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Você é um Dependente Afetivo?
Sirley
R.S. Bittú
E-mail:
sirley.regina@terra.com.br
Há pessoas que se “arrepiam” só com a
possibilidade de ficar dependente de alguém ou
alguma coisa, passam a vida lutando contra isso, e
algumas vezes tornam-se onipotentes, distantes e
sós. E há pessoas que “tremem” apenas com a idéia
de dependerem principalmente de si mesmo;
confundem individualidade com solidão, abandono e
rejeição. São as duas faces da mesma moeda, os
primeiros temem se envolver e perder a sua
individualidade e o outro extremo teme té-la. Na
verdade ambos acreditam que a autonomia e a
capacidade de cuidar de si, tomar as próprias
decisões, fazer escolhas, está fora de seu
controle, ou melhor, fora de si.
A DEPENDÊNCIA AFETIVA é um estado de
imaturidade que faz parte do processo natural de
desenvolvimento humano, ou seja, nascemos
totalmente dependentes, tanto fisicamente como
afetivamente. Com nossas vivências e experiências
vamos evoluindo de forma gradativa buscando nossa
independência emocional.
Algumas vezes temos clareza de nossas
dificuldades, então nos resta pelo menos duas
saídas: enfrentá-las e superá-las ou como costumo
dizer... “dar a volta no quarteirão”... mas, nem
sempre a dependência afetiva é consciente.
Uma pessoa é dependente afetivamente quando sua
autonomia está prejudicada, ela precisa de algo ou
alguém para sentir-se segura e tranqüila, nas mais
diferentes decisões em sua vida, desde as mais
simples como decidir que roupa vai usar por
exemplo, ou até as mais difíceis, como que
profissão escolher... se muda de emprego ou não...
se continua namorando ou não, se casa ou não...
enfim, inúmeras situações onde está implícita a
escolha.
Você que está lendo, deve estar se perguntando:
...mas, todos nós não gostamos de uma
”opniáozinha” às vezes? Sim é verdade, pedir a
opinião de alguém sobre algo não o torna
dependente afetivo. A diferença está quando você
depende realmente dessa opinião e não consegue
seguir o seu desejo se ele não for aprovado se não
houver o “aval ” de alguém.
O objeto de dependência entra na vida da pessoa
como uma muleta, ocupa um espaço vazio. A
dependência pode ser de uma pessoa específica, uma
droga, uma atitude de carinho, uma palavra amiga,
ou mesmo de alguém que lhe possa ouvir ou dizer o
que deve fazer.
Na verdade essas pessoas ou objetos tem uma única
função para o dependente afetivo, dar a sensação
de segurança que precisa para suportar problemas,
tensões e dificuldades pessoais e/ou sociais. A
questão é que a segurança não está nas relações
que fazemos, não é algo que vem de fora é algo que
existe ou não dentro de nós. Nossa segurança e
auto-estima são os reguladores de nossa maturidade
emocional.
Jacob Levy Moreno, quando criou o Psicodrama
partia do princípio que o ser humano é um ser
social, influencia e é influenciado todo o tempo.
No Psicodrama dizemos que toda a saúde e doença
emocional nasce nas relações, ou seja são
aprendidas durante o desenvolvimento através dos
modelos que recebemos primeiramente por nossa
família de origem e secundariamente através das
demais relações que vivenciamos durante a vida.
Nos primeiros anos de vida necessitamos da
confirmação de nossas atitudes, da certeza de que
nosso comportamento está sendo aceito pelas
pessoas que amamos. Com o nosso desenvolvimento
emocional, passamos a desejar e não mais
necessitar dessa aprovação. Aprendemos a nos
relacionar com o mundo pelas regras que recebemos
em nossa família. A criança é espontânea e
criativa por natureza, ninguém nasce “culpado” em
ser espontâneo. A dependência afetiva muitas vezes
nasce e é sustentada por problemas no
relacionamento familiar, pelos conflitos pessoais,
pela sensação de rejeição e de não ser aceito.
Certa vez recebi em meu consultório uma jovem de
22 anos, vou chamá-la aqui de Joana. Joana veio
para psicoterapia porque tinha muitas dificuldades
afetivas, era brilhante aluna, fazia faculdade e
tinha ótimas notas, mas tinha dificuldade de
arrumar namorado, era introvertida, sentia-se feia
e sem graça. Joana tinha uma grande amiga de quem
falava muito. Estava sempre contando como sua
amiga se saía bem com os rapazes e tinha várias
paqueras, mas em compensação tinha péssimas notas,
dependia de suas “colas” para passar de semestre.
Durante o processo terapêutico Joana percebeu que
cada uma desempenhava um papel na relação, ou
seja, uma cuidava dos estudos e a outra arrumava
amigos e namorados, funcionavam como se fossem uma
única pessoa.
Apesar de nunca ter percebido até então esse
trato, era difícil vencê-lo, mesmo porque Joana
não acreditava que pudesse ser alguém
interessante, ou mesmo algum dia se sentir bonita.
Nesse exemplo, Joana tinha dois caminhos
possíveis: o primeiro era continuar nessa relação
de dependência onde uma supostamente supria a
necessidade da outra, ou escolher o segundo
caminho, o mais trabalhoso e também o mais
saudável: perceber e enfrentar seus limites e suas
próprias dificuldades, para poder superá-los.
Na verdade ninguém é dependente sozinho,
DEPENDÊNCIA AFETIVA é uma via de mão dupla, se
uma criança é dependente afetivamente, a mãe com
certeza também o é, pois neste caso, a mãe é quem
a estimula e acredita em seu potencial ajudando-a
a ter a certeza que conseguirá superar suas
dificuldades. Dessa relação, nasce a auto-estima e
a sensação de segurança pessoal. Todo o ser humano
nasce com uma capacidade de cuidar de si, um
potencial que precisa ser estimulado e se não
recebe este estímulo torna-se dependente. Na
prática acabam por não confiarem em si mesmas e em
seu valor pessoal, deixam de oferecer o seu melhor
na vida, no trabalho e em seus relacionamentos.
Para pais e/ou educadores: exercitem o respeito às
características genuínas de cada criança,
respeitando sua natureza espontânea e sua
criatividade. É importante aprender que dar limite
é prova de amor e é diferente de reprovação. Dar
parâmetros é dar condição para a criança
desenvolver responsabilidade e aprender a superar
as frustrações.
Não podemos perder de vista o humano que existe em
nós, somos criatura e criadores capazes e
genuinamente, imperfeitos. |