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O respeito para com o outro
Flávio Gikovate
A
maioria das pessoas se diz respeitosa e não o é na
prática mais elementar da vida cotidiana, quando o
seu próprio linguajar é permanentemente
autoritário. Algumas outras criaturas aprenderam a
se comportar de modo mais respeitoso; estas
parecem que conseguem dialogar com pessoas que
pensam de modo diferente, colocar ponderadamente
seus argumentos e ouvir os do seu interlocutor.
Mas no íntimo se tornam irritadiços (e isto às
vezes transparece) e seus diálogos interiores são
sempre de desprezo pelo modo de pensar do outro,
visto como burro ou desonesto. Não é nada fácil
admitir que alguém pense diferente de nós sem isto
nos irritar profundamente e todos nós sabemos que
isto funciona assim; podemos deixar vazar nossa
prepotência ou agirmos de modo educado e político;
mas é extremamente difícil ser verdadeiramente
respeitoso.
E não deixa de ser surpreendente que uma coisa
assim simples seja tão difícil de ser conseguida
como uma vivência interior sincera e consistente;
é por isso que não acredito nas fórmulas fáceis e
rápidas para quem pretende ser livre.
É natural que a questão do respeito seja
comprometida com profundos processos emocionais —
processos de grande importância para o equilíbrio
da pessoa — pois senão seria mais fácil de se
superar este obstáculo.
Uma das situações onde estes aspectos podem muito
bem ser observados é no seio da vida familiar e
principalmente na relação amorosa homem-mulher.
Quando o marido se apercebe de que a mulher não
está de acordo com algum ponto de vista seu (sim,
porque muitas vezes ele nem dá chance dela se
manifestar) isto provoca nele uma irritação
descomunal. Na maioria das vezes, absolutamente
desproporcional à magnitude dos fatos em questão.
Ele grita, envolve outros dados da vida íntima na
briga, faz discursos de persuasão, diz mesmo que a
mulher é burra e não entende nada (e como os
homens dizem isto com facilidade!); sente-se
profundamente ofendido e pode ficar vários dias de
“mal”.
A mulher o acusa de machista, de prepotente e
desrespeitoso - o que é verdade; não diz que ele é
burro — porque senão apanha — mas pensa; sente-se
igualmente ofendida e irritada não apenas pelo
comportamento do marido — apesar de que ele muitas
vezes pensa que é só por causa disto — mas porque
a divergência provoca nela a mesma sensação
desagradável.
A dolorosa sensação que deriva da falta de
coincidência de pontos de vista é a de abandono,
de desamparo, de se sentir só. E isto fica mais
evidente nas ligações amorosas justamente porque
elas existem como um importante atenuador desta
que é uma das peculiaridades da condição humana.
Afinal, as pessoas têm ligações sentimentais
justamente para não viverem o estado que se chama
de solidão.
Quando uma opinião diverge, volta a dolorosa
consciência de que se é só, e isto é vivido como
uma espécie de traição do outro, um abandono, uma
deslealdade; da acusação ao outro, deriva a raiva
e a irritação em sua direção; coisa mais fácil de
ser vivenciada do que o desamparo, o ser só.
Todos nós temos como primeira tendência o colocar
o dedo para fora, acusando o outro de nossos
infortúnios. Acho sempre muito importante
conseguirmos virar o dedo para dentro e tratarmos
de nos perguntar porque é que tal atitude de outro
repercutiu tanto sobre nós. Em que ponto fraco
nosso, nós nos sentimos tocados e como fazermos
para nos aprimorar ao invés de tentarmos modificar
o outro (o que, além de desrespeitoso, é sempre
ineficaz).
A irritação é menor em relacionamentos menos
importantes do ponto de vista afetivo, mas existe
do mesmo modo. E se dá sempre da mesma forma; isto
é, quando existem diferenças de opinião.
Até mesmo quando estamos lendo um artigo de jornal
ou um livro o processo é similar: gostamos dos
autores que pensam de modo parecido com o nosso e
achamos meio idiota o texto — e seu autor — que
contém opiniões divergentes.
Assim, nunca aprendemos nada de novo, pois só
lemos os livros com os quais concordamos e cujo
conteúdo de certa forma já conhecemos; ou seja, só
lemos os livros que não precisamos ler. Os outros
nós largamos no meio, porque são “chatos” ou
idiotas... |