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Vivência Regressiva
Osvaldo Shimoda
Muitos pacientes me perguntam o porquê de não
conseguirem ver nada durante o processo
regressivo. No final da sessão de regressão se
sentem frustrados porque não conseguiram ver
nenhuma cena de suas vidas passadas. A PNL
(Programação Neurolinguística) explica o porquê
disso.
Ela diz que o ser humano busca se comunicar entre
si através de três canais:
a) visual, b) auditivo e c) sinestésico
(sensações).
Embora a maioria dos pacientes traga suas
experiências de vidas passadas ativando sua
memória visual, muitos as trazem de outras formas,
isto é, usam suas memórias auditivas e
sinestésicas (sensações) para recordar suas
vivências passadas.
Portanto, não conseguem ver nada durante a sessão
de regressão porque sua memória visual é pouco
desenvolvida. Daí explica o porquê de não
conseguirem ver nada. Neste aspecto, nem todas as
pessoas trazem lembranças de suas vidas passadas
do mesmo modo. Cada pessoa vai vivenciar a
experiência de regressão de uma ou de várias
formas possíveis que passarei a explicar melhor:
Vivência Visual: as experiências de vidas passadas
são geralmente visuais. As experiências podem vir
de forma nítida, vívida ou embaçada inicialmente
e, no decorrer das sessões se tornam mais nítidas.
Podem ainda vir de forma congelada (parada,
como nas imagens do DVD quando a gente aperta o
botão pause), de forma fotográfica,
pictórica (quadro ou gravura) ou em movimento como
quando a gente assiste aos filmes no cinema e na
TV. Podem vir ainda em forma de flashses
que, em muitos casos, persistem após o término da
sessão de regressão;
Vivência auditiva: certa ocasião uma paciente
subitamente me interrompeu no inicio de seu
processo de relaxamento me perguntando se eu tinha
ouvido uma revoada de pássaros dentro do meu
consultório (a sala estava silenciosa e era
noite). Expliquei-lhe que não havia nenhum pássaro
na sala e que na verdade ela tinha ativado a
memória auditiva de seu passado, daí estar
“escutando” as revoadas dos pássaros. Portanto, na
vivência auditiva, o paciente escuta sons e
barulhos de experiências de seu passado (sons da
natureza). Muitos chegam a ouvir alguém chamá-los
pelo seu nome na existência passada;
Vivência Sinestésica (sensações órgano-sensoriais):
O paciente revivência experiências de suas vidas
passadas sentindo sensações físicas como calor,
frio, paralisia no corpo, dores, odores, paladar e
sentimentos (a pessoa pode chorar, gritar,
contrair-se, revoltar-se, sentir raiva, medo,
angústia, etc.). Em muitos casos, as dores são tão
intensas e reais que é preciso fazer o retorno ao
estado de vigília com mais cuidado para que as
sensações não perdurem após a sessão de regressão;
Vivência intuitiva: as lembranças chegam
intuitivamente (o paciente tem a “impressão
de”...), passando a ficar mais claras no decorrer
da regressão. Na maioria dos casos, o paciente não
vê nada de forma nítida, mas intui. É comum ele
identificar uma pessoa da existência passada como
sendo sua mãe, por exemplo, através do mesmo olhar
(os olhos são o espelho da alma), do sorriso, do
jeito de andar, etc. Os corpos físicos são
diferentes, mas a alma, o espírito, é o mesmo;
Vivência mista: ocorre quando o paciente regride
de forma completa (quando há uma mistura das
vivências anteriormente mencionadas). Ou seja, ele
vê, ouve, sente e intui de forma intensa. Neste
aspecto, existem três formas do paciente
participar de seu processo regressivo:
A) ATIVA: participa ativamente na sessão de
regressão. Ele “entra” no filme, é o próprio
protagonista do enredo; ele sabe que está
revivenciando uma experiência de seu passado e
jamais perde a consciência. Analogamente dizendo,
é como você assistir um filme na TV e se
emocionar, sentir as mesmas sensações físicas do
personagem, como se fosse o próprio ator (atriz)
do filme. Mas sabe que é apenas um filme e não uma
realidade. Da mesma forma, o paciente sabe, tem
consciência que está revivenciando uma experiência
de seu passado;
B) PASSIVA: o paciente regride de forma racional (retrocognição)
como se estivesse assistindo um filme pela TV. É
um telespectador recordando suas vidas passadas,
mas sem se envolver emocionalmente;
C) MISTA: pode regredir ativamente durante quase
toda a sessão de regressão, mas, no final, ao
revivenciar sua experiência de morte, revive de
forma passiva, como um espectador. È evidente que
essa forma de regredir é um mecanismo de defesa
psíquica de não revivenciar experiências muito
dolorosas. É uma forma de sua mente inconsciente
poupá-lo de sentir novamente a experiência
dolorosa de seu passado por não estar ainda
preparado psicologicamente para suportar o impacto
das experiências traumáticas de seu passado,
causador de seu problema na vida presente.
CASO CLÍNICO:
Agressão Física. Homem de 40 anos, solteiro.
O paciente veio ao meu consultório por conta de
seu quadro depressivo. Desde então tomava
regularmente antidepressivo (lexotan), mas
continuava vindo sempre a idéia de suicídio. Seu
pessimismo era muito intenso, a libido inexistente
(falta de apetite sexual). Antes de 1992, seu
interesse sexual era normal, gostava de conversar,
dançar, ouvir músicas. Ao me procurar estava
totalmente retraído, não se emocionava mais,
estava apático. Ao tomar moderador de apetite,
desencadeou uma segunda crise depressiva em 2004.
