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O covarde é sempre um fraco?
Flávio Gikovate
Um
dos nossos hábitos: usar palavras sem conhecermos
com precisão seus significados, ou pelo menos sem
nunca termos nos detido em reflexões sobre toda a
extensão dos fenômenos que elas representam.
Vejamos, por exemplo, o que é covardia.
A fraqueza é o oposto da coragem, que é uma
virtude. Sobre a coragem falaremos em outra
oportunidade. Do senso comum tiramos a idéia que o
covarde é uma pessoa que evita situações de
violência, especialmente de violência física, por
ter muito medo; medo de levar a pior, de apanhar.
Em geral, são homens que tiveram uma infância
bastante atribulada. Eram crianças mais fracas.
Choravam com mais facilidade do que o habitual dos
meninos. Nas brigas, apanhavam sempre. Eram, o
tempo todo, objeto de chacotas e ridicularizações
infundadas; o bode expiatório e o ponto de
descarga de qualquer irritação ou agressividade do
grupo. Envergonhavam-se muito por não terem
condições de revide.
A observação mais acurada mostra que muitos destes
indivíduos são criaturas extremamente sensíveis,
muito emotivas, e que, apesar de terem passado por
tudo o que mencionamos no período da infância, são
incrivelmente preocupadas com o bem estar dos
outros. São pessoas que têm uma dificuldade enorme
de magoar os outros, especialmente aquelas em
situação de inferioridade. Em virtude desta
dificuldade, preferem muitas vezes arcar com
prejuízos para si em vez de tomarem atitudes
agressivas, ainda que em defesa justa dos seus
direitos. Preferem se magoar a magoar outras
pessoas. Quando, involuntariamente, magoam a
alguém, sentem-se muito mal.
Daí, uma outra definição: o covarde é o
indivíduo que tem medo de bater, e não de apanhar!
Com efeito, seria difícil entender a covardia como
sendo medo de apanhar, pois o que mais acontece na
vida de um covarde é exatamente isso, por força de
sua falta de capacidade de revide, os que o cercam
se aproveitam disso para agressões contínuas e
desnecessárias. E, portanto, o covarde é o que
sempre apanha.
Será, então, a covardia um defeito de caráter?
Será mesmo o oposto da coragem?
São múltiplas as hipóteses que poderíamos aventar
para esta dificuldade de agir agressivamente, como
em condições socialmente não só aceitáveis, mas
exigidas: excessiva sensibilidade e preocupação em
nunca magoar terceiros porque isto desperta
incríveis sentimentos de culpa; medo da própria
agressividade, no fundo sentida como muito
intensa; educação altamente repressiva do impulso
agressivo, de modo a não conseguir exercê-lo nem
mesmo quando desejado, etc.
Esta última hipótese certamente é a que encontrará
maior número de adeptos, pois nossa cultura
definitivamente entende o homem como um animal
malvado, agressivo. Todos aqueles que não
preencherem este padrão estão de certo modo
doentes. Os próprios indivíduos covardes se
entendem assim, ou seja, se colocam como doentes.
Reclamam de sua condição e muitas vezes procuram
ajuda para ver se conseguem se modificar. Na
grande maioria das vezes se percebe que não só se
modificam, como, na realidade, não queriam
absolutamente se modificar.
Eu prefiro entender a baixa capacidade de reagir
agressivamente mesmo quando provocado como o
resultado de agudas e intensas sensibilidades e
preocupação para com os semelhantes. São, muitas
vezes, pessoas energéticas, ativas e que, quando
movidas por idéias humanistas verdadeiramente
convincentes para elas, adquirem enorme capacidade
de ação em defesa destes ideais. |