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O
que eu faço com essa minha timidez?
Sirley
R.S. Bittú
E-mail:
sirley.regina@terra.com.br
A
definição de timidez mais conhecida é a que se
refere ao tímido como aquele que tem temor,
receoso, acanhado, covarde. Pessoa que tem
vergonha, sensitiva, pessoa que com tudo se
melindra ou de grande suscetibilidade, aquele que
facilmente se ofende. A definição de temor também
é descrita em alguns dicionários como ato ou
efeito de temer – susto, sentimento de reverencia
ou respeito.
Prefiro dizer simplesmente, tímido é aquele que
tem medo. Na infância o comportamento em relação
ao medo é explicado e entendido pela capacidade da
criança em discriminar fantasia de realidade. Ao
passo que esta capacidade vai sendo aprimorada em
sua relação no mundo, o medo naturalmente vai se
adaptando ao que é esperado, ou seja, passa a ser
um parâmetro de auto proteção.
As pessoas mais tímidas tendem a supervalorizar os
possíveis riscos, assim o novo e o desconhecido
torna-se assustador. O tímido está sempre muito
preocupado em passar uma boa imagem para as
pessoas, torna-se extremamente exigente consigo
mesmo, apresentando por isso mais dificuldade de
se relacionar, paquerar, namorar, expressar o que
sente e o que pensa sobre as coisas.
A inibição geralmente é resultado do medo de
falhar e com isso se sentir ridículo e incapaz. A
timidez está diretamente relacionada ao amplo
sentimento de competência. A nossa auto imagem é a
percepção daquilo que acreditamos ser, e, quando
ela é negativa, encontramo-nos numa prisão interna
que nos leva a distorcer a realidade e por
conseqüência nos retraímos.
O ser humano tem uma demanda de amor, necessita
ser amado para se desenvolver, precisa sentir-se
visto, percebido e aceito. Existem muitos estudos
que relatam, que a falta de amor ou o desamor,
principalmente nos primeiros anos de vida,
interferem no desenvolvimento e na maturidade
emocional do ser humano. O nosso sentimento de
segurança e de auto confiança se configura ainda
nesta fase, através das vivências de afeto e de
confirmação pelas quais passamos.
Costumo dizer que nós passamos por dois úteros, um
físico e um psicológico. Ambos nos geram para o
mundo. O psicológico é formado por nossa matriz
social, ou seja por nossa família, pelas pessoas
com quem nos relacionamos e com as quais
aprendemos e entendemos como devemos nos
comportar. A educação é a via desse processo. E
através dela aprendemos quem somos, o que somos e
como somos. Nossa individualidade vai sendo
lapidada pela visão de mundo de nossos pais, suas
crenças, seus mitos e suas verdades.
São desses entendimentos que se desenvolve nossa
AUTO-ESTIMA. A auto-estima é o resultado do afeto
que aprendemos a dar a nós mesmos através do
respeito e da aceitação daquilo que pensamos,
sentimos e somos. Através dela conquistamos nossos
espaços e percebemo-nos merecedores de felicidade.
É o resultado do amor que recebemos, não o amor
gratuito mas aquele que ensina a retribuir, que
ensina a noção de respeito ao outro e a si mesmo.
Na primeira infância necessitamos da aprovação
externa, e a reação das pessoas aos nossos atos
também constitui fonte formadora da nossa
auto-imagem e pode modificar ou influenciar nosso
autoconceito que carregaremos durante a vida.
Este autoconceito, esta percepção de si, dos
próprios potenciais, de limites, e principalmente
de seus desejos, estará sendo estimulado durante
toda a nossa vida, através das diversas relações
que estabelecemos. Isto significa que a nossa
família influencia a forma de nos percebermos, mas
não a determina. A maturidade psicológica pode ser
medida também pela nossa capacidade de nos
auto-alimentarmos emocionalmente, passando então
da necessidade de confirmação para apenas o desejo
de sermos aceitos.
Isto não significa que somos como argila, moldados
apenas pelas experiências externas. Nascemos com
características físicas e com algumas
psicológicas, herdadas. Trazemos conosco em nosso
nascimento um potencial de saúde mas que precisa
dessas provisões externas para se desenvolver.
Resumindo, a auto-estima é a capacidade do ser
humano de sentir-se bem em relação a si próprio, o
bastante para aceitar a rejeição não como uma
afronta pessoal, mas como parte inevitável da
vida. O indivíduo com auto-estima tem a capacidade
de deixar a rejeição para trás e prosseguir.
Aqueles que se aceitam agem livremente, permitindo
a si mesmos atuar próximo ou no máximo de seu
potencial. Expressar-se é contar sobre si,
relacionar-se, assumir que se faz parte do mundo.
