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O romantismo deixa
saudades?
Flávio Gikovate
No
fim de uma palestra a respeito da nova visão que
tenho do amor e das relações conjugais previstas
para o século XXI, afirmaram que minha visão sobre
o amor seria muito racional e "fria": os
relacionamentos serão muito práticos e
convenientes e o romantismo, o sentimentalismo e
tantas coisas boas estarão ausentes. E a pessoa
perguntava se era isso mesmo o que eu pensava.
Gostaria de iniciar minha resposta dizendo que sou
acusado de subtrair o encantamento do amor desde
minhas primeiras publicações sobre o assunto em
1976, época em que defendia com ardor o amor
romântico, aquele que se baseia na fusão de "duas
metades" semelhantes às de uma laranja. Achava,
como todo mundo, que era impossível ao homem ser
feliz sozinho e que tudo se relacionava a uma boa
escolha da parceria. Como essa escolha passa pela
razão, eu era acusado de tentar dar lógica e rigor
científico a algo que deveria acontecer por meios
mágicos, pelas flechadas estabanadas do Cupido.
Sou médico e não poeta; assim, é meu dever tentar
dissecar os temas que estudo. Isso não significa,
a meu ver, que os sentimentos desapareçam ou que
estejam sendo menosprezados.
É sempre importante ressaltar também que a grande
maioria das pessoas costuma se ressentir do fim de
um sentimento e de um estado de alma que viveu
apenas em fantasia. Sim, porque poucos foram os
que viveram o amor romântico, entendido como
aquele que deriva da idéia de que somos uma fração
que só se completa pelo encontro de outra fração,
constituindo a unidade em sua vida quotidiana, mas
poucos foram os que viveram sob o mesmo teto com
aqueles a quem amaram loucamente.
Dá a impressão de que as pessoas que temem o fim
do romantismo lamentam mesmo é o tipo de
sofrimento que a ele esteve associado. Lamentam o
fim das dores de estômago, da sensação de vazio,
dos sentimentos que a música relativa aos
desencontros amorosos nos evocava. Choram o fim de
algo que significou muito mais sofrimento que
prazeres e alegrias. Quantos foram os que viveram
em concórdia com suas "metades", que com eles
construíram uma família sadia, que foram
cúmplices, amigos, amantes, tudo ao mesmo tempo? E
quantos sonharam com isso - desfrutando destes
prazeres apenas em pensamento - enquanto viviam os
dissabores derivados do convívio com alguém que
não lhes completava?
É fato que o avanço tecnológico cria novas
condições ao nosso redor e que somos forçados a
nos adaptar à nova realidade externa. É fato
também que nem todos os desdobramentos do avanço
tecnológico são, por princípio, geradores de
melhoria na nossa qualidade de vida. No caso do
amor, porém, tudo a que tenho assistido ao longo
desses vinte e tantos anos em que venho estudando
o assunto, me dá a impressão de que estamos nos
encaminhando para uma época de ouro. O fim da
noção de que somos metades que se completam pela
fusão e o surgimento da concepção de que somos
unidades deve ser visto com alegria, pois estamos
mais perto da verdade. Não creio que possamos ser
efetivamente felizes quando nos afastamos da
realidade dos fatos. Sentimo-nos como uma fração,
mas a verdade é que, independentemente de nossas
sensações, somos uma unidade.
Graças ao que vivemos em decorrência do avanço
tecnológico, que nos fez mais independentes por
termos de ficar sozinhos por períodos de tempo
maiores, aprendemos a compreender melhor nossa
individualidade e isso nos fez aceitar melhor
nossa condição de unidades. Isso é ótimo, pois
permite que os encontros amorosos passem a se dar
forma sob outro paradigma: em vez de metades que
se fundem, unidades que se aproximam. Os novos
relacionamentos serão baseados no respeito, na
recíproca admiração, na confiança mútua, no
encantamento sexual e fascínio pelo jeito de ser
um do outro. Muitos serão os elementos racionais
envolvidos - será que, de forma camuflada, não foi
sempre assim? Porém, nem por um minuto imagino que
tais relacionamentos serão carentes da ternura,
dos momentos mágicos de completude e de plena
harmonia que sempre caracterizaram os sonhos
românticos. Ao contrário, acredito que seremos
finalmente capazes de viver aquilo com o que, até
hoje, só fomos capazes de sonhar.
Não acredito mesmo que a introdução explícita da
razão nos processos amorosos, especialmente no que
diz respeito à escolha da parceria, seja um fator
negativo e diminua as chances de que o casal viva
todas as emoções relacionadas ao amor. Aliás, não
creio que exista um antagonismo entre emoções e
razão. Não sei mesmo porque as pessoas insistem em
pensar dessa forma. Talvez seja parte de um
esforço para dar dignidade aos seus erros: se me
encanto por alguém com quem não tenho afinidades e
com quem só vivo às turras, deve ser porque o amor
não tem mesmo racionalidade. Ou será que sou capaz
mesmo é de sonhar com perfeição e viver o
sofrimento e as brigas? |