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Certa ocasião um paciente me
perguntou: "Eu quero entender o porquê de me dar bem
com todas as pessoas e não conseguir o mesmo com os
meus familiares".
Respondi, citando a frase de Chico Xavier a respeito
dos relacionamentos familiares: "É nas famílias onde
se reúnem os piores desafetos de vidas passadas".
Em outras palavras, os membros de um grupo familiar
se atraem na vida atual por afinidade cármica. Neste
sentido, o paciente mencionado acima tinha sérios
conflitos com a sua família e não com os outros
porque o seu compromisso cármico era com a sua
família. Ele tinha débitos cármicos (isso ficou
comprovado após passar pela regressão) de
experiências mal resolvidas de suas vidas passadas
com os membros de sua família atual.
Portanto, visto pela ótica da reencarnação, a
família não é o resultado de um encontro fortuito,
onde os espíritos se agrupam por acaso. Não entra o
fator sorte ou azar. Você não caiu de pára-quedas em
sua família. Na minha experiência em TVP (Terapia de
Vida Passada), os pacientes recordam, ou seja,
reconhecem - ainda no útero materno - seus desafetos
de vidas passadas como membros de sua nova família.
Muitos chegam a lembrar que planejaram no plano
astral (junto com o seu mentor espiritual),
reencarnarem novamente para resolverem pendências
com suas famílias ou algum membro em especial. Neste
contexto, a família atende a uma finalidade clara
que é conceder a todos na vida atual, uma
oportunidade de repararem prejuízos causados no
passado entre si, buscando a reconciliação. Desta
forma, os dramas familiares representam uma
oportunidade de aprendizagem para todos.
Em contrapartida, há que se ressaltar que podemos
nos reunir em nossa família também por simpatia.
Aqui explica o porquê de nos darmos melhor, termos
mais afinidade com um determinado parente. Muitas
mães se sentem culpadas por terem preferência ou
mais afinidade com um filho(a) em detrimento dos
outros.
Por outro lado, o inverso também é verdadeiro: É
comum ocorrerem conflitos constantes entre mãe e
filho(a) chegando a nutrir um ódio recíproco entre
os envolvidos. Sentimentos de rejeição, agressões
verbais e/ou físicas, humilhações, incompreensão,
discórdias, incompatibilidade de idéias, prevalecem
muitas vezes nesse relacionamento familiar.
Portanto, através da TVP, é grande a chance de
transformar laços de ódio em amor nos
relacionamentos familiares. É por isso que costumo
dizer aos meus pacientes que a TVP é uma terapia do
amor.
Caso Clínico: Amor e aversão pelo marido
Mulher de 45 anos, casada.
Veio me procurar por conta de sua dificuldade de se
relacionar com o marido. Tinha uma relação muito
forte com ele, mas algo nele a repelia. Quando o
marido chegava perto dela, se sentia profundamente
irritada e enojada. Embora o amasse, sentia uma
ambivalência afetiva de amor e aversão por ele. Não
conseguia entender o porquê dessa aversão e
repugnância.
Tudo a irritava nele: o jeito de sentar, andar,
falar, a voz dele. Pensava nele com carinho, mas
quando chegava em casa sentia um aborrecimento muito
forte. No início de seu relacionamento não tinha
consciência desse sentimento. Antes, a atração
sexual era maior que a aversão. Não se sentia à
vontade na presença do marido. Fazia de tudo para
não ficar próximo dele. Desta forma, queria saber a
razão desse sentimento de ambivalência que a impedia
de ser íntima do marido.
Ao regredir, me relatou:
"Algo me machuca, aperta a minha cabeça nas
laterais. Alguma coisa que espeta. Dói muito!
(começa a gemer de dor). Algo me espeta nos olhos
também e estou com dificuldade de respirar (pausa).
Estou sendo torturada. Meus braços! Não consigo
sentí-los... Estou amarrada. Não consigo me mexer,
alguém me tortura... É um homem, está atrás de mim.
Estou deitada de lado, e a minha cabeça está sendo
esmagada por um ferro. Dói muito! (geme e chora
copiosamente). Ele está amassando cada vez mais a
minha cabeça. Não consigo respirar! (respira com
dificuldade, ofegante)".
- Avance mais para frente nessa cena - peço-lhe.
"Agora não sinto nada (pausa). A dor passou. O meu
corpo não responde. Eu sinto alívio, vejo agora uma
luz branca e duas pessoas se aproximam. Eu sou
carregada, não consigo andar. Eu morri. Esse homem,
o meu agressor, estourou a minha cabeça com aquele
ferro. Agora estou em espírito, vejo a minha cabeça
aberta (pausa). Dói muito! Ainda sinto muita dor,
embora esteja em espírito. É a mesma dor forte que
sinto hoje quando tenho uma crise de enxaqueca. A
dor é tão intensa que um dia cheguei a bater minha
cabeça na parede de desespero, porque a dor não
passava. Nenhum remédio fazia mais efeito. Essa dor
se intensificou dez anos atrás".