O TÍMIDO tem sua AUTO-ESTIMA baixa, frágil, ele
sempre acha que todos estão olhando para ele, que
o mundo roda em torno de sua atuação. Está
preocupado em como os outros vão avaliar suas
atitudes e comportamentos e com isso não tem
coragem de assumir seus próprios desejos.
A timidez torna as pessoas propensas a
interpretarem os acontecimentos de uma maneira
ameaçadora, com isso sua autonomia torna-se
prejudicada, precisando de algo ou alguém para
sentir-se seguro e tranqüilo.
Em nossa atuação no mundo trabalhamos sempre em
duas áreas a da ilusão (fantasia, crenças) e a da
realidade (mundo objetivo). Nossas escolhas e
formas de entender e de sermos no mundo nascem
destes focos de atenção. Se temos uma boa noção
sobre quem somos e do que somos capazes, ou seja,
de nossos potenciais e de nossas possibilidades,
atuamos no mundo de forma mais autônoma e segura.
O conhecimento de si mesmo, aliado à auto-estima
são os fatores determinantes para mudar sua forma
de se relacionar com o mundo.
A timidez incomoda cada vez mais. Em nossa
sociedade competitiva aquele que não ousa, aquele
que teme ser visto, ser percebido ou questionado
em suas opiniões, tem mais dificuldade em se
relacionar, conquistar seu espaço profissional e
com isso alcançar o sucesso esperado pela
sociedade e muitas vezes por si próprio. Torna-se
invariavelmente comum, receber em meu consultório
pessoas que buscam se livrar desse sofrimento.
Desde jovens que não conseguem se expor em sala de
aula, apesar de saberem a matéria, ou mesmo não
conseguem fazer amizade ou pertencer a um grupo,
ou arriscar uma paquera, sentindo-se excluídos e
rejeitados.
Ou quando adultos, muitas vezes já profissionais,
que sentem dificuldade de expressar seus
conhecimentos, liderar grupos, agir com
autoridade, estabelecer limites. Os tímidos sofrem
e perdem oportunidades profissionais,
relacionamentos pessoais, vivências, experiências,
porque não se lançam no mundo. A sociedade prefere
aquele que saiba defender suas idéias e seus
pontos de vista.
...Então O QUE EU FAÇO COM ESSA MINHA TIMIDEZ?
Certa vez recebi em meu consultório uma jovem de
20 anos na época, trazida pela mãe. A jovem que
vou chamar aqui de Ana, era muito retraída, não
tinha amigos, nunca havia namorado, e tinha pavor
em falar em público. Vejam que, o que ela chamava
de público, eram no máximo 2 ou 3 pessoas
mediamente conhecidas. Se ela encontrava um
vizinho na rua, por exemplo, rapidamente mudava de
calcada, para não ter que cumprimentar. Ficava tão
tensa que seu coração disparava e chegava a suar
frio. Evitava cada vez mais o contato com outras
pessoas.
Com o tempo, eu e Ana descobrimos que a
dificuldade dela não nascia simplesmente no
momento de se expressar, não era uma questão de
escolher as palavras, mas, na maioria das vezes,
Ana não conseguia perceber o que realmente sentia
ou pensava em diferentes situações. Ficava tão
preocupada com a avaliação, que imaginava que
fariam a seu respeito que esquecia de si mesma.
Com o desenvolvimento da psicoterapia Ana foi
sendo estimulada a se ‘re-conhecer’, descobrindo
do que gostava, o que pensava sobre as coisas e
aprendendo a se aceitar com todas as suas
qualidades e com todas as suas dificuldades.
Descobriu que é natural nos afeiçoarmos mais a
algumas pessoas que a outras e que não há nenhum
problema nisso. Da mesma forma teria pessoas que
se afeiçoariam mais a ela e outras não, e que isso
faz parte do nosso humano. Depois de alguns meses
Ana contou-me que estava mais feliz, ainda não
tinha coragem de paquerar - até porque estava
destreinada - como dizia, mas já arriscava algumas
trocas de olhares e quando encontrava alguém
conhecido arriscava um discreto OI!
O que podemos aprender com esse pequeno flash da
vida da Ana é que o primeiro e mais importante
passo é a busca de auto-conhecimento,
pois quanto mais descobrimos nossos potenciais e
nossos limites, mais nos fortalecemos para aceitar
críticas e aprender com elas.
A possibilidade de ousar é resultado desse
conhecimento, podemos aprender a pular uma
distancia maior quando sabemos de nosso potencial
e agimos para utilizá-lo.
Aprender a tolerar as frustrações também faz parte
desse desenvolvimento emocional, sendo que quanto
maior nosso limiar de tolerância, maior será nossa
maturidade. Nunca agradaremos a todos!
Simplesmente porque somos maravilhosamente
diferentes. |