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Estresse e Modernidade
Flávio Gikovate
Nossa mente tende, de modo espontâneo, a
considerar tudo o que vem depois como uma evolução
em relação ao que era antes. Temos a convicção de
que estamos em uma caminhada em direção ao melhor
dos mundos, como se estivéssemos retornando ao
paraíso. Sequer consideramos a possibilidade de
estarmos em uma rota equivocada, de que estejamos
nos dirigindo para o precipício - apesar do alerta
dos ecologistas e dos sinais de desequilíbrio,
cujos efeitos já podemos sentir. Fazemos chacota
daqueles que levam a sério as hipóteses de
destruição do planeta. Consideramos isso tão
improvável quanto nossa própria morte.
Assim, evolução é um termo que, para nós,
significa coisa boa. Não pensamos na hipótese de
haver “evolução demais”, assim como existe água
quente demais para nosso banho. Ouvimos pessoas
falando de estresse e relacionando a piora do
nosso estado íntimo aos conflitos que se agravaram
com a modernidade, e não sabemos exatamente o que
pensar. Vamos ter de botar em dúvida as
características da nossa evolução social? Ou vamos
atrás de remédios capazes de atenuar este
“pequeno” efeito colateral derivado do progresso e
que tem sido objeto de exageros indevidos?
Não é o caso de refletirmos profundamente a
respeito dos mecanismos que determinam as
modificações que tem acontecido no nosso ambiente.
Parece óbvio, porém, que elas têm acontecido de
uma forma casual, fruto de avanços tecnológicos e
do aproveitamento deles, feito por grandes
empresas, para fins econômicos. Assim, produtos
novos estão à nossa disposição a todo momento.
Eles são mesmo tentadores, de modo que nos
empenhamos cada vez mais em ganhar o dinheiro
necessário para sua aquisição. As regras que regem
o processo são mais as da economia do que aquelas
determinadas pela nossa razão. Somos animais que
se adaptam, de modo que temos de ir mudando à
medida que o ambiente externo também muda - e ele
tem estado em permanente e rápida alteração. O
bem-estar dos homens não costuma ser objeto de
discussão quando se reflete a respeito do
lançamento de um novo produto. O que se pensa é
como fazê-lo atraente para que se torne
irresistível.
Ao longo deste século e, em especial, nas últimas
décadas, temos vivido uma alteração rapidíssima de
nosso meio externo em virtude do surgimento de um
enorme número de novos produtos. Todos eles têm,
sem dúvida, propriedades úteis e atraentes.
Ninguém vai questionar os benefícios do
computador, do telefone celular ou da informação
mundial que nossos televisores nos proporcionam.
Mas, além de estarmos sob pressão para ganharmos o
dinheiro suficiente para termos acesso aos novos
bens de consumo, temos de considerar alguns outros
elementos. Tenho observado, por exemplo, que a
memória das pessoas tem falhado mais do que há
algumas décadas. Penso que estamos todos expostos
a um volume de informações tão grande que não
conseguimos mais guardar tudo o que ouvimos e
lemos; isso nos provoca uma certa dispersão e nos
torna desatentos, além de gerar uma tensão nova
derivada da descoberta de que nosso psiquismo está
no limite de sua competência e falhando.
Tenho percebido que nossos jovens falam de uma
forma cada vez mais rápida, o que provavelmente
significa que pensam mais depressa que os demais -
talvez em virtude do uso dos jogos eletrônicos que
substituíram os lentos brinquedos de nossa
infância. Estamos cada vez mais apressados e mais
impacientes por razões internas, além de mais
tensos em decorrência do aumento do número de
pessoas, carros e ruídos em geral. Estamos
obrigados, cada vez mais, a fazer mais de uma
coisa por vez: falamos ao telefone enquanto lemos,
assistimos à televisão enquanto cozinhamos,
ouvimos música enquanto conversamos. Estamos mais
deprimidos do que nunca, como se estivéssemos nos
sentindo alienígenas em nosso próprio planeta.
O que nos ocorre? Pensar que é hora de parar, que
é preciso estancar o avanço tecnológico e seu
aproveitamento econômico para o bem do ser humano
e da natureza, ambos cansados e claramente
ameaçados? Não! Pensamos em técnicas de
relaxamento, em meditação, ioga e em tantas outras
formas de diminuir o ritmo do nosso mundo interior
e contrapor alguma paz de espírito a essa
inquietação contínua a que estamos submetidos pelo
lado de fora.
É curioso observar como nossa imaginação é
precária quando se trata de criar novas formas de
relaxamento. Parece que só sabemos achar novas
tensões, coisas cada vez mais rápidas e que depois
irão nos deixar mal. Temos de recorrer a práticas
antigas, até mesmo milenares, quando queremos
algum tipo de paz de espírito e de serenidade.
Temos de olhar para trás e buscar os campos e as
praias que ainda estão como Deus criou quando
queremos descansar um pouco das cidades, dos
carros e das obras dos homens. Será que não é
chegada a hora de refletirmos mais profundamente
sobre o que tem nos acontecido, já que somos
também os agentes e não apenas as vítimas de tudo
isso? Creio que, para nosso bem, temos de nos opor
a um processo evolutivo que está nos fazendo mal,
além de nos estar levando a pensar de uma forma
superficial e muito pouco produtiva. |