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A moral vista como controle
Flávio Gikovate
As
normas que constituem o código moral de uma dada
sociedade são geradas pelas necessidades do
estabelecimento de limites à conduta individual. O
objetivo é de evitar grandes tensões internas no
grupo, a partir do anseio de certas pessoas de se
sentirem elevadas por um comportamento de acordo
com as expectativas das divindades.
Nunca é demais registrar que muitas das regras
sociais se constroem com a finalidade de preservar
privilégios para um pequeno grupo que detém o
poder. Ou seja, nem sempre as regras chamadas de
“código moral” são efetivamente justas - de fato,
são quase sempre injustas. E não é raro que estas
minorias inteligentes e oportunistas usem todo o
tipo de argumentação falsa - mas de aparência
lógica - para justificar as arbitrariedades
cometidas sobre grandes massas. Assim, um sistema
monarquista pode se atribuir dignidade e
respeitabilidade se conseguir provar que é esta a
vontade divina; padres inquisidores podem matar em
nome de afirmar a fé cristã sobre a terra, sendo
que processos similares podem ser usados séculos
depois para a “implantação” do socialismo, e assim
por diante. Pais de família podem exigir recato
máximo e “pureza sexual” de suas filhas e ter como
amante sua secretária, da mesma idade que elas,
para se dar um exemplo ligado à questão sexual,
que é a razão principal destas observações.
Também é importante ressaltar que todas as regras
limitadoras da conduta humana existem em função do
fato delas serem possíveis - e até fáceis - de
existir. Em outras palavras, se não existissem
tendências homicidas no ser humano, não haveria a
necessidade de serem proibidas - e punidas
severamente nos casos de transgressão da norma. Se
o homem não cobiçasse a mulher do próximo, não
haveria o mandamento que restringe. Aliás, na
grande maioria das vezes as regras podem ser
eficazes no sentido de impedir a ação, mas não no
sentido de fazer desaparecer o desejo; os homens
cobiçam e sempre cobiçarão a mulher do próximo,
sendo que muitos não tentarão abordá-la, de modo
que ficam com o desejo e experimentam a frustração
de não poder realizá-lo. Os homens podem não
roubar, mas tal desejo existe dentro das fantasias
de muitos, especialmente dos mais necessitados.
As normas são construídas por criaturas mais
sofisticadas, em função de suas convicções
religiosas, e de suas sensações psíquicas ligadas
aos sentimentos de culpa. São modificadas e
deturpadas por pequenos grupos que se encarregam
de fazer a maioria se comportar segundo elas e
eles próprios não as seguem. Assim, a obra inicial
dos humanistas é devidamente transformada em
instrumento de dominação de minorias inteligentes
e pouco escrupulosas. E tudo fica tão confuso, tão
misturado com verdades capazes de sensibilizar os
bons espíritos, que é fácil iludir a população em
geral, em benefício próprio.
No final, parece mais ou menos claro que a “moral”
se transforma num conjunto de regras que tem por
finalidade garantir o privilégio de um pequeno
grupo em prejuízo da maioria. E isto se faz a
pretexto de garantir a estabilidade grupal e
também em nome dos melhores princípios nascidos do
pensamento religioso. Por caminhos tortuosos e
lamentáveis, os ricos podem tratar de demonstrar
que a virtude está na pobreza e que Deus é muito
mais simpático aos miseráveis, sem que isto
signifique que estejam dispostos a abrir mão de
nada do que possuem. Ou então que as desigualdades
sociais correspondem à “vontade divina”, que
determinou um destino diferente para cada
criatura; e assim por diante. |