- Volte antes daquela cena de sua vida passada em
que seu agressor lhe tirou a vida - peço-lhe.
"Vejo muita gente no mercado. Vendo flores. Sou
muito pobre, meus pais morreram. É uma vila, muitos
barracos, muita gente. Somos pobres, quase não tenho
o que comer. Sou bem baixa, meus cabelos são
compridos, presos por um lenço. Visto uma saia
comprida. Estou atrás do balcão".
- Avance mais para frente nessa cena - peço-lhe.
"Moro num cômodo, não tenho o que comer, não tenho
nada. Eu choro muito. Devo ter uns 12 anos. Tenho
muito medo de morrer de fome, sou sozinha. Saio para
vender flores, mas quase ninguém compra, pois são
todos muito pobres, preferem comprar comida (pausa).
Agora estou morando na rua, vivo de esmolas, deixei
minha casa. Fico sentada no chão pedindo esmolas. Eu
queria que os meus pais ficassem comigo, mas eles
morreram num incêndio. Eu estava no mercado vendendo
flores quando vi a fumaça e saí correndo. A minha
casa estava em chamas, tentei entrar, mas não me
deixaram. Eu fiquei desesperada. Não sobrou quase
nada. Nos fundos da casa, meu pai tinha construído
um quarto onde guardava ferramentas e passei a morar
lá. Foi o único lugar que sobrou do incêndio. Fiquei
sozinha. Sentia muita falta de minha mãe. Mas eu
tinha que trabalhar".
- Avance mais pra frente nessa cena, anos depois -
peço-lhe.
"Agora trabalho numa doceira; moro no fundo da loja.
Faço doces, bolos, trabalho para o meu sustento. A
dona dessa doceira me deu um teto, comida e me trata
como sua filha. Devo estar com 20 anos. Eu cuido da
loja. Ela é muito carinhosa e faço de tudo para
ajudá-la. Essa senhora me ensinou a ler e a
escrever. Eu leio muito! (pausa). Vejo agora vários
soldados. Usam um uniforme escuro, capacetes.
Aprisionam muita gente e queimam suas casas. É a
época da inquisição da Igreja Católica. Queimaram
muitos livros de histórias, romances, poesias,
física. Eles me empurraram, viram os livros e acabei
sendo presa. Aqueles livros não tinham nada de
especial. Não afrontavam os dogmas da Igreja
Católica. Mataram aquela senhora. Eu fui para uma
cela. Vejo muita gente chorando: homens, mulheres,
crianças. Amarraram minhas mãos e as minhas pernas.
Fico deitada numa mesa de pedra. Eles me dão um tapa
na cara, cospem em mim. Eu não entendo nada. Sinto
muito medo (pausa).
Eles foram embora e me deixam ali sozinha. Estou
toda arrebentada. Passei muito tempo lá".
- Avance mais pra frente nessa cena - peço-lhe.
"Estava dormindo e acordei com o barulho de passos.
Alguém está fazendo carinho em mim. Desamarrou as
minhas pernas. O meu corpo está todo dolorido. Ele
diz que sou muito bonita... Oh! Meu Deus! (paciente
grita). Esse homem é o meu marido da vida atual. Ele
puxa a minha roupa. Eu não consigo me mexer porque
minhas mãos estão amarradas. Ele é nojento! Sou
violentada. Tenho vontade de vomitar. Ele me machuca
muito. É horrível!!! (chora copiosamente). Estou
toda suja, seu cheiro é horrível! (pausa).
Aquele desgraçado voltou por vários dias para fazer
a mesma coisa. Um dia sem dizer uma palavra, me
deitou de lado, colocou minha cabeça numa prensa de
ferro e começou a apertá-la. A dor começou e a minha
visão foi ficando turva e fiquei com falta de ar. A
dor é muito forte! (paciente chora
desesperadamente). Ele não pára de apertar a minha
cabeça (pausa).
Meu corpo não se mexe... Estou morta. Vejo o sangue
escorrendo pela minha cabeça. Ela está aberta. Mesmo
após a minha morte física, a minha cabeça dói".
Na sessão seguinte, peço à paciente que pergunte
para o seu Eu espiritual o porquê de seu marido ter
tirado a sua vida naquela existência passada.