Desta forma, queria saber o porquê dessas crises
de depressão, pessimismo e desinteresse pela vida.
Ao regredir me relatou: “Estou vendo os meus pais.
Eles são muito carinhosos. Meu pai está bem
vestido, usa barba, eu o vejo em pé dentro de
casa. Estou sentado no chão brincando, devo ter
uns três anos. Minha mãe está sentada na cadeira.
Ela é branca, cabelos pretos. Meu pai é alto,
cabelos pretos e é moreno. Não vejo os meus
irmãos”.
- Avance mais para frente na sua infância -
peço-lhe.
“Estou agora com sete anos. Estou com cabelo
cortado, baixinho, uso topete. Visto uma calça com
suspensórios, calço um sapato branco e meia
branca. Eu sou feliz com os meus pais (pausa).
- Avance mais para frente nessa cena - peço-lhe.
“Meus pais me deixam na escola. É uma escola de
padres, é na Bolívia. As carteiras são
individuais, o professor é padre e deve ter uns 50
alunos. Estou vestindo uma calça azul, camisa e
blusa branca. Era o uniforme da escola. Agora vejo
um outro padre. Ele também é professor, só que de
outra turma. Ele sentou-se do meu lado, ainda não
começou a aula. Ele brinca comigo, fala em
espanhol. Eu ainda não domino bem o idioma porque
antes dos sete anos, minha família morava no
Brasil, em São Paulo. Eu não entendi bem o que ele
me disse e não gostei da brincadeira e lhe
respondi de forma agressiva. Ele não gostou e foi
se queixar para o meu professor. O professor me
chamou e na frente de todos - meninos (as), torceu
minha orelha e me encheu de bofetadas, e, em
seguida, me mandou de volta à minha carteira. Ele
falou: ”Que isso sirva de exemplo para todos“! Eu
estava atordoado, assustado, não estava entendendo
nada. Achei que o meu professor iria apenas chamar
a minha atenção, mas, ao invés disso, me agrediu
brutalmente (paciente começa a chorar
copiosamente). Meu rosto ficou vermelho, doía
bastante. Ele deixou as marcas das mãos dele no
meu rosto. Eu voltei para a minha carteira, não
chorei. Os meus colegas estavam todos
apavorados... Eu me senti sozinho, perdido,
desamparado (chora intensamente). Estava me
sentindo muito humilhado e com muita raiva“.
- Repita essa palavra (raiva) - peço-lhe.
“Raiva! (paciente grita várias vezes). Eu não
contei para os meus pais o ocorrido porque me
senti envergonhado pela humilhação que passei. Eu
não entendi direito a brincadeira daquele padre;
eu não falava direito o espanhol. Após esse
incidente, eu sempre evitava o meu professor e
aquele padre que brincou comigo. Após concluir o
ensino fundamental, voltamos para São Paulo.
Quando tinha 20 anos, voltei à Bolívia e fui
procurar os dois padres. Infelizmente nenhum deles
estava mais no colégio. Tinham sido transferidos
para outro país. Eu só queria entender o que foi
que aconteceu naquele dia. O mal-entendido que
houve com aquele padre fez com que eu me tornasse
uma criança séria, que não gostava de
brincadeiras. Eu me fechei, ficava triste, não era
de sorrir muito. Acho que me fechei de tal forma
que acabei negando esse incidente, tanto é verdade
que eu não me lembrava desse episódio. Só vim a
lembrar agora na regressão de hoje”.
Na regressão seguinte, pedi para que o paciente
imaginasse um palco de um teatro.
- Imagine-se sentado na poltrona da 1ª fileira do
auditório. O teatro está vazio. Imagine vendo
aquele padre que brincou com você, no palco desse
teatro. Focalize o holofote só nele e converse com
ele (pausa). Pergunte-lhe por que ele foi
queixar-se com o seu professor. Diga-lhe também
que não entendeu as suas brincadeiras porque não
dominava bem a língua espanhola.
Ao perguntar ao padre, este lhe respondeu: “Na
verdade, eu não sabia que você não entendia o
espanhol. Eu achei que você estava sendo muito mal
educado comigo, por isso me queixei com o seu
professor. Mas, sinceramente, eu mesmo fiquei
surpreso com a reação violenta dele. Achei que ele
iria conversar com você, não esperava que ele
fosse agredi-lo daquele jeito. Eu me senti culpado
e constrangido com o ocorrido. Peço desculpas por
ter provocado aquele incidente”.
Paciente chora emocionado e diz: “Agora entendo o
que aconteceu. Vejo que houve um mal-entendido de
ambas as partes. Mas agora eu consigo te perdoar.
Para mim ficou claro o que ocorreu naquele dia”.
Após o diálogo, pedi para o paciente se despedir
do padre. No final da sessão, o paciente me disse
que na verdade sentia mágoa daquele padre e não de
seu professor. Após passar por mais quatro sessões
de regressão, o paciente me disse que não se
sentia mais depressivo, se sentia mais solto, mais
disposto e comunicativo. Estava motivado e
esperançoso e já tinha planos para o seu futuro.
Demos por encerrado o nosso trabalho. |