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As relações afetivas e a Intimidade
Sirley
R.S. Bittú
E-mail:
sirley.regina@terra.com.br
O
que é ser íntimo de alguém? Temos pessoas com quem
convivemos todo o tempo, colegas de trabalho ou
mesmo familiares, que pouco sabem de nossas
angústias, medos, desejos e alegrias.
Intimidade é diferente de convivência, conviver
não é sinônimo de ser íntimo , apesar de muitos
acreditarem nisso. Também é diferente de mistura,
de simbiose. Não é possível ser íntimo de alguém
se não houver individualidade. Primeiro ser,
para depois compartilhar. Não se compartilha o que
não se tem.
Nascemos do aconchego do útero materno, da
sensação de segurança que ele nos proporciona.
Naturalmente desejamos nos relacionar, somos seres
sociais, nascemos carentes de afeto, atenção e
aceitação. O ser humano tem uma demanda de amor,
busca amar e ser amado todo o tempo. Nascemos e
imediatamente precisamos de afeto para nosso
processo de crescimento emocional, da mesma forma
que precisamos de cuidados para nos desenvolvermos
fisicamente. Recebemos da figura materna o amor
incondicional, aquele tão buscado em nossa vida:
ser amado pelo que somos, o pacote completo.
E o que isso significa? Significa que buscamos em
nossas relações, na maioria das vezes de forma
inconsciente, essa sensação primária de plenitude
e segurança, refletida em maior grau nas relações
de intimidade.
Intimidade é a possibilidade de relação mais
próxima que implica em confiança. Confiar
significa acreditar que seremos aceitos como
somos, mas, não apenas pelo outro; para isso é
preciso confiarmos em nós mesmos, em nossa
capacidade de sermos genuínos, percebendo o que
temos para oferecer numa relação tranqüila e
prazerosa com o mundo. Contudo, é necessário o
sentimento de esperança e fé no bom que existe no
humano. Confiança se adquire através das relações
e pela forma de relação que se estabelece, é um
sentimento delicado e dinâmico, ela é como planta:
se não regar morre.
Intimidade também implica em entrega. É uma via de
mão dupla, ser íntimo é ser cúmplice, é estar ao
lado do outro e não misturado ao outro. Trata-se
de uma proposta de relação mais profunda, que
implica em envolver-se, doar-se e saber receber o
outro, aceitar e aceitar-se, é troca plena, é
Encontro no sentido Moreniano.*
Você pode ser íntimo de um amigo com quem conversa
sobre varias coisas e não ser íntimo da pessoa com
quem você dorme. Os medos, crenças e as
inseguranças são os grandes responsáveis pelas
dificuldades de envolvimento. Algumas pessoas
confundem intimidade com submissão, alienação e
mistura, outras entendem como fraqueza, falta de
individualidade ou demonstração de carência.
Nossa sociedade competitiva, capitalista e
violenta, torna as pessoas cada vez mais acuadas e
descrentes no humano e consequentemente em si
próprias. O medo e a competição, fazem com que as
pessoas se relacionem apenas com parte do outro -
àquela que deseja superar – o que impede que a
relação seja verdadeira. Geralmente quando
pergunto: porque não assumir que é uma dificuldade
sua? ... a resposta é na maioria das vezes:
...”eu??? falar de dores, limites, angústias...
para que? Vou estar só me expondo! Ninguém vai
resolver minhas questões!”.
Em parte é verdade, nossas dificuldades, na grande
maioria das vezes só podem ser resolvidas por nós
mesmos, mas nem sempre temos os instrumentos ou
conhecemos os caminhos para resolve-las, aí que
entra o outro, com sua vivência e experiência de
vida.
V. já pensou se cada um tivesse que reinventar a
escrita e a palavra sozinho, para poder se
comunicar???... imaginem.. e se não tivesse
ninguém disposto a aprender, só a ensinar???
Quanta perda de tempo!!!
Quando nos relacionamos percebemos que não estamos
sós, não somos os únicos a ter dificuldades e
sofrimentos; temos a capacidade de aprender com
nossos erros e acertos e com os erros e acertos
dos outros. Por isso que a relação de intimidade
deve ser cultivada, escolhida a dedo. Faz parte de
nosso desenvolvimento emocional aprender a
escolher entre as pessoas de nosso convívio,
aquelas que merecem nossa confiança, ou seja
trata-se de uma questão de auto proteção, da
capacidade de aprender a cuidar de si mesmo.
Ser íntimo significa compartilhar tudo? Dizer
tudo, o que pensa e sente? até os pensamentos?
Se pensamentos fossem para ser ouvidos eles
aconteceriam em alto e bom som!
Você deve estar pensando, mas então eu não deveria
compartilhar minhas idéias, sentimentos e
pensamentos? É claro que sim!, mas escolhendo
com quem e o que compartilhar, nem sempre o
outro “agüenta” ou está preparado para o que
estamos pensando ou desejando.
Aqui retornamos na questão da individualidade.
Costumo brincar dizendo que, até dentro do útero
materno temos a proteção de ”uma bolsa”,
sabiamente colocada pela natureza. Na verdade
nascemos concretamente de dentro de outra pessoa,
mas não ficamos fisicamente em nenhum momento
misturados ao outro, apenas emocionalmente. Talvez
seja por isso que é tão comum a confusão entre
capacidade de se envolver intimamente e a mistura
relacional.
Segundo a visão de desenvolvimento humano proposto
por J.L. Moreno, criador do Psicodrama, a Matriz
de Identidade emocional normal se estabelece a
partir das relações que o indivíduo faz. Através
de nossas vivências caminhamos de um momento de
total Indiferenciação com o mundo (nascimento)
para uma relação télica e plena onde seja possível
trocar de lugar com o outro entendendo suas
motivações pelos seus olhos (maturidade
emocional), sem com isso, desrespeitar nossas
crenças, valores, e individualidade. Moreno chamou
o ápice dessa fase de Encontro, onde podemos
“novamente”- lembrando nosso nascimento - nos
misturar com o outro, sem nos perdermos – porque
agora existe um eu delimitado - e sair
revitalizados, enriquecidos. Seria o ponto máximo
de diferenciação de identidade.
Cada pessoa tem suas motivações, resultado de sua
história de vida e sua educação, somada às suas
características inatas. A saúde emocional e mental
de cada indivíduo é que determina como cada um vai
suprir essas necessidades. Esta saúde interna se
desenvolve como resultado de um processo de
maturação do indivíduo, e obedece uma seqüência de
desenvolvimento humano, segundo a teoria do
desenvolvimento Moreniana.
Para nos envolvermos em qualquer tipo de relação,
seja uma relação de amizade, profissional, amorosa
ou simplesmente social, primeiro temos que
conhecer nossa individualidade e o que significa
um mínimo de noção de nossos desejos,
características, medos, dificuldades e gostos;
enfim, um pouco de nossa singularidade. Falei em
mínimo, porque trata-se de uma busca de
AUTOCONHECIMENTO que acontece durante nossa vida.
Não acredito que alguém possa esgotar esse
processo, porque somos seres dinâmicos e estamos
aprendendo e consequentemente em transformação
todo o tempo.
A maturidade enriquece e modifica.
Portanto para que você possa construir uma relação
de intimidade com alguém deve estar atento a esse
processo de busca de si mesmo, à sua capacidade
para amar e principalmente, para
sentir-se amado. |