Dificuldade de criar vínculos afetivos

relacionamento satisfatório

As queixas e indagações mais comuns são essas:
“Por que os meus relacionamentos amorosos não dão certo”?
“Sei que esse relacionamento me faz sentir infeliz e que devia terminar tudo, mas o problema é que eu não consigo”.
“Por que saí de um relacionamento negativo, destrutivo, para entrar em outro semelhante? Percebo que não é a 1ª vez que entro nesse tipo de relacionamento”.
“Por que só atraio homens que me desvalorizam, que são agressivos, egocêntricos, possessivos e mesquinhos de afeto”?
“Embora eu saiba que esse relacionamento não vai me levar a lugar nenhum, o que me faz ficar preso a ele”?
“Por que não consigo me entregar num relacionamento amoroso? Não consigo me apaixonar por ninguém”.

Muitos tentam explicar a causa de seus relacionamentos amorosos desafortunados ao binômio sorte e azar atribuindo desta forma sua origem a um fator casualístico e não causalístico. Ignoram, portanto, a lei da causalidade, isto é, de que tudo na vida segue o princípio de causa e efeito.
Por outro lado, no meu entender, um relacionamento amoroso é satisfatório quando há uma reciprocidade de afeto, interesses, compromisso e alegria na existência do outro.
Em outras palavras, aqueles que têm um bom relacionamento amoroso se sentem alegres e reconfortados de terem um parceiro(a) em quem podem confiar bem como compartilhar a sua vida.
Desta forma, é preciso sair da superficialidade e irmos mais a fundo para entendermos o que infelicita as pessoas nos seus relacionamentos amorosos. Eu costumo esclarecer os meus pacientes que os relacionamentos humanos existem para propiciar mudanças internas, ou seja, mudar os padrões de pensamento, os sentimentos e as atitudes inadequados e que o sofrimento é fruto do quanto teimamos em não aprender as nossas respectivas lições, ou seja, em não querermos “enxergar” aquilo que precisamos transformar internamente.

Visto por esse ângulo, podemos dizer que as pessoas que sofrem do ponto de vista amoroso, não percebem que estão alienadas de si mesmas – distantes de si – não “querendo” entrar em contato consigo mesmas.

Caso Clínico:
Dificuldade de criar vínculos afetivos
Mulher de 35 anos, solteira.

A paciente veio ao meu consultório por não conseguir se vincular afetivamente a nenhum homem. Atraia sempre homens que também tinham dificuldade de se entregar e criar vínculos amorosos. E se aparecia alguém disposto a se envolver, acabava o namoro por destratá-lo e agredí-lo. Portanto, era incapaz de amar.

Ao regredir me relatou:
“Estou angustiada (paciente coloca as mãos na garganta e começa a tossir). Vejo um homem apertando o meu pescoço, ele briga comigo”.

– Você consegue vê-lo – pergunto-lhe.
“Ele é moreno, usa uma costeleta, é meio calvo, veste uma blusa com manga fofa, branca. Eu sou loira, tenho cabelos cumpridos, meu vestido é branco, comprido, devo ter uns 20 anos. Eu brigo com ele porque está me traindo com outra mulher (pausa). Ele quer me deixar para ir morar com ela. Eu sinto ódio dele porque me despreza, me rejeita. Ele se apaixonou por ela. Alguém veio me contar e me disse que o viu com essa mulher (pausa).
Vejo agora uma taberna suja, onde as pessoas se divertem e bebem. Ele está com uma mulher. Bebe muito, gosta de uma farra (pausa).
Estou no meu quarto esperando ele chegar, mas estou com medo porque ele sempre me espanca. Ele não queria casar comigo porque gostava daquela mulher. Eu forcei uma situação para ele casar comigo. Ele a namorava e eu o seduzi. No dia do meu casamento, eu estava radiante de felicidade, mas percebi que ele estava infeliz porque continua gostando dela. Eu tenho vontade de matá-la!
Eu sou uma pessoa poderosa, tenho dinheiro, os homens têm que cair aos meus pés, mas quando isso acontece, eu os desprezo.
Mandei matar aquela mulher!
Depois disso, ele começou a beber. Mas ele suspeitava que eu fosse a mandante do crime. Eu me arrependi depois; percebi que não gostava dele. Na verdade, eu o quis por um capricho.
Tomei consciência de que tinha prejudicado a vida de duas pessoas. Passei a ficar atormentada. Acabei ficando sozinha porque ele foi embora. Antes de sua partida, contei-lhe ter sido a mandante do assassinato. Quando ele chegava bêbado, me batia; então uma vez contei a cruel verdade. Ele resolveu ir embora e acabou se tornando um bêbado de rua. Sinto muita culpa por ter destruído o amor deles”.

– Vá para o momento de sua morte nessa vida passada – peço-lhe.
“Morri muito angustiada, com muito remorso. Eu queria que ele me perdoasse, queria uma oportunidade para reparar os meus erros. Achava que não merecia ser feliz. No momento de minha morte, passou uma cena como fosse um filme, com lembranças da minha infância. Na verdade, fomos criados juntos. Por isso, gostava dele como um amigo e não como um homem. Quando aquela mulher entrou na vida dele, eu não queria perdê-lo. Eu era muito possessiva”.

– Você consegue agora estabelecer uma relação dessa existência passada com a sua dificuldade na vida atual de se entregar num relacionamento amoroso? – pergunto-lhe.
“Sim. Eu destruí um relacionamento amoroso entre duas pessoas e trago para a vida presente esse sentimento de autopunição, de achar que não mereço ser feliz. Por isso, eu agrido, destrato os homens que se interessam por mim. Eu não me permito ter um relacionamento amoroso feliz. Reconheço o meu marido dessa existência passada como sendo o meu amigo de infância da vida atual. Percebo agora, que da mesma forma que na vida passada fomos criados juntos, a história se repete: fomos também amigos de infância na vida atual. Posteriormente, eu o levei para trabalhar na minha empresa. E foi ali que o apresentei a uma colega de trabalho. Ela é aquela mulher que ele gostava naquela existência passada. Eles começaram a namorar. Agora estou entendendo, acabei juntando os dois. Em verdade, inconscientemente a minha alma sabia que eu tinha um débito cármico com o casal. Como eu os tinha separado no passado, a minha missão era uni-los na vida atual. E estou percebendo agora que consegui fazer isso”.

No final da sessão, a paciente me compartilhou a sua felicidade por tê-los unido. Estava se sentindo bem, sem sentir mais culpa pelos erros cometidos em seu passado. Disse-me que tinha a impressão que havia tirado um peso enorme de suas costas. Depois de passar por mais quatro sessões de regressão, confidenciou que alguma coisa havia mudado em seu comportamento. Não sentia mais necessidade de destratar os homens que se interessavam por ela.