muitas pessoas nos abandonem caso baixemos
de posição social. A dor é percebida como brutal e
a sensação é a de que viveremos
humilhados e
deprimidos pelo resto de nossos dias.
Ainda bem que essa impressão não é verdadeira.
Nossa capacidade de
adaptação
é muito maior do que podemos imaginar. Na prática,
a dor é forte, mas de duração limitada. Só existe
durante o processo de
transição. Depois de um curto período,
adaptamo-nos à nova posição e a dor vai embora.
Isso porque passamos a nos identificar com as
pessoas de condição idêntica. Só sofreríamos se,
inábeis, insistíssemos em freqüentar os antigos
ambientes.
Um exemplo esclarecedor: ao observar alguém numa
cadeira de rodas,
experimentamos em nós a dor que imaginamos que a
pessoa sinta. Se ela, porém, for deficiente física
desde o nascimento, ou há vários anos, sofrerá
bem menos do que supomos. Só terá passado
por grandes frustrações nas primeiras semanas, ou
meses, após o fato que a deixou paralítica. Ora,
se o ser humano é capaz de se adaptar a uma
limitação tão dramática, porque não o
faria com a perda de status, que afeta mais a
vaidade que as
necessidades básicas da vida?
Nesse aspecto, como em vários outros, somos
traídos por nossa capacidade de
imaginar. Inventamos dores maiores que as
que sofreremos, da mesma forma que imaginamos
prazeres maiores que os que teremos quando
antevemos uma viagem, um novo relacionamento
afetivo ou uma casa nova, por exemplo.
Assim como a dor
está presente só na transição, o prazer também só
existe, por tempo limitado, quando saímos de uma
situação pior para outra melhor. Pouco tempo após
estrearmos nosso relógio novo, ele
perderá a
capacidade de nos dar prazer,
deixando-nos tão indiferentes quanto o velho –
que, por isso mesmo, quisemos trocar. Como diz o
ditado popular, não há mal que sempre dure e nem
bem que nunca se acabe! |