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Poder ficar sozinho
aumenta a liberdade
Flávio Gikovate
A
liberdade de cada um de nós pode ser pensada em
termos amplos, relacionados à coragem para
abandonar uma vida convencional de trabalho -
renunciando a uma boa situação financeira, abrindo
mão da posição social e, por vezes, da família -
com o objetivo de fazer uma outra vida em outro
local, longe de todas as pessoas que até então nos
cercaram. Num caso assim radical, é claro que,
apesar do fascínio que tal proposta possa nos
provocar, muitos medos e freios íntimos nos
impedirão de agir.
Quero tratar agora de algo muito mais simples:
estou pensando nas pequenas restrições que a maior
parte das pessoas aceita, de forma passiva, como
se elas fossem inerentes a qualquer forma de vida
em comum. O que leva um marido honesto a aceitar
como natural a “bronca” que ele leva sempre que
chega em casa mais tarde porque teve de ficar mais
tempo trabalhando? Não seria razoável imaginar que
é justamente numa condição como esta que a
criatura deveria ser recebida com um zelo ainda
maior, uma vez que provavelmente estará mais
cansado - quando não contrariado?
O que leva uma mulher honesta a aceitar como prova
de amor a “bronca” que ela leva sempre que o
marido chega em casa antes dela, ainda que isto se
deva ao fato de ela estar cuidando da sogra
inválida? Qual a razão para que um filho adulto e
responsável seja forçado a se submeter a regras
que envolvam, por exemplo, horário para chegar à
noite em véspera de feriado? Por que é tão
ofensivo que este mesmo filho prefira ficar
dormindo durante o horário do almoço dominical em
vez de participar do mesmo? Qual o problema se ele
for dormir muito tarde, se é capaz de acordar cedo
no dia seguinte e dar conta de todas suas
obrigações? Por que o marido pode decidir que a
mulher não deve sair com uma determinada roupa,
tida por ele como imprópria? Por que as mães sabem
melhor se seus filhos irão passar frio sem o
agasalho que elas insistem em fazê-lo usar? Por
que o marido tem de “pedir licença” à sua mulher
para ir, com os amigos, ao futebol no domingo?
Tantas perguntas de igual conteúdo poderiam ser
feitas ainda, todas elas relacionadas às pequenas
concessões que fazemos sempre com o intuito de
evitar atritos com aqueles com quem convivemos.
Temos a impressão de que não se trata de grave
perda, uma vez que cada uma dessas renúncias
envolve desejos menores. Porém, o que acaba
pesando é o conjunto, a soma de pequenas
concessões indevidas e desnecessárias.
Apercebemo-nos de que estamos acumulando certa
mágoa e frustração por tais limitações à nossa
liberdade quotidiana, justamente quando temos a
oportunidade de ficar sozinhos por alguns dias.
É cada vez maior o número de pessoas que têm a
oportunidade de viver tal experiência, antes
pressentida como assustadora e provocadora de
grande pânico - sim, porque crescemos com a idéia
de que ficar só envolve graves dores e forte
humilhação social: quem se sente com coragem para
ir a um restaurante sozinho? A vivência é muito
interessante, uma vez que, superados os primeiros
momentos de medo, as pessoas passam a achar “o
máximo” ficar com a televisão ligada pelo tempo
que desejarem, dormir com a quantidade de
cobertores que sua temperatura corpórea pede,
comer (ou não) na hora que bem lhe aprouver e
assim por diante.
Muitas são as pessoas que, depois de um período de
vida livre de tais obrigações grupais que impõem
duras restrições à nossa modesta liberdade
quotidiana, não se sentem mais em condições de
aceitar tais regras. É mais ou menos assim: quando
uma pessoa descobre que pode viver relativamente
bem sozinha, que é capaz de superar o vazio e o
pânico que podem surgir neste contexto, torna-se
menos tolerante às exigências possessivas,
ciumentas e, por vezes, invejosas impostas pelos
elos afetivos usuais. Não é raro que tal mudança
lhe chegue carregada de dúvidas de caráter moral:
“será que estou me tornando uma pessoa egoísta”? É
sempre bom lembrar que o egoísta não é o que cuida
bem dos seus direitos e sim o que quer se
apropriar do que não lhe pertence. Logo, é mais
que legítimo o direito de uma pessoa não querer
mais fazer as pequenas concessões próprias da
rotina da maior parte dos grupos familiares e
sociais.
A verdade é que fazemos muitas coisas contra nossa
vontade apenas porque não nos sentimos com coragem
para arcar com as conseqüências da nossa rebelião.
Tememos a rejeição, as críticas diretas, o
julgamento moral. Tememos o abandono e a
condenação à solidão. Quando percebemos que existe
um lado muito interessante no estar só, quando
perdemos o medo de nos defrontarmos com nossa
subjetividade e somos capazes de imaginar uma vida
rica mesmo longe daquelas relações sociais que nos
impõem limites indesejáveis, rebelamo-nos contra
estas pequenas e múltiplas regras restritivas à
nossa liberdade individual. Tornamo-nos mais
livres de todo o modo, mesmo quando não rompemos
nossos elos. O que acontecerá é a gradual mudança
nas regras de convívio, que terão de se adequar
aos novos tempos, tornando-se mais respeitadoras
da individualidade e da liberdade que dela deriva.
Impossível abrir mão de uma conquista tão
prazerosa. |