|
Medo, Vergonha e Culpa...
Flávio Gikovate
Uso
sempre uma comparação polêmica para tentar definir
a condição humana: somos um mamífero parecido com
o macaco, mas possuímos um computador sofisticado
instalado no cérebro. Não sabemos muito bem como
utilizar o computador, como ele funciona. Fizemos
progressos, mas ainda temos um longo caminho a
percorrer.
O mamífero homem tem múltiplos desejos. O
principal freio à realização de alguns deles é o
medo, exatamente como ocorre nas outras espécies.
Trata-se de uma defesa que faz parte do "instinto"
de autoconservação, processo inato cuja finalidade
é afastar o animal dos perigos reais. Assim,
quando um cachorro está com fome, o desejo o
impulsionará na direção de algum alimento. Se, no
entanto, uma onça estiver por perto, ele fugirá,
pois o medo é maior do que o desejo de comer,
maior do que a fome. Um homem sem recursos
pretende assaltar um transeunte. Nota, porém, que
um carro da polícia se aproxima. Tenderá, então, a
desistir do roubo para evitar ser preso. Nos seres
humanos, o receio da represália (ou da punição
divina) às vezes constitui a única barreira entre
fazer e deixar de fazer.
A razão - é assim que chamamos nosso computador -
poderá introduzir freios mais elaborados,
modificando o jeito de ser e de agir. Esses freios
não existem em todas as pessoas. Em minha opinião,
pensar o contrário foi um dos grandes erros da
psicanálise. Acredito que Freud generalizou e
concluiu a partir de suas vivências individuais. O
método não se revelou adequado, pois há diferenças
consideráveis entre indivíduos da mesma espécie.
Feita a ressalva, vamos ao primeiro degrau desse
processo mais sofisticado de limitação da conduta.
Ele não se alicerça no medo. Relaciona-se à
vergonha. Ao agir de forma censurável (por
exemplo, ao roubar, chantagear, desejar uma
relação sexual proibida), a pessoa teme que alguém
a surpreenda. Tal sentimento não está só ligado ao
receio de represálias, mas também à possibilidade
de ser desprezada ou ridicularizada pelos demais.
Nesse caso, a punição não é a prisão ou a
violência; é a humilhação.
Quando nos sentimos envergonhados, reagimos a um
acontecimento externo que irá nos prejudicar. A
represália não é física e, sim, moral. A gente não
apanha; enfrenta um sorriso de desprezo, capaz de
gerar um sofrimento maior do que uma surra.
Evidentemente é necessária a intermediação da
razão para que esse processo, ligado à vaidade e à
preocupação com a nossa imagem, possa se
transformar em um poderoso freio. Nada semelhante
ocorre com outros animais. O cachorro não sente
vergonha se for pego fazendo xixi no tapete da
sala. Apenas tem medo de ser castigado.
A reação psíquica mais sofisticada não é a
vergonha; é a culpa. Muitas pessoas usam essa
palavra, mas desconhecem seu verdadeiro
significado. Acredito que a maioria dos seres
humanos nunca experimente tal sentimento. Trata-se
de uma operação elaborada que pressupõe a
capacidade de se colocar no lugar do "outro". Os
egoístas, por exemplo, não pensam nessa
possibilidade e, conseqüentemente, não sentem
culpa. Nada impede, porém, que usem a expressão:
"Estou arrependido pelo que aconteceu". Não basta
dizer. É preciso agir de acordo. Devemos nos guiar
mais pelas ações do que pelas palavras das
pessoas.
Quando me coloco no lugar do "outro" e percebo que
ele está sofrendo, sinto pena. Se concluir que foi
meu comportamento a causar uma dor indevida, a
pena se transforma numa tristeza profunda. A essa
emoção chamamos de culpa. Ela é nosso maior freio,
um freio interno poderosíssimo, que torna o errar
realmente humano. Imagine a cena. Um rapaz se
prepara para dar um soco. No momento de agir,
pensa na situação inversa: vê o golpe atingindo o
seu próprio rosto e experimenta a mesma dor que ia
provocar. Sofre e, ao sofrer, o braço se
paralisa... Vivenciar o papel da vítima freia a
ação violenta. Em vez de tristeza, o autocontrole
propicia alegria. Infelizmente, às vezes, o
bloqueio ocorre até quando temos direito à defesa
e, deixando de reagir, passamos a ser agredidos.
Aí, o freio é uma faca de dois gumes e pode
prejudicar as pessoas mais sensíveis, capazes de
experimentar a verdadeira culpa. |