(pausa)
"Vejo um salão de baile. Sou um rapaz. Meus cabelos
são ondulados, olhos claros, uso fraque, devo ter
por volta dos 18 anos. Sou filho de uma família
muito rica. Os homens aproveitam para encontrar uma
futura esposa nesse baile. Meu pai diz que eu
preciso encontrar uma esposa, que eu preciso casar.
Ele quer que eu tome conta dos negócios da família.
Temos muitas terras, escravos (pausa).
A música parou, preciso escolher uma moça. Eu me
sinto desanimado. Eu puxo uma para dançar, sem dizer
uma palavra. Olho para os lados, os meus amigos
estão animados. Eu não estou nem um pouco. A música
acabou. Eu a levo para os pais dela. Percebo ao
conversar com o pai que só pensa no meu dinheiro. A
mulher dele tem uma voz estridente, horrível, quero
ficar longe dela. Fico pensando que ter os dois como
sogros seria terrível (pausa).
Acabei me casando com essa moça e tive uma filha com
ela. Meu pai deixou de falar comigo por três dias
pelo fato de não ter lhe dado um neto para ser seu
herdeiro. Ele não aceitava a minha filha de jeito
nenhum, a destratava. Ele nunca lhe deu um beijo ou
a chamou de neta. Passei a odiá-lo por isso. Minha
mãe fazia de conta que não via. Mas a peguei
chorando várias vezes por causa disso".
- Avance alguns anos nessa vida passada - peço-lhe.
"Meu pai agora está velho e sou eu quem administra
os negócios da família. Eu resolvi me livrar do que
mais me incomodava, que era o dinheiro. Comecei a
libertar os escravos, a vender as terras a preço de
banana. Gastei toda a fortuna da família. Só deixei
uma reserva para a minha filha. Meu pai soube e
ficou desesperado. Vendi algumas jóias. Só não
toquei nas jóias de minha mãe (pausa).
Ela só chorava. Acabou morrendo de desgosto, mas a
avisei que iria me desfazer de todos os bens da
família".
- Avance ainda mais nessa vida - peço-lhe.
"Minha filha desapareceu. Fiquei desesperado, só
chorava. Procurei-a em todos os cantos, mas não a
encontrei. Até que um dia recebi um bilhete que
dizia que eu deveria dispor de todo o meu dinheiro
para tê-la de volta. Peguei todo o meu dinheiro e o
coloquei em um baú na entrada da minha fazenda como
dizia o bilhete. Eu armei uma tocaia para pegar o
desgraçado. O homem botou o baú nas costas e eu o
segui. Ele deu voltas e voltas para me despistar,
mas fui atrás dele. Estava exausto, tinha ficado
dois dias de tocaia. Esse homem era um negro e
estava com o baú e a minha filha num cavalo. Ele
parou em uma cabana e a entregou para um senhor".
Para a minha surpresa, era o meu pai. Esperei que o
negro se afastasse da cabana para pegá-lo e dei um
tiro na cabeça dele. Em seguida, bati na porta e
esmurrei o meu pai com todas as minhas forças até
ele desmaiar. Saí daquela casa e a queimei. Nem
peguei o dinheiro. Voltei para casa com a minha
filha, aliviado, sem a presença daquele velho. Ele
batia em minha mãe e nunca me deu carinho. Aquele
velho era "duro como uma pedra". Sempre o odiei.
Fui trabalhar. Minha filha nunca se casou, mas nunca
a obriguei. Minha mulher morreu. Eu envelheci com a
minha filha. Ela me amava de verdade".
- Vá para o momento de sua morte nessa vida passada
- peço-lhe.
"Eu tive um derrame e o lado esquerdo de meu corpo
ficou paralisado. Fico preocupado em deixá-la
sozinha. Comecei a pensar na minha vida e, pela
primeira vez, senti pena de meu pai, embora nunca
tivesse dado valor ao filho, à esposa e à neta. Só
pensava no dinheiro".
- Em seguida, perguntei à paciente se ela conseguia
fazer uma analogia dessa vida passada com o seu
sentimento de ambivalência de amor e ódio que nutria
pelo marido na vida atual.
"O meu pai dessa vida passada que eu matei, é o meu
marido da vida atual. Na vida seguinte, desta vez
foi ele quem tirou a minha vida, me estuprando e
estraçalhando a minha cabeça. Agora na vida atual,
viemos como marido e mulher para nos
reconciliarmos".
Após passar por mais quatro sessões de regressão, a
paciente me disse que nunca mais teve crises de
enxaqueca. Aquela aversão, irritação e nojo pelo
marido desapareceram por completo. Antes, evitava ao
máximo ficar junto dele. Quando ele ligava para ela,
só de ouvir sua voz, ficava profundamente irritada.
Ela me confidenciou que agora é ela quem liga para o
marido. A paciente me disse feliz que estavam
finalmente se dando muito bem.